21.5.08

É muito Zé na família Irará

“ o meu nome é Severino
Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
Que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
Como há muitos Severinos
com mães chamadas Marias,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia;”
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Coisas de nordestino. E no Irará, não podia ser diferente. Se tem tanta gente com o um nome só, é preciso procurar características para diferenciá-los, ou melhor, identificá-los.
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No caso pernambucano, apresentado por João Cabral, sobram Severinos. No Irará, pelo pouco que percebi, há um grande contingente de José(s).
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Joões, Marias, ou outros nomes, podem também existir ao montes em solo iraraense, mas, por hora, e agora, José - com seu simpático, curto e breve apelido “Zé” - será o nome sobre o qual vamos apontar algumas incidências em solo iraraense.
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Na Família
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Vou começar de casa. Porque na minha família o que não falta é José. Meu avô paterno era José Emanuel, mas conhecido como Zé do Sitio, devido à localidade rural de sua origem. E seu filho mais velho, meu pai, recebeu o nome de José Antônio.
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Ao logo dos seus breves 59 anos de vida, meu pai foi convivendo com várias derivações de seu apelido - Zé. A primeira foi um diminutivo do nome de seu pai. Filho de Zé, Zezinho ou Zezito é. Como brasileiro gosta de reduzir nomes e até mesmo apelidos, de zezito, virou Zito. Assim meu pai era conhecido na Boa Vista, onde nasceu.
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Depois ele veio pra sede do município e ficou mais conhecido como Zé. Entrou para a religião Testemunha de Jeová e virou Zé Crente. Começou a desenvolver a profissão de Rádio Técnico – se tornou então, o Zé do Rádio. Na sua profissão fez um monte de colegas em Feira de Santana. Eles o chamavam de Zé de Irará.
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E a minha relação familiar com os “Zés” vai bem além de nomes e apelidos de meu avô paterno e de meu pai. Meu outro avô, materno, também era José.
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Zé de Souza ou Zé Custódio, a depender de qual sobrenome dele era incorporado ao apelido. Este Zé, pai de minha mãe, teve nove filhos. E, claro, um deles tinha de chamar... José.
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José Martins de Souza, meu tio materno, é um cidadão de alta estatura numa família de maioria baixa. Daí, pra seu apelido ser “Zé Grande”, foi um pulo.
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Como se já tivesse pouco José na família, minha tinha Ninha ainda casou-se, com um moço de nome Zé Lino. Eles também tiveram nove filhos e, lógico, um deles tinha de ser chamado de José. Esse meu primo, não sei porque, fugindo à regra, foi apelidado como Elí.
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Com José de Avô, duas vezes; de pai; e de tio, não sei como não fui batizado de José. Mas, muita gente acha que assim sou, pois, costumam me chamar de “Zé Roberto”. Mal sabem eles que há um “Marcos” onde pensam que seria o “José”.
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Por outro lado. Não ser batizado como José, aliviou um pouco a barra. Talvez seria José demais para uma família só. E se na minha família de sangue, os “Josés” ficam por aí, na família Irará, ainda há muitos outros, “Josés”. Diferenciados por profissões, sobrenomes, nomes de pais, ou qualquer outro motivo.
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No Irará
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“Vejamos: é o Severino
De Maria do Zacarias
Lá da Serra da Costela,
Limite da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
Se ao menos mais ainda havia
Como nome de Severino
Filhos de tantas Marias
Mulheres de outros tantos
Já finados, Zacarias,
Vivendo na mesma serra
Magra e ossuda em que eu vivia”
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No Irará, se é domingo e você pensa em comer galinha com macarrão, pode acordar mais cedo e comprar um frango abatido no abatedouro de Zé Lima. Caso tenha maior aproximação com o dono do estabelecimento, pode chamá-lo de Zé de Fiíto (apelido do pai do rapaz). Ou ainda, quem sabe, com uma intimidade maior, Zé da Bala.
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Caso o prato predileto seja carneiro, pode ir ao mercado de carnes no sábado e procurar o pai de meu amigo e chará de apelido, Ró, o Zé do Carneiro. Se quiser rolar uma balinha de sobremesa, compra na bomboniere de Zé do Doce.
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Se a casa tem energia elétrica, não precisa de Zé Gás pra iluminar, mas pra cozinhar precisa de botijão, aí era só falar com Zé da Brasilgás. Este não mora mais em Irará. Ouvi notícias de que estava em solo europeu. Olha só onde foi parar aquele menino que o povo chamava de Zé de Toinho!
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Lá onde ele tá, deve fazer frio e chover pra caramba. Pior é que se a bica furar, nem dá pra “bater um fio” e chamar Zé Funileiro, daqui até a chegada...
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É, parece que em Irará, bastou ser José e ter um comércio ou profissão, para logo ser apelidado de Zé, tendo o produto/serviço do seu ramo de atividade como sobrenome ao apelido.
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Já outros, recebem como acompanhamento ao apelido Zé, mais um apelido. Só para citar alguns: Zé do Dodge, Zé Mamão, Zé Popó, Zé do Lebre, Zé Buscapé, Zelito, Zé Palito, Zé Bicudo.
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Olhe que tamanho, cor da pele, traço característico do corpo, etc, também é documento e serve para identificar Zé por aqui. Zé Pequeno, Zé Branco, Zé Preto, Zé Bigode, Zé Cego, Zé Miolo, entre outros, que o diga.
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Parece coisa de novela? Pois é. O cidadão que montava sala de cinema no Irará, originário da comunidade do Rato, era José Martins. Apelido? Zé do Rato.
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E nosso amigo Calisto, paulista de nascença que nem José é, pois se chama Fábio, por aqui foi logo batizado como Zé Colméia. Disse que é porque ele lembra certo personagem de desenho animado e suas espertezas. Será?
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Nome de pai ou de mãe também serve para diferenciar José no Irará. Zé de Cândido, Zé de Odílo, Zé de Juju, Zé de Aristides. Esse último é o artesão Zé Nogueira, que, nascido numa data eleitoral, já foi chamado de Zé Eleição.
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Vez por outra, confundem o Zé Nogueira artesão, com o Zé Nogueira advogado. Além das profissões, o Cardoso no primeiro e o Nunes, no segundo, também os diferenciam.
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Se for abrir a lista para distinção por sobrenomes, Irará conhece ou conheceu, mais outro monte de Josés. Zé Mendes, Zé Américo, Zé Leão, Zé Nilton, Zé Estrela, Zé Reis, Zé Aldo, Zé Hertz, Zé Aristeu, Zé Raimundo. Este com sua “ginga” é também filho de Sr. Aristides, portanto irmão do Zé Artesão.
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Como dá pra perceber, por aqui o apreço de famílias pelo nome “José” é forte. Às vezes dá até casamento. Posso mencionar um casal de amigos e vizinhos e pais de amigos meus. O comerciante Mário José Marinho e a professora Maria José Marinho. Tem também, já ouvi falar, um casamento formado por Zé Homem e Zé Mulher.
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De tanto falar em Zé até lembrei de meu amigo Zé Falcón, que não mora em Irará, mas também é José e até que gosta de nossa terra.
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Tá achando que é Zé demais né? É, realmente, concordo que há muito Zé na Família Irará. Não obstante, te aviso que da missa, eu não devo ter contado de um terço a metade.
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Com certeza existem muitos outros Josés na terrinha. Não devo ter lembrado do nome de alguns e devem está faltando muitos outros que não conheço.
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Então, cara leitora ou caro leitor, se puder me ajudar eu agradeço. Comente o texto, pode falar mal ou bem, mas não deixe de citar o nome de algum Zé que faltou.
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Quem sabe numa possível segunda edição, o texto não venha um pouco mais completo. E haja Zé!
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Os versos são de:
João Cabral de Melo Neto
Morte e vida Severina,
(auto de Natal Pernambucano / 1954 – 1955)
“o retirante explica ao leitor quem é e a que vai”

