6.4.20

Precisa-se de redatores?

Publicação original 09/08/2019 - Blog de Roberto Martins em www.romartins.com/blog



Navegando pela web, encontro muitos sites e perfis de mídia social bonitos, funcionais, etc, mas com textos mal feitos.

Não falo de erros ortográficos. “Herrar é Umano”… Digo sobre a questão estética do escrito.

Tem muito texto truncado, chato de ler, com vocábulos repetidos à exaustão, sem quebras de linha, com formas coloquiais mal empregadas, etc, etc, etc.

Cause-me a impressão de que, em tempos de “manda aldo, manda aldo”, a linguagem escrita perdeu seu valor junto ao público.

Se a digitação já é derrotada pelo audível, toma de goleada do imagético.

Há muito a comunicação visual detém maior preferência, como lembra um antigo ditado: “uma imagem vale mais que mil palavras”. E, na era digital e pós digital, tal primazia se potencializou.

Com milhões sites, perfis e páginas de pessoas, empresas e organizações dos diversos tipos, disputando a atenção do cidadão/consumidor, o apelo visual precisa ser rápido e dinâmico.

Você só tem em média dois segundos para captar a atenção de sua audiência. Neste tempo não é possível se atentar a algum escrito além de um breve título.

Hoje, além de despertar o público, é imprescindível crescer na rede, aumentar a performance e prospectar novos seguidores.

Daí cresce a procura por analista de mídia social, com habilidades em Google Adwords, Facebook Ads, SEO (Search Engine Optimization), entre outros.

Há algum tempo observo uma tendência nos anúncios de vagas das agências de comunicação e até das empresas em geral.

Vejo ofertas para designers e analista de mídias sociais com uma certa frequência. Um anúncio em busca de redator é coisa rara.

“Brasileiro escreve tudo errado, mas todo mundo se entende”.

Quem sabe, nesse ditado acima, resida mais uma justificativa para a escassez de oferta na redação. Se todo mundo se entende mesmo, pra que se preocupar com um texto mais qualificado?

Eu discordo. Considero como de grande importância a presença de um texto bem escrito. Ele também cativa e sinaliza o nível de profissionalismo da pessoa/organização.

Além disto, o design chama a atenção e o texto ajuda a mantê-la.

No entanto, diante dos tempos e dos anúncios de vagas, há de imaginar que as organizações e seus contratantes não pensam assim.

Entre minhas indagações, divido este questionamento com você leitor:

Precisa-se de redatores?


PS: A linguagem escrita também cativa e sinaliza o nível de profissionalismo da pessoa/organização.




4.7.19

Ooh e digital são parceiros. Sabia?



Flagra de outdoor em avenida de Salvador. 
Foto: Roberto Martins

Pois é. Soa bem óbvio, mas ainda há quem não saiba.

Em 2016, ao ver uma defensa na rua, a qual vangloriava a mídia exterior por “não precisar de aplicativo”, fiz uma postagem contrariando-a.

Imagine meu espanto agora, em 2019, quando vejo um anúncio de mídia exterior em moldes parecidos àqueles de outrora.

No meu entender, não cabe a mídia exterior fazer provocações ou sinalizar uma disputa com os dispositivos móveis.

A comunicação digital, através de tais dispositivos, está cada vez mais presente na vida das pessoas e no mercado da comunicação. O celular já passou a ser a principal forma de acesso à internet no Brasil. E esta notícia já tem quase um ano...

A meu ver, as empresas de Mídia OOH (Out OF Home), ao invés de provocar, devem incentivar alianças com a comunicação digital por dispositivos móveis.

Aquela velha máxima do desenho animado: “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

No caso em questão, por exemplo, a campanha poderia ter usado um texto tipo:
“Milhares verão sua marca aqui e logo pesquisarão na internet”.

Esta frase, penso eu, estaria passando ao menos três mensagens:

1 - Anuncie em outdoor porque esta continua sendo uma mídia poderosa para chamar a atenção de quem transita nas ruas.

2 - Não adianta ter presença digital ser você não tiver estratégias para levar as pessoas até a suas mídias. E o outdoor pode lhe ajudar, e muito, nisto.

3 - Outdoor e mídia digital são complementares, anuncie e tenha presença nos dois.

Já me flagrei, e não foi uma vez só, consultando o celular após ver um anúncio em outdoor. O mesmo pode ter acontecido com você e com muitas outras pessoas.  

No futuro, o universo dos outdoors deve ser tomado por dispositivos digitais. Talvez, por uma questão de custo, os painéis eletrônicos ainda não substituíram totalmente a colagem de papel.

