3.7.16

Versos para #MeuSãoJoãoNaTVE


O pessoal da TVE publicou os versos que enviei para eles com relação ao São João.

Infelizmente, o verso de abertura acabou suprimido na edição e, assim, a primeira estrofe ao invés de septilha virou sextilha...

Mas tudo bem! Valeu a participação, a intenção e o apoio da rapaziada da TVE. E, principalmente, pela valorizada que eles deram à Literatura de Cordel !!! 

Valeu TVE !!! 

Verso original abaixo:

#‎SaoJoao‬ ‪#‎Bahia‬ 

#‎LiteraturadeCordel‬#MeuSaoJoaoNaTVE

Um dia, disse o vidente:
“O cordel vai acabar!”
Sabe nada o inocente
A arte vai se reinventar 
Do papel pro Facebook 
A TVE nos dá um look 
Pro cordel valorizar

Pra não virar personagem 
Modere a dose do licor 
Dance forró, faça viagem 
Nessa ‪#‎BahiaMeuAmor‬
Curta a festa com alegria
Pois o ‪#‎SãoJoãoDaBahia‬
É o melhor Seu Doutor!

Se quiser uma boa dica 
Posse então lhe oferecer
Em Irará a festa é rica 
De tradição e de saber
Tem sanfoneiro no coreto
Milho assado no espeto 
E a turma do Jeguerê...

14.3.16

“Zico” morreu, agora é folclore

As aspas já sinalizam. Não se trata do ídolo do Flamengo. O Zico do qual falo é um “mendigo” (“doido”) de Irará.

Posso dizer que ele era da minha geração. Não sei se um pouco mais novo, não sei se um pouco mais velho. Conheci o Zico quando eu era criança e ele também era.

Nunca soube ao certo do histórico dele, mas sempre ouvi muitas histórias (ou estórias) se contar.

Zico vivia nas ruas da cidade. Certa feita um bancário o adotou. Andou limpinho por alguns dias, depois, não se adaptou e voltou a viver nas ruas. É o que contam. Zico continuou sujo, maltrapilho, pedinte.

Na década de 1980, dizem, ele foi uma das crianças sequestradas em Irará para o tráfico internacional de pessoas. Teria conseguido a fuga e o retorno para sua terra.

Andarilho, Zico conhecia a tudo e a todos do Irará. Chamava as pessoas pelo nome ou apelido, como quem demonstrando intimidade. Aos mais velhos chamava com respeito ou proximidade: “Seu”, “dona”, “tia”...

Certa vez, quando foi pedir dinheiro, ouviu o interlocutor: “Não tenho trocado, Zico”. Daí, ele de pronto mostrou a solução: “Tem problema não, me dá o dinheiro que eu te dou o troco”.

Em outra oportunidade fez uma intimação a um noivo. “Olhe, você enrolou a outra um tempão e não casou, não vá fazer isto com essa aí não”, avisou ao rapaz, diante de sua noiva de alguns anos.

Zico gostava de dar conselhos. Certa feita encontrou alguém saindo de casa apressadamente, tarde à noite, porta a fora, rua a dentro. “Não sai de vez assim não. Olha primeiro”. Alertou.

E também indagou um conhecido se ele confiava na namorada. “Nunca sumiu dinheiro teu não?”.

Gostava de jogo, com quem estivesse disposto a rolar dados com ele, e de rádio. Às vezes, era um cantarolar danado pelas ruas.

Quando meu pai faleceu, Zico veio me dizer para não ficar triste...

Quem procurar saber vai encontrar “causos” e mais “causos”. Entre eles os passados sob distúrbios mentais. Momentos nos quais apareciam os alertas: “Zico tá atacado!”.

Para alguns, um doido. Para outros um simples mendigo que, apesar de ter uma “aposentadoria”, gostava de sujeira e mendicância.

Na vida, alguém que passou. E agora entrou para o folclore da cidade. Assim como outros personagens. Sejam eles os “certos” ou os “doidos de Irará”.

* Em meio as notícias sobre São João e Cristiano Araújo essa pode ter passado despercebida.

Escrito originalmente em 25 de junho de 2015 e postado no Perfil de Roberto Martins no Facebook - https://www.facebook.com/roberttomarttins


Publicado aqui no Blog com pequenas adaptações e acréscimos em 14/03/2016 

10.3.16

Eu estava na floresta, diante do rio, iluminado pelo celular dele

Naná Vasconcelos em foto de 2011 - Divulgação 
Reprodução de O Globo.com


Um dia, em algum lugar perdido no tempo, entre 2003 e 2006, e achado na minha memória. Concha Acústica do Teatro Castro Alves, Salvador Bahia.
Era um show do Cordel do Fogo Encantado. Convidaram um conhecido deles, então desconhecido meu, para fazer uma participação especial.

