16.6.06

Cordel é Fogo e é Encantado

Na frente só voz e violão. Deixa que a percussão toma conta do resto. Assim é o Cordel do Fogo Encantado. E muitos são os que foram vê-los ou ouvi-los na Concha Acústica. Antes, na abertura, a presença dos igualmente pernambucanos do Mundo Livre SA, também responsáveis pela casa cheia.
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Um aboio a banda entra. Música meio calma. É como se o céu tivesse parado. Eis que de repente surge um trovão. Um som, mas não vem do céu. São os repiques dos tambores. Rufam, refutam e botam a massa pra pular. É mesmo musica pra pular, inspirada na cultura do sertão. Não há como não se empolgar com a energia dos rapazes vindos de Arcoverde, uma pequena cidade, no semi-árido de Pernambuco.
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Lirinha, vocalista da banda, parece ser ainda o ator de antes. Faz da concha acústica do TCA o seu teatro. Pula, gesticula, brinca com o pedestal. Movimenta pra cima, pra baixo, deixa lá e sai. Vai buscar o fogo. Traz e faz malabarismos com o candeero. Como se tivesse num circo sem futuro. Como se seu pai tivesse lhe ensinado a ser o palhaço. Aquele que conduz a alegria por onde a companhia Cordel passa.
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Vai chegando o tempo de ir embora. Respeitável público, é hora de apresentar a banda. Após a apresentação, o anúncio: “Vamos pegar o avião no Aeroporto Dois de Julho”. A multidão delira em aplausos. E pensar que disseram que eles não viriam mais à Bahia porque fizeram a mesma declaração noutro show.
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Empolgação a parte, é bom lembrar que vivemos numa democracia e a repetição do ato deve ter um preço sim. Talvez o Cordel não seja mais contratado por quem pensa que o nome de um homem pode substituir a história. Contudo, eles não devem se preocupar com isto, podem voltar a Bahia por outras mãos, porque sempre há espaço para um grupo que faz cultura. Sem precisar cecear a sua arte e pensamento.
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O som encerra. A banda vai ao fundo e volta. Só pra lembrar que nunca mais “eu vi o zoim do meu amor, o zoim dela briá”. Ah se juntin nós se bulisse e assistisse aquele show... E o Cordel do Fogo encantou até o clima. Nestes tempos de cair água pra boi nadar, a chuva deu uma trégua, só para deixar aceso o fogo do cordel.

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* Na saída da concha já tinha camelô gritando “DVD do Fogo Encantado”. Com a graça de Walter Benjamin, Deus salve a reprodutibilidade técnica.

Um comentário:

Fabricio Mota disse...

sem comentários... pra mim essa é uma fiel descrição daquela noite. um momento pra marcar a vida de qualquer ser q sente e ainda se deixa invadir pelo "som" num mundo tão poluido pelo barulho da dor. aliás mais do q som, protesto anti-tirania, alegria, rebeldia, tudo numa só arena pra heródoto nenhum botar defeito... e pra todo mestre doma ou griot se deliciar com a sacralidade da música. pra completar, as belas linhas do amigo Roberto martins trazem e fazem cicatrizar memórias tão brilhantes de uma noite fria de junho onde a sensação de chover nunca foi tão ardente quanto o estalar DO FOGO!

é isso aí Robertim!