Pode crer, o DOOH (Digital Out Of Home) vem com tudo. E aí a parceria será total e indubitável.

30.11.18

Tem boi na praia!

Informe no Rádio
Fez o esclarecimento
Do que foi notícia
Destaque do momento
Após o Sereio de Itapoã
Foi sucesso ontem de manhã
Um boi no mar cinzento

Foi lá em Stella Maris
Que se deu o a-ka-ká
Um boi nadando na praia
Em Salvador, a capitá!
Um touro entre os surfistas
Parecia que tava na pista
Vaquejada em pleno mar

Pense no absurdo!?
Salvador sempre acontece
Essa cidade de ladeira
É um tal de sobe e desce
Aqui se dá de um tudo
Causos miúdo e graúdo
O baiano não esquece

Antes de estar na praia
Boi foi visto no aeroporto
Procurava uma saída
Deste país meio torto
Mas a polícia apareceu
O boi então se escafedeu
Foi parar no mar revolto

Ao ver o mar ele pensou:
“Eitha que abundância!
Não sou vaca de presépio,
de exposição busco distância.
Fugi da tal FENAGRO,
Sou Tim Maia e não abro,
Quero sossego e comilança!”

Distraído no marzão
Boi caminhava em paz
Quando viu, já tava longe
Já era tarde por de mais
Estando no “pasto” errado
O gado morreu afogado
Foi triste, meu rapaz...

Você teve um lamento
E o dono, prejuízo
Se tiver algum seguro
Pode até ter um litígio
Se não tiver assegurado
Já perdeu dinheiro e gado
Que lhe sirva de aviso.  

No sentido figurado
Ter boi na praia é normal
Que afogam suas mágoas
É coisa muito natural
Mas um boi verdadeiro!?
Como diz Fernando Guerreiro
“É uma loucura total !” 


Notícia do G1 sobre o boi na praia - aqui !

5.10.18

A mídia e o tempero do culto à violência



Ilustração colhida no site www.ipvi.pt  


Aparentemente vivemos em tempos de culto à violência. Digo isto pela crença, demonstrada por muitas pessoas, na própria violência para resolver o problema da violência. 

Este sentimento, imagino, não nasce de uma hora para outra. Ele vem crescendo diante de um caldo de cultura (para usar uma expressão in de agora) formado ao longo dos tempos. 

Pensei no tema deste texto depois de ouvir um parente dizer: “Fulano de tal é que tá certo, tem de matar esses vagabundos tudo”. 

"Fulano de tal" é um conhecido âncora de programa de rádio e de TV. 

Certa feita, um motorista de aplicativo disse: “Tem de acabar com esse Direitos Humanos”.

Talvez ele nem lembrasse da sua condição de humano e, portanto, detentor do direito ao qual desejava aniquilar. 

Diante dos comentários, fico me perguntando qual relação poderíamos fazer entre este “culto” de agora pela solução violenta e os programas popularescos de TV, nos quais há um bom tempo a violência quase sempre é apresentada como um thriller policial.

Perseguições, frases de efeitos, helicópteros, corpos, grita por soluções simplórias para problemas complexos... 

De repente pode ser uma boa provocação pensar o quanto muitos dos programas popularescos de rádio e TV são responsáveis pela crença das pessoas na violência para solucionar os males da violência. 

Eles já são nossos velhos conhecidos. Talvez tenham até se abrandado um pouco, mas, vale lembrar, possivelmente uma geração tenha sido criança, passado pela adolescência e chegado a adulto, tendo este tipo de programa midiático no cardápio do almoço ou jantar. 

Posso estar errado, mas não deixo de suspeitar que tamanha exposição, naturalização e simplificação da violência tenha se tornado tempero ou ingrediente deste caldo indigesto de culto à violência, presente no nosso menu social. 

Roberto Martins

05/09/18
Inverno. 


9.3.18

O passeio de Tom Zé em Irará

Publicação original em 4/12/2009 no blog Lupa Digital 

Feira da Mandioca de Irará teve show de Tom Zé

Como diz a citação de Tolstoi, Tom Zé “tornou-se universal cantando a sua aldeia”. Ele não se cansa de mencionar as suas origens e, assim, tornou-se o principal garoto propaganda de sua terra natal, Irará.

A maioria da população iraraense, por sua vez, não conhece a obra de Tom Zé. Ainda há os que o criticam devido certo distanciamento presencial de Tom com a terra. Esta relação de Tom Zé com sua “aldeia” já chegou até ser discutida em artigo acadêmico. 

