23.5.11

Visita - Ao acaso encontro com os descendentes de Pedro Veiga

Texto e Fotos de Emerson Nogueira - Mercinho

Emerson Nogueira - Mercinho em seu ambiente de trabalho

Passavam das 11 da manha, dez de maio 2011. Estava eu de cabeça baixa, fazendo o rotineiro trabalho de todos os dias, quando ouvi na janela alguns murmurinhos, parecia uma conversa. Era comum às vezes alguém entrar no Cras, e ficar na janela, então pensei que fosse atendimento.

Pela greta da janela vi um azul que não era o do céu, e sim uma camisa da mesma cor, estiquei o pescoço e vi um senhor, ao seu lado estava uma senhora. Levantei e cumprimentei-os, logo percebi que observavam a casa, hora ou outra apontava algum lugar. Foi quando me ousei a invadir as suas curiosidades.

Convidei para entrar e ficar a vontade. Perguntei o nome do senhor, respondeu-me João Veiga, o faro sentiu que algo de bom estava ali. Naquele momento perguntei: O senhor é alguma coisa de Pedro Veiga, sorrindo me disse: sou filho, percebi que o momento era precioso, pois no mês de aniversario do nosso Irará, receberia um presente muito especial, eufórico fiquei um pouco descontrolado.

Conduzir aos cômodos da casa. Disseram-me que alguns anos atrás alugaram a casa e passaram alguns meses. Em passos lentos os dois conversavam sem parar “ali foi o seu quarto mãe”, a palavra mãe chamou-me atenção, achei que era um casal, e não mãe e filho. Daí, reparei com mais ênfase a fisionomia e vi que a doce senhora era mais velha. Fomos ao quintal e começamos uma prosa. A recente amiga era muito lúcida, senti na sua suave expressão uma sensação de paz.

Comecei as perguntas, derrepente alguém me chama: “Emerson tem gente pra atender”, costumo não deixar ninguém a esperar mais naquele momento não tinha jeito. Sentei na mureta dos fundos com a doce velhinha. A todo o momento o entusiasmo me tomava, disse a eles: “estou muito feliz, vocês não sabem o quanto”. Sorrindo os ilustres visitantes continuavam a me ajudar. Peguei uma folha em branco e comecei a rabiscar, tinha que montar mais um desconhecido quebram cabeças.

Diante de mim estava Dona Celsina Monteiro Veiga, filha de Celso Monteiro e Maria Alencar, nasceu em Aracati no Ceará em 27 de agosto de 1920. Recém nascida apresentou problemas de saúde onde a sua mãe foi orientada a fazer rapidamente o tratamento em Salvador, pois o estado do Ceara não dispunha de atendimento específico para o caso. Partiram de navio com destino a Salvador onde um casal de amigos da família aguardava. Foram acolhidos com muito carinho. Passou-se algum tempo até que a sua mãe teve que retornar para o Ceará, porem não poderia levar a criança por conta do tratamento. A partir deste momento a história de Dona Celsina começaria a ser escrita, o destino reservaria um novo rumo.

Bastante sentida a sua mãe partiu deixando-a com a Srª Maria Cândida Guimarães de Freitas, mãe de Eduardo Guimarães de Freitas e sua esposa Idalina de Almeida Freitas. A família criou uma afetuosa relação com a menina, à mesma ficou boa e passou a ser tratada como filha. Após um ano sua mãe retornou para buscá-la mais foi convencida pelo casal a deixá-la mais um tempo. Passaram-se mais alguns anos e a menina não quis mais ir embora estava apegada ao casal.

Viveu uma infância feliz, estudou em bons colégios na capital até a adolescência, quando O Sr. Eduardo, que na época era Dentista, veio morar em Irará com sua esposa Idalina e aqui passou a trabalhar no Cartório Cível. A jovem ficou em Salvador, pois teria que continuar os estudos.


João Veiga (Filho de Pedro Veiga) e D. Celsina (viúva)

Final da década de 30, Celsina passou a vi em Irará para passar férias. Lembrou que ainda encontrou restos da Igreja ainda na praça. Rapidamente lembrei-me do texto lido há dias atrás no blog de Ró, “Onde se vê o Irará de antes”. Perguntei a ela de quem partiu idéia de derrubar a Igreja, respondeu-me que se falava que havia sido o Padre Jocundo Paulillo, juntamente com as Beatas da época. Aqui, Celsina fez muitos amigos entre eles Cesi Bacelar e Deraldo Bacelar ambos os filhos do Sr. Cesário, Dona Floripes filha de Pitaco, entre muitos outros.