6 comentários:

Anônimo disse...

Ró, gostei muito desses textos falando dos "Zé" de Irará. Bole um depois com os apelidos (se é que você já não o fez). Abraços, Paulinho.

bmendes disse...

MUITO bom Ró de Zé do Rádio!!
Abraço
Bruno de Zé Mamão!! rsrsrs

arsandrius disse...

Kramba!! muito bom esse velho!! foi tanto "Zé" que qualquer um q ler esse texto vai encontrar alguma ligação com algum desses "Zés"...e só de imaginar q ainda não foram todos...heheheheheheh!! vou tentar lembrar d algum q nao tenha sido citado!

Parabens Roberto Martins!

Sérgio Cabelera disse...

Rodésio, vc é realmente sagaz...
Mas tenho por obrigaçao corresponder à sua solicitação e informarmar-lhe que de fato há outros tantos Zés... assim como anecontramos certos, e não são poucos, Josés que não são (apenas) Zés.
Cito:
José Caribé: Zeca Caribé ou Zé Caribé(?)
José Lopes: Zeca Lopes
José Martins (do Catete - Tríplice divisa: Irará, A. Fria e Ouriçangas) Zeca
José ...: Zé Pintado ou simplismente Pintado (do corte)
Zé de Umberto, Zé...

è muito Zé.
Por favor não some aos Zés os manés...
Segim de Migué (pra rimar mió)

Alice Maria disse...

OI Ró!
Essa coisa de Zé também faz parte da minha vida.Além dos Zés citados no texto, meu avô paterno também era Zé,José Cardoso e josé de Campos Nogueira (zézé Nogueira).Achei pouco mim casei com um Zé, José Francisco, e o meu filho também é José.
Depois de Ler o seu brilhante texo mim ocorreu uma idéia, vou deixar aqui um desafio para vc.Que tal falarmos sobre as Marias?. sei que vc não é um cara preconceituoso e criativade não vai lhe faltar.Eu mesma sou Alice Maria, nome da minha vó paterna, minhas irmãa todas tenhe Maria no nome.E Marias é que não faltam em Irará....maria pgo mole, Maria de Elisio, Maria piaba, maria de Juvina............Pense nisso!Um abraço forte!

ed disse...

Oi Ró de Zé do rádio, adorei o texto, pena não ter lido antes.
Ró, também tenho vários “zés” em minha família , por ex: minha avó paterna chamava-se Maria Jose, ou Zezinha do sítio, a materna também chamava-se Maria Jose , minha madrinha chama-se Maria Jose ou Zezé mãe de Tom Zé do jogo do bicho, e pra finalizar casei-me com Maria José em missa celebrada pelo padre Jose Carlos que é homônimo de meu pai, também conhecido por “Carlinhos de Antonio de Chico da Mangabeira” . Sem esquecer meus tios paternos Jose Luiz e Jose Antonio e meu tio materno Jose Luiz filho de Zé de Paulino da Fazenda Urubu que era grande amigo de seu saudoso Zé do rádio.