No sábado, dia 14 de novembro, esta dicotomia foi colocada à prova. Naquela data, Tom Zé fez uma apresentação inédita numa praça pública da cidade. E, também pela primeira vez, os conterrâneos viram um show de Tom Zé acompanhado da sua banda. A apresentação aconteceu dentro da programação cultural da Feira da Mandioca de Irará.

O show causava apreensão no próprio Tom. Quase um mês antes, o tropicalista postou no seu blog um pouco da expectativa descrita como “véspera de natal e coração assustado”. Na hora da passagem de som a sua preocupação era visível.

Passagem de som

Tom parecia tenso. Queixou-se à produção da Feira. “Eu to com um disco sofisticado (referia-se ao Estudando a Bossa), como é que vocês querem que faça uma apresentação aqui? Tem muita barraca de bebida, vai ter gente bebendo… não vão prestar atenção na música”.

Com certeza, o ambiente não era o mesmo do concerto da noite anterior acontecido na sede da Filarmônica 25 de Dezembro.

A ansiedade aparente de Tom contrastava com a tranqüilidade do VT de divulgação da Feira da Mandioca. O vídeo foi veiculado pela TVE – Bahia e o próprio Tom Zé era o anunciante. “Estou levando para Irará o mesmo show que levo para França, pra Suíça…”

O alivio, contudo, voltou tão logo foi evoluindo a passagem de som. Aos poucos juntaram-se curiosos e fãs. Eram admiradores iraraenses e de outras cidades que já haviam chegado para o show.

Ao final da passagem de som, Tom Zé já se apresentava mais calmo. Era visível uma sintonia entre a banda e a técnica da sonorização. O tropicalista agradeceu ao pequeno público que se postava em frente ao palco. “Obrigado pela participação de vocês, mais tarde a gente volta e vai dar tudo certo”.

Repertório precisou ir além do Estudando a Bossa

Show

Quando voltou para o show, Tom Zé já demonstrava bastante tranqüilidade. Retrucou a apresentação feita pela organização do evento, tecendo loas á sua carreira. Suas primeiras palavras foram: “Com vocês, Tom Zé, o vagabundo de Irará. Agora sim, sei que estou devidamente apresentado”.

Sabendo que tocava para um público bastante heterogêneo, num local onde minutos antes do show, imperava em alto volume nos carros e barracas os sucessos de arrocha e do forró eletrônico, Tom Zé não concentrou o show no repertório do Estudando a Bossa.

O set list, definido minutos antes do show, mesclou a apresentação com antigos sucessos e, claro, músicas que mencionam Irará, como o “Abacaxi de Irará” e a “Lavagem da Igreja de Irará”. Esta, espécie de hino da Lavagem da Cidade, é quase a única música conhecida por grande parte da população.

Também fizeram parte do show Nave Maria (primeira da noite); Augusta, Angélica e Consolação; Jimi Renda-se; Ogodo Ano 2000; entre outras conhecidas de quem acompanha a carreira de Tom, como 2001. “Dona Rita Lee mandou um abraço para vocês”, disse Tom Zé antes de cantar a música fruto da parceria entre ele e a rainha do rock brasileiro.

Kitute de Licinho escreveu cordel para o idolo

Considerações

Na platéia, envolvendo cerca de 6 mil pessoas, a demarcação do Território era nítida. Da House Mix para frente, o público que curtiu o show e pediu bis. Para trás, as pessoas que se queixavam “isso não vai acabar não?”.

Para o jovem Produtor de Eventos e colunista de site de forró, Antônio Ricardo (o Kaká D’Irará), “o show de Tom Zé é algo para um teatro”. Ele complementa dizendo que ouviu os comentários na rua de que a organização do evento teria trazido a atração que “eles gostam não que o povo gosta”.

Próximo de um dos stands da feira, uma jovem da zona rural avaliava a apresentação como “um maluco, uma banda maluca, todo mundo com cara de maluco”. Já outra, mais próxima ao palco, ria muito, dançava e até tentava aprender as canções na hora do show.

A estudante Janete Bispo, que sempre disse não gostar da música do conterrâneo tropicalista, no dia seguinte confessou: “Mudei meu conceito sobre Tom Zé”.

Já o cordelista Kitute de Licinho disse sem arremedo. “Eu sou fã”. A admiração de Kitute rendeu edição especial em homenagem ao ilustre iraraense. “Tom Zé: Brilho – Anonimato – Ostracismo – Estrelado”.