A prosa não pôde continuar, aproveitei e tirei algumas fotos perguntei onde estavam hospedados e que dia iriam embora. Ao sair tratou-me com muita delicadeza.

Alguns dias depois parti para a pousada de Dona Narinha. Celsina estava sentadinha na varanda, entrei e continuei a encantar-me com os depoimentos da amiga.

Lembrou das tradicionais festas do mês de junho, o São João era muito animado, recorda das visitas, todos brincavam e se confraternizam. Uma dessas festas lembra com muito carinho. Era um Baile de Chita realizado na União Iraraense. Foi lá que conheceu o amor de sua vida, o então interventor de Irará Pedro Veiga. O Baile deixou marcas no coração da doce Celsina. Dias depois voltaria a Salvador, mas como se diz o velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”, a página do futuro romance ganharia emoções.

Certa feita sua grande amiga Cesi Bacelar precisava comprar algumas medalhas para um evento e então fez uma carta para a amiga contendo trinta Mires. Por ironia do destino o portador foi Pedro Veiga que teria assuntos a resolver em Salvador. Ao chegar ao endereço, surpreende Celsina com a visita. Deixou a carta e disse que voltaria para pegar as encomendas. Retornou dois dias depois cumprindo o prometido.

Passaram algum tempo e as férias chegaram novamente. Dona Celsina se mandou para Irará. Lembra que a viagem era difícil o motorista da Marinete muitas vezes descia do carro com um facão para abrir o mato. Aquela viagem seria marcante, pois não voltou mais. Perguntada pelos padrinhos se queria estudar ou ficar em Irará a mesma não pensou duas vezes “quero ficar”. Começou a namorar Pedro e foi tudo acontecendo naturalmente.

Dona Celsina conta que Pedro nasceu em 17 de setembro de 1905, era irmão de Gustavo Veiga, ambos os filhos de João Veiga e Maria Rita Veiga. Seu irmão Gustavo chegou a Irará primeiro, era coletor de impostos. Pedro Veiga era Advogado e Político, já havia sido prefeito da cidade de Jequiriça. Gostava muito de política foi Intendente de 1942 a 1944, época da II Guerra Mundial.

Chega o ano de 1945, ano que deixou profundas marcas no coração de dona Celsina. Quando intendente, Pedro Veiga trouxe para Irará o delegado Joaquim Lopes, eram muito amigos. Em Irará, Joaquim Lopes sentou praça e passou a namorar Natalina, irmã de Dário, ambos da família Magalhães, moradores da Fazenda Leão. Tempos depois, Pedro e Celsina receberam um inesperado convite: ser padrinhos de casamento de Joaquim e Natalina.

No dia 06 de fevereiro de 1945 dona Celsina não esperava tamanha surpresa. Vestindo um vestido rosa chega ao casório, lá estavam alguns convidados como Alfredo Dantas, Amadeu Nogueira entre muitos outros. O juiz era o Dr. João Pompilio e o escrivão era Hugulino Barbosa. Começaram alguns cochichos quando Joaquim e alguns amigos mais próximos chamaram Pedro e Celsina para uma conversa, disseram: “vocês querem casar hoje”. O apaixonado casal estava na mesma sintonia. Pedro disse: mais como? Assim de ultima hora, precisamos nos confessar. Logo o amigo chamou o padre Agenor Maia Birley, que disse que o faria no dia seguinte, e que não teria problema. Assim a cerimônia se realizou e todos ficaram muito felizes. Passaram-se alguns meses ate que em 13 de novembro de 1945 nasce João Veiga, a felicidade de casal era visível.


No campo político o ano era difícil, a Ditadura Vargas estava chegando ao fim. Pedro Veiga na época apoiava o General Eurico Gaspar Dultra . Em 02 de dezembro de 1945 é realizada a eleição e Dultra sai vitorioso. Embora Pedro Veiga ficasse contente com o resultado, sua felicidade não era completa, pois vários amigos aqui em Irará foram oposição, entre eles, Elísio Santana. Pedro ficou triste, houve certo desconforto com a situação. Poucos dias após a eleição, Pedro passa mal. Ele não respondia a estímulos básicos. Desesperada a família trás de Feira de Santana o médico chamado Dr. Couto.

