24.7.06

Uma manhã de domingo, um quintal e um desejo.

O sol do domingo raiou há poucas horas. Não demora muito e o sino da igreja começa a badalar, conclamando os fieis para o encontro dominical. Do quarto, de uma casa situada próximo à matriz, a menina acorda ao som da missa. A reza é proferida estrategicamente aos quatros quantos da cidade, pelas cornetas posicionadas no alto do templo católico.
.
Ela, a menina, não entende de estratégias de comunicação ou devoções religiosas, só acha aquilo tudo meio engraçado e gosta de estar ali. Esperou muito por este final de semana, momento de ir ao interior visitar seus avôs. Através das cornetas, a voz do pároco fica um tanto quanto rouca e a faz rir. De repente, seu riso é interrompido pela sua mãe que acabara de adentrar o quarto.
.
Cumprimenta a mamãe, pula da cama e vai às primeiras tarefas da higiene diária. Escova seus dentinhos de modo apressado. Saí do banheiro e toma a direção da cozinha. Lá está a mesa, farta e bonita, cheia daquelas guloseimas que só a sua vó sabe fazer. Sob os mimos e carinhos da vovó, sem se importar de dividi-los com seus primos e primas, ela saboreia o café, imagina o dia que está por vim e olha ansiosa para o quintal. Ah! O quintal.
.
Aquela é, sem dúvida, a parte da casa que ela mais gosta. Faz do quintal da casa de sua vó, a sua floresta encantada. Basta estar ali, para a brincadeira começar. Surge um mundo de imaginações entre as árvores daquele quintal enorme. Mangueiras, Jaqueiras e Cajazeiras, entre tantas outras, se transformam. É o cenário perfeito para o faz de conta. Ela e suas primas representam aquele último capitulo vivido pela heroína do desenho animado.
.
A dimensão do lugar é engrandecida pelos seus olhinhos de criança. Atravessar todo o quintal e ir até a casa do tio, irmão de seu avô, que mora na casa ao lado, parece mesmo uma viagem, um passeio pelo bosque. A brincadeira empolga, ela tenta subir numa das árvores. Logo é repreendida pela avó. “Meu Deus! Desce daí menina!”. Ela obedece e desce. Se sente reprimida, mas de alguma forma sabe que a vó está ali vigilante, porque se preocupa com ela e com os outros.
.
É estranha essa gente adulta. Um quintal enorme, mil motivos para brincar e eles ficam na varanda, só jogando conversa fora. O pai, o avô, alguns tios, todos ali sentados, enquanto ela e os primos corriam picula, pulavam amarelinha, se divertiam a danar. Os meninos, quando não conseguiam uma bola, usavam uma laranja. As meninas, com ou sem casa na árvore, simulavam a vida das mamães. Davam às suas bonecas o mesmo tratamento recebido de maínha no dia a dia.
.
Logo chega a hora de almoçar. A comida que a menina fez para as bonecas, infelizmente, não servirá de alimento, porque “é de bricadeirinha”. As crianças têm o seu espaço próprio, os adultos dividem a mesa, em meio as suas conversas estranhas. O doce tempero da vovó sacia o apetite da menina, mas a sua atenção ainda é o quintal. Não vê a hora de acabar a refeição e voltar para lá.
.
Ao fim do almoço, ela pára e olha para os adultos. Ainda conversam. Observa-os como se quisesse saber o que tanto existe naquele mundo onde “criança não pode entrar”. Fecha seus olhinhos contemplativos. Por alguns instantes se perde em lembranças, como se estivesse a percorrer um túnel do tempo. A surpresa se dá, quando suas pálpebras se abrem.
.
Diante do espelho não há mais reflexo de menina. A sua imagem agora é de uma mulher feita. Junto a todas as dificuldades da vida adulta. Ela se tornou uma linda morena tropicana, fruta de vez temporana. E assim tão bela, poderia ter o mundo a seus pés. Mas tudo que ela desejava agora, era o quintal da casa de sua vó, como naqueles tempos de criança.

Um comentário:

Patricia Maia Portela disse...

Veleu, Ró!!!
Lindoooo,belo retorno,linda lembrança,doce e querida infância...muito é pouco pra dizer o quanto adorei!!!
obrigada mais uma vez!!!!
Patricia Maia!