Tropicalista entre membros da Chegança

Chegança

O folheto de Kitute resume a trajetória de Tom Zé e, assim como um seminário realizado na cidade, na semana anterior ao show, serve de introdução rápida à carreira do tropicalista, desconhecida por grande parte da população do Irará.

A exceção fica por conta dos amigos, fã e admiradores, de ontem, de hoje e do amanhã. Alguns deles estavam concentrados na Praça da Purificação na quinta-feira, dia 12 de novembro, aguardando a chegada do ilustre conterrâneo.

O espaço era dividido com crianças de uma escolada da cidade que, talvez nunca tenham ouvido uma música de Tom Zé, mas conhecem a “fama” do Filho de Sr. Everton Martins. E eles estavam lá para receber Tom, junto da Banda de Charanga e da Chegança.

A apresentação do Folguedo Popular, cujo enredo dramatiza a chegada dos marujos mouros em terras portuguesas, da qual Tom Zé desconfiava que nem mais existisse no Irará, agora funcionava como saudação a ele próprio.

Um artista aclamado no mundo e com sua obra quase que totalmente desconhecida na sua cidade natal. A alguns não incomodava desconhecer a obra. O importante naquele momento era a badalação. Fotos para Orkut, comentários, estar perto, falar da importância do evento…

Assim Tom Zé voltou a Irará. Com os “óculos escuros”, como disfarçando a sua visão aguçada, quem sabe analisando aquele momento histórico. Com o “relógio de pulso”, contanto o tempo de sua vida, dos tempos de menino tímido e rejeitado à aclamação de agora. E o seu ”rádio de pilha”, para cantar a sua música aos quatro cantos, dando “inveja nos barbados e frisson nas mocinhas”.

É como na canção Menina Jesus, Tom Zé voltou “a passeio, no gozo do seu recreio”.

PS - Tom Zé esteve por três dias em Irará. Gravou programa de TV, um documentário para TVE, participou do Concerto na Filarmônica, almoçou com amigos, re-encontrou parentes, passou por ruas e lugares surgidos depois que ele foi embora de Irará. O passeio rendeu lembranças e descobertas, conforme comentário dele próprio em post no seu blog.   
O passeio de Tom Zé em Irará 

18.2.18

“Gene Simmons” no carnaval de Salvador






Passou batido pela mídia nativa, diante de tantos assuntos para tratar, a passagem de “Gene Simmons” pelo carnaval de Salvador.

A presença do líder do Kiss, no entanto, foi notada por fãs da lendária banda que curtiam a folia na avenida (Circuito Osmar), na noite do sábado, 10/02. 

Enquanto isso, outros pensavam tratar-se apenas de uma fantasia qualquer (“boa pintura”, “tá bem maquiado”...) e algumas crianças se assustaram.  

Na fila da abordagem policial, no pórtico de entrada, “Gene” despertou a curiosidade de um garoto de aparentes 14 anos.

“É fantasia de rockeiro, né?”, “mas parece mais um homem aranha negro”, “você gosta de animes?”, “quem gosta de rock, gosta de animes”...

Com um “português sofrível” o astro respondia às perguntas do baianinho e descobria as dissidências, estéticas e temporais, nos gostos e conhecimentos de cultura pop de ambos.

No circuito, atrás do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, “Gene” foi abordado por um casal com um pedido para tirar fotografia.

“Meu primo é fã do Kiss, vou mandar pra ele como homenagem”, disse o sorridente rapaz.

Quando se preparava para a pose, “Gene” recebeu um pedido: “Bote a língua pra fora!”.

Então o gesto característico do vocalista da famosa banda de rock dos anos 1970/80 aparecia a cada vez que um fã o reconhecia e gritava: “Kiss!”.

E, durante o percurso, foram frequentes os chamados, os cumprimentos e apertos de mão. Língua pra fora, sorriso e sinal do “chifres do rock” como resposta.

O mesmo sinal foi feito pelo guitarrista da banda, de cima do trio, ao perceber o “artista” na pipoca. Talvez mais um fã do Kiss ou amante do bom e velho Rock And Rool.

Entre um solo e outro, em um dos momentos no qual usou as grades laterais do Fobicão para fazer “slide guitarra baiana”, Armandinho Macedo notou a presença do astro e sorriu. Aroldo, ao descer do trio para um breve descanso, acenou em resposta.

André e Betinho, os outros dois Irmãos Macedo, não tiveram a sorte de interagir com esta lenda viva do rock.

Depois do sábado não se teve mais notícias da presença de “Gene” no Carnaval de Salvador. Suspeita-se de que tenha viajado para Irará, no interior da Bahia.