Ao ver a situação, o médico manda que Pedro seja levado imediatamente para Salvador. Joaquim Lopes providenciou o carro e partiram. As notícias não eram nada animadoras para Dona Celsina, após o atendimento o médico a chamou e disse que o caso era complicado, havia Pedro sofrido um derrame cerebral muito grave. Arrasada Dona Celsina sai do hospital por algumas horas, não sabia o que fazer. Foi quando lembrou da Igreja do Bonfim, foi à Colina Sagrada. Com a fé que lhe era pertinente fez suas orações e pediu se fosse para Pedro ficar sofrendo que Deus desse-lhe o melhor para ele. Após alguns dias, Pedro morre.

Nesse momento da entrevista senti na velhinha grande emoção, parei e disse: a senhora quer parar? Se não estiver lhe fazendo bem às lembranças, a gente para não tem problema. Dona Celsina olha nos meus olhos e fala: não meu filho, eu vou continuar, isso faz parte da minha vida. “Pedro não me deixou pertence, fazenda, dinheiro, mais me deu minha maior riqueza que é o meu filho”. Nesse momento senti a força de uma grande mulher.

Após o ocorrido ficou muito triste, passou alguns meses em Irará até que decidiu ir embora para Salvador. Precisava trabalhar, cuidar do seu filho João. Conta que era habilidosa nos bordados e arranjou emprego na loja Estela. Ficou alguns anos até que em janeiro de 1949 partiu para Ilhéus. Lá trabalhou em um atelier, e posteriormente em uma escola.

Era vida nova, voltou a estudar, os ventos sopravam positivamente na vida de Dona Celsina. Na época o cacau era forte e a prosperidade era visível em toda região. O tempo foi passando, João crescendo e sempre próximo da sua querida mãe. Eles sempre que podiam vinham passear em Salvador.

Certo dia estava em uma rua da Capital, quando passa um ônibus com o nome Irará. Aquele nome tocou seu coração, ficou contente partiu correndo pra casa para contar a novidade. Chegando a casa chamou à amiga Maria Jose e disse: “Irará já tem ônibus”, “vamos lá”. Dona Celsina, após 40 anos, voltaria a Irará. Pegou o ônibus junto com a amiga.

Chegando aqui relembrou lugares e achou tudo muito parecido, chegou à pensão de Dona Nenê onde se hospedou. Logo saiu para reencontrar amigos, o primeiro deles estava no comércio de Pedro Pinho. Estava de costas, Dona Celsina chegou de mansinho, era Deraldo Bacelar, ao virar-se viu a velha amiga e se cumprimentaram. O Sr. Deraldo logo tratou de acompanhá-las em todos os lugares, ofereceu-lhe a casa e fez praça a todo o momento. Reviu grandes amigas como Floripes, Maria Dantas e muitas outras. Ficou bastante contente passou a vim a cidade sempre que podia. Dizia a seu filho João: “Irará é sua querida terra meu filho”.


Já era final de tarde, agradeci muito a sua colaboração. Levantou e me deu-me um carinhoso abraço, disse que havia gostado muito de mim. Fez questão de dar-me o seu endereço em Ilhéus com telefone. Ao passar no portão emocionei-me, acabaria ali mais uma inesquecível visita.


Mercinho,
Irará 19 de maio de 2011.

2 comentários:

ANTONIO FERREIRA LEAL disse...

Eu sou Antônio Ferreira Leal, irmão de João Leal que foi juiz de Direito em irara. Somos primos de Pedro Veiga; costumamos chamá-lo de tio Pedro Veiga, posto que era mais idoso e era primo carnal de minha mãe Melania Maria Veiga Leal. Tio Pedro Veiga era o nosso maior amigo em Jiquiriçá. A sua chegada em Jiquiriçá era sempre uma festa constante em nossos corações. Ele construiu o primeiro "prédio escolar da cidade que levou o seu nome. Preciso conhecer o meu primo Pedro Veiga Filho. Moro na cidade de Santo antônio de Jesus(BA.) o meu telefone fico é 75 -3631 -4047. Tenho casa na Ilha de Itaparica no Terceira Etapa Ponsta da Ilha, rua Azulão. Teria imensa satisfação de receber essa agente que mora em meu coração. Antônio Ferreira Leal - aflealadv@yahoo.com.br. Aguardo resposta urgente. AFL/

ANTONIO FERREIRA LEAL disse...

O velho tio Pedro Veiga era uma pessoa especial para a nossa família.Tio Gustavinho, também AFLEAL - aflealadv@yahoo.com.br