19.12.07

Moska na sopa do parque

Domingo no parque. Crianças brincando, churrasquinho, pipoca, algodão doce, bicicleta. Gente fazendo panfletagem. Comércio, política, arte. Tudo em divulgação. É certo que o movimento no parque cresce, e muito, quando tem música.
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Neste domingo último, o Parque da Cidade em Salvador recebeu um grande público para ouvir as canções do carioca Paulinho Moska, ou simplesmente Moska, como vem sendo chamado já há um bom tempo, não sei se por decisão própria ou indicação de um numerólogo qualquer.
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O ambiente é bucólico. Um belo palco encravado em meio aquele exuberante pedaço de mata atlântica. O público vai chegando e se acomodando aos poucos. Após a apresentação e os reclames de Jéferson Beltrão, Moska sobe ao palco. Somente ele e dois vilões.
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Cumprimenta a platéia, mas quase que não se ouve a sua voz. De repente o som cresce. Agora dá pra ouvir. O artista anuncia a primeira música. “Tudo novo de novo”. A canção sugere começarmos de “onde já caímos”.
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Moska então segue embalando as pessoas, desde os mais tímidos ao fundo, aos mais empolgados, na frente do palco fazendo pedidos. O artista conversa com o público, apresenta suas canções e conta um pouco de como se dá o processo de criação das mesmas.
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Revela: “uma vez comprei uma maquininha, dessas digitais que todo mundo tem hoje, e resolvi sair fotografando o meu reflexo em objetos metálicos de banheiro (torneiras, maçanetas, saboneteiras, etc) dos hotéis por onde eu passava. Isso virou mania e depois obsessão”.
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E durante o show ele ia contando. O vicio de fotografar o próprio reflexo lhe rendeu mais de duas mil imagens. Ia catalogando, separado-as em pastas no computador, dando nomes a algumas. Títulos e imagens que se tornaram frases, poemas e canções. Músicas que viraram álbuns.
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No meio de um destes relatos o som cai. A voz de Paulinho só é ouvida no retorno do palco. Para o público fica baixinho, quase que não se dá para ouvir. Nada de desespero. Nem xingamentos, nem reclamação com a equipe técnica, nem ameaça de cancelar o show, alegando o som ser uma “porcaria” ou falta de respeito com a sua arte. Nada disso.
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Moska começa a bater palma. O público lhe acompanha. Sem o uso do violão, vai cantarolando. Os versos falam de miscigenação, da branquinha que aceita o rapaz de cor, da formação do mulato brasileiro.
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Enquanto as pessoas se encantam com o voz e palmas, os técnicos seguem frenéticos na mesa de som. É um emaranhado de cabos. Uma porção de plugues pra sair de um canto e entrar noutro. A mesa é grande. Muitos canais. Vai ver que foi um único daqueles, o causador de todo o problema e... Já viu.
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Alguns poucos minutos depois o áudio das caixas externas retorna. Moska termina a cantarolisse em alto e bom som. “Tá vendo!? Não doeu nada e ainda ganhei um Martinho da Vila”, diz o carioca, como quem deixa implícito saber que imprevistos acontecem. Nem sempre é necessário pilhar a equipe ou colocar o público contra a produção do show.
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Aí ele aproveita para falar de samba. “Tudo começou aqui”, diz, salientando ser Salvador a cidade “mais mulata do Brasil”. Comunica, a quem não sabe, ser neto da Bahia. “Minha mãe nasceu nesta terra”. “Meu sangue é baiano também”.
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Entre falas e sambas, julga que a “bagunça” foi boa. Daí arranca gritos do público quando fala ser Raul Seixas “a maior ‘bangunça’ deste país”. Anuncia que é preciso retornar ao show, mas diz que ao fim do repertório pode ter a volta da “bagunça”. Parece que desta vez, nem vai ser necessário o velho grito de guerra: “Toca Raul!”
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Moska começa de onde caiu. Volta para seu repertório. Enganou-se quem pensou que o samba estaria fora dele. Paulinho da Viola (“meu xará duas vezes”), Herivelton Martins, Pixinguinha e outros. “Baiana é aquele que entra na roda de qualquer maneira”. Canta e depois confessa nunca ter tocado esta música ao vivo. “Só cantava em casa”. E tocava pra maiínha dele.
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No leque de canções tem músicas próprias; parceria com outros cantores; como “relampiando” com Lenine; e composições e canções executadas por outros interpretes. Tem a presença de Zélia Ducan. É tocado um blues do “príncipe Cazuza”.
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O público é insaciável. Quer mais, pede mais. Moska fala em democracia, “tem gente que já pediu e tá pedindo de novo”. Lembra de quem está no fundo. Prejudicados porque o artista não os escuta. Simula um tit-tic nervoso, um chilique no palco. Muita gente vai à gargalhada.
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Em meio a tantos pedidos diz ter um limite. “Lembrem-se que aqui no palco tem uma mosca”, brinca com seu apelido para falar que tem um limite físico e o show vai acabar a qualquer momento.
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Casais, crianças, coroas. Dava para perceber a presença forte de Maria Joana também. Tá calor? Vai de água, de refri ou uma cerva. Apesar daquele tempo quente do meio-dia do domingo, as nuvens colaboraram e esconderam o sol. O clima era alegre, descontraído, agradável e de nublado a parcialmente nublado.
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Paulino Moska termina o show. Acena e saí do palco. O público pede biz. Será que ele volta? Há quatro ou cinco anos atrás, em apresentação no Parque Costa Azul em Salvador, ele disse que não iria fazer “aquela idiotice” de sair do palco esperar o pedido do público e depois voltar. Preferia ficar tocando músicas fora do set list até a hora que a vontade desse. Desta vez, foi diferente.
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Tal qual o boêmio, ele voltou. Mostrou o seu lado metamorfose ambulante. Diante do calor do público, tirou a camisa. “Vocês vão ver um monte de ossos”. Falava de seu próprio corpo magro, talvez nem imaginando que na platéia tinha alguém mais ceco do que ele.
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Sem camisa e de viola elétrica na mão, empolgou o público. O que toda aquela gente faria se só restasse aquele dia? Se o mundo fosse acabar? O mundo não, mas pouco depois, o show estava terminado e Moska não tocou Raul.
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Talvez nem precisasse mesmo uma canção. A participação do maluco beleza era implícita na energia da festa. O morro e as árvores do lugar fazendo um cerco como um caldeirão. Mistura de pessoas, de cores, de ritmos, de emoções. Uma sopa. E lá pousou um Moska que chegou pra zumbizar.
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Foto: Luis Batista/Fotopress/divulgação, tomada de "emprestimo" no site do terra, com texto de Lucas Esteves.

Um comentário:

Aprendizes de Jornalismo disse...

Muito bom!!! Tão bem descrito que "assisti" aqui, de camarote, o show. E tive idéia do que perdi, quando ele foi à minha terra cantar e eu não fui vê-lo porque estava arrumando a mala da viagem , e disse isso a ele , quando nos encontramos na fila de embarque da aeronave.