Aquele homem chegou à frente do palco e foi segmentando a plateia. “Aqui desse lado, aquele outro, quem tá lá em cima...” Eu, meio impaciente, pensava comigo: “Que besteira”.
Ele deu um som pra cada parte fazer. E depois saiu orquestrando a plateia. Entra o pessoal do “uuuuu”, agora o “chuaaaaa”... e seguia chamando sons, comandando o tempo de cada um deles, em cada parte da plateia, entrar.
Quando ele juntou tudo, não estávamos na Concha. Estávamos na floresta, em plena noite, diante de um rio. Era puro som de natureza. Rio, vento em árvores... Mais de 5 mil pessoas nesse frisson. Pensei sozinho: “Que de fuder!!!”
Esperava viver esta emoção estética novamente. Hoje, recebi a notícia de que não mais a vivenciarei. Ao menos sob a regência do maestro Naná Vasconcelos, não.
Ele se foi. Quem acredita, vai dizer que toda noite ele estará lá de cima, sinalizando pras bandas de cá, com o seu celular...

"O celular de Naná" - Dê o play e ouça a música de Otto


7.12.15

Seja "Feira da Mandioca", seja "Festival de Beijú", vale a afirmação das pessoas e da produção local


Cartaz de Divulgação do Festival do Beijú - 
a acontecer nos dias 12 e 13 de Dezembro


Irará ficou órfão da Feira da Mandioca. Agora anuncia-se o Festival Itinerante do Beiju. 

Não sei dizer se esta itinerância pretende passear por outros municípios ou pelas diversas comunidades rurais iraraenses. 

De antemão, sei que Irará precisa deste tipo de evento. E é bom que ele fique por lá. Que mantenha periodicidade. Seja semestral, anual ou bi-anual. O importante é ganhar solidez e não deixar de ser realizado. 

O município precisa ter em seu calendário sociocultural um evento para celebrar, reafirmar e divulgar os produtos e a produção agrícola familiar de suas localidades. 

Eventos como Feira da Mandioca, Festival de Galinha Caipira e Festival do Beijú são bons para isto. Eles costumam dar visibilidade aos produtos, aos produtores e ainda podem gerar boas perspectivas de negócios e autoestima. 

Segundo fui informado por uma renomada beijuzeira do Irará, numa das Feiras da Mandioca, um pesquisador conheceu o “beiju colorido”, incrementou seus estudos no produto e depois o difundiu pelo Brasil a fora. 

Ainda de acordo com aquela beijuzeira, quando questionado sobre a origem, o pesquisador apenas dizia: “vi numa Feira”. “Sequer se dava ao trabalho de dizer onde foi a Feira”, me disse a senhora, indignada.

Talvez, se o “beijú colorido do Irará” estivesse patenteado, o pesquisador não teria como “esquecer” o nome da cidade. 

Profissionalizados, organizados e feito em parecerias solidas, sejam Feiras ou Festivais, este tipo de evento direcionado à agricultura familiar tem tudo para crescer em solo iraraense.

Desta maneira, é simbólica a homenagem a ser feita ao saudoso Jarinho da EBDA neste Festival do Beijú. Tomara que a vontade e o trabalho dele pela evolução dos movimentos sociais agrícolas de Irará sirvam de inspiração.

E que estes momentos de celebração sirvam, de fato, para celebrar as colheitas, as produções, as manifestações da cultura rural e a prosperidade do município. Para afirmar as pessoas e a produção agrícola das famílias iraraenses.

9.11.15

Arte de rua, mídia e mendicância




Lembro Machado de Assis: 

“Ela era bonita, mas era coxa. Por que coxa, se bonita? Por que bonita, se coxa?” 

Pulo das lembranças do celebre Memórias Póstumas de Brás Cubas para a página A7 do A TARDE de sexta, 30/10/2015. 

A notícia “Jovem toca sax na rua para pagar a faculdade” apresenta uma aspa atribuída ao administrador Gustavo Correia, 44 anos. 

“É curioso, porque a gente, que reside aqui de Salvador, não está habituado a conviver com pessoas se apresentando nos espaços públicos. O rapaz é, de fato, corajoso. Ele está de parabéns”.

É totalmente possível ao administrador, “residente em” ou “residindo de”, falar de uma Salvador diferente da vista por mim. Ao contrário dele, na soterópolis por onde trânsito, vejo pessoas “se apresentando nos espaços públicos”. 

Malabaristas nos sinais; músicos, atores, palhaços e poetas nos ônibus; estátuas vivas nas praças... Muitos que talvez nunca tenham merecido sequer uma nota, quanto mais ter foto estampada na capa do jornal, como o rapaz do sax. 

Lembro-me agora de um senhor. Cabelos alorados, sotaque arrastado num tipo meio confuso de portunhol. Ele já entrou algumas vezes em ônibus nos quais eu era passageiro. 

Com um sax meio desbotado, certamente pela ação do tempo, toca músicas internacionais conhecidas e manda o seu recado.  Certa feita, o vi se apresentando na Cantina da Lua, de Clarindo Silva, lá no Pelô. Nunca o vi na capa do jornal. E, quem sabe, talvez nunca tenha sido citado por qualquer um diário...  



De cara, penso que A Tarde perdeu uma oportunidade de contextualizar sobre arte de rua em Salvador. E, ainda por cima, pareceu se resumir e assumir para si o discurso de uma única fonte. 

Diante do quadro fiquei a me perguntar se, ao produzir esta notícia, o jornal não se valeu do critério “mendigata” ou “mendigato” de noticiabilidade. 

Seria este rapaz do sax, estudante universitário, com formação em filarmônica, tocando música clássica e boa aparência, “um artista”, enquanto os outros seriam apenas “pedintes”? 

"E porque ele se apresenta na rua, se bem afeiçoado? Porque bem afeiçoado, se apresenta na rua?" 

De repente é o que se perguntam os passantes daquela avenida em frente à sede do jornal. Transeuntes e prováveis fonte única de opinião a ser considerada pelo periódico. 

PS 1 - Emissoras de rádio reproduziram a notícia da mesma forma deslumbrada e descontextualizada do jornal.

PS 2 – Já escrevi aqui nesse blog sobre um sanfoneiro que se apresenta no ônibus e vendia seus CDs – Artista de Atitude no Buzu


5.10.15

Política provinciana

A pouco mais de um ano das eleições de 2016, a movimentação já é intensa. Tanto do lado governista, quanto do lado oposicionista. Todos armam, articulam e planejam seus movimentos. 

O tema das eleições ganha a pauta em todo canto. No noticiário e nas rodas de conversa. 

Do lado da situação a procura é por um novo candidato. O atual mandatário já foi reeleito e, como não pode mais se candidatar, deseja passar o bastão a um dos seus. 

Dizem que o vice, velho parceiro político do executivo atual, naturalmente seria um candidato. Ele foi escolhido para ser vice pelo próprio titular e tem fama de ser um cara com bom trânsito junto à oposição. No entanto, não sei se o partido terá preferência por ele. 

O nome dos sonhos da maioria no partido é aquela mulher. Ela seria candidata em 2008, quando o atual executivo foi eleito. Preterida na época, apoiou o atual chefe e logrou cargos de destaque nos dois mandatos dele. No cenário atual, ela possui maior peso político do que o seu marido. 

Enquanto isto, no lado oposicionista as definições estão ainda mais incertas. Já são dois mandatos fora do poder. A sede pela volta é grande. Os correligionários têm saudades da gestão daquele que, seguindo os passos do pai, também se tornou o governante. 

Coisas de política de província. Vejam que o pai foi governante, um filho também foi governante e agora outro filho está interessado. A democracia também cria oligarquias. 

Dizem que, naquela província, ganha eleição quem tem dinheiro. E a política de província é bem assim. No entanto, existem mecanismos para barrar a possibilidade algum “aventureiro”, com muito dinheiro no bolso, chegar ao poder pelas graças do povo. 

Lá, o poder sempre é disputado pela polarização entre duas forças. Azuis de um lado, vermelhos do outro, alternando-se no poder.

Em política, tudo pode ser o seu contrário. E, às vezes, pelas características, chamamos de “província” a maior potência política do planeta. Os Estados Unidos da América. 

Barack Obama, o atual mandatário, já foi reeleito. Hillary Clinton, preterida em 2008, ocupou funções de destaque no governo Obama e agora tenta uma candidatura. Ela é a que tem maior chance no partido Democrata. E hoje é mais representativa politicamente do que o marido, Bill Clinton.  

O vice de Obama, Joe Biden, foi colega dele de senado. No Governo Democrata, Joe se destacou por sua habilidade para negociar com congressistas Republicanos. 

A oposição tem muitos nomes como prováveis candidatos. Um deles é Jeb Bush. Jeb é filho de Jorge Bush e irmão de Jorge W. Bush. Os dois últimos já foram presidentes dos Estados Unidos. 

Nas eleições estadunidenses, pode até aparecer um milionário, como candidato independente, com intenções de investir para chegar à Casa Branca, mas a disputa sempre estará polarizada entre Democratas e Republicanos. 

A política é assim. Ela tem ares provincianos. Seja numa cidadezinha de interior ou no maior centro de poder do planeta.