E assim, quem viu, viu. E não pode deixar de notar “Gene Simmons” acompanhado de uma linda menina baiana. Uma máscara carnavalesca verde usada por ela dificultava a descoberta de sua identidade.



15.12.17

O vice do Flamengo ainda me faz rir

Flamengo pousa para foto, no Maracanã (13/12)
Foto Gilvan de Souza/ Flamengo 

A repercussão ocorrida nas ruas e nas mídias sociais durante todo dia de ontem, quinta (14), me levou a esta reflexão.  
“Impressionante como o vice é desprezado por aqui”.

Deve ser coisa de brasileiro.

O vice, como diz o ditado, é o primeiro depois de todos os outros, exceto o campeão. Chegar a uma final não é fácil e não é qualquer time que chega lá. Dezenas ficam pelo caminho.

Brasileiro não vê por aê. Parece esquecer os méritos.

Tenho a impressão de que se o Brasil tivesse goleado a Alemanha na semi-final da Copa de 2014, mas perdesse a final pelo placar de 1 X 0 para a Argentina, muitos torcedores brasileiros teriam sofrido mais e consideraria o “vexame” de ser vice pior do que o fatídico 7 X 1.

Mas confesso que acabei achando graça na sorte do Flamengo agora. Não pelo desfecho do campeonato para o clube e sua flanática torcida, mas pela repercussão.

Teve torcedor de time sem acesso a Libertadores há quase 30 anos se achando no direito de zoar o Flamengo. Logo ele que fez carnaval agora em 2017 diante da remota possibilidade, rapidamente frustrada, de chegar àquela competição continental.

Outro, que só chegou à pré-libertadores de 2018 graças aos serviços de quem aprendeu a ser técnico de futebol no Flamengo, também se achou no direito.

Detalhe, de 2000 pra cá, ele só viu o time dele na Libertadores da América três vezes. Nós flamenguistas vimos oito. E em 2018 estaremos lá novamente, direto na fase de grupos.

E este vice de carterinha do Mengão em diversas competições estaduais, quer se sentir em condições de nos zoar porque o Fla foi vice sulamericano. É muita falta de simancol.

Claro, queríamos o título, mas este vice-campeonato valeu. Valeu as emoções, valeu o aprendizado.

Reafirmamos a frase: “craque o Flamengo faz em casa”.

Saímos quase invictos, só perdemos o jogo de ida da final lá na Argentina. Uma partida na qual o Flamengo terminou em cima, pressionando o adversário.

Começamos a Sulamericana goleando. Nas quartas, munidos da raça rubro-negra, buscamos o empate em resultado adverso no Fla-Flu (um aí Jesus) no Maracanã. E nas semis, com a mesma raça, ganhamos em Barranquilla.

Comprovamos que somos mais que uma nação. Milhões nas embaixadas rubro-negras, nos bares, nos lares, por todo o Brasil e em outros países, de manto sagrado, torcendo muito.

Lembramos da pauta sobre a redução da capacidade de um Templo do futebol, de 200 mil para 60 mil espectadores, e tentativa de elitiza-lo.


Por essas e outras, diante da grandeza do Flamengo, este vice-campeonato me faz rir. Eu rio dos antis. Eles são a piada. 

24.11.17

O paradoxo quebrador da Heineken

Imagem: Reprodução

Gosto das peças com quebras de paradigmas e paradoxo. É atraente a inovação, a criação de algo pouco comum e diferente do costume. E também me enche os olhos a possibilidade de algo poder ser o seu contrário. 

Vejo estas situações acontecerem no comercial da Heineken, estrelado pelo ex-piloto de Formula 1, Jackie Stewart. 

A tradição da propaganda é endeusar o produto. Além de dizer ser o melhor, costuma falar que todos correm atrás dele e o desejam deliberadamente.

O comercial da Heineken, em primeiro plano, mostra algo aparentemente ao contrário da tradição propagandística. O filme apresenta a cerveja sendo diversas vezes negada por Jackie.

Não me recordo de nenhuma marca exibir uma peça para mostrar o seu produto tantas vezes recusado.

No entanto, olhando em volta, não há recusa. Nas entrelinhas, nos arredores e no final está o “pulo do gato”.

Jackie nega a cerveja, mas todos ao seu redor a saboreiam fartamente. E bebem sempre em momentos de alta descontração e celebração de vitória. Olha o subliminar...

A peça é produzida de modo tal que os movimentos da câmera e os closes no produto seduzem o espectador. Dá vontade de tomar uma. Não dá? Fala aê!

No comercial, Jackie nega a cerveja peremptoriamente nos tempos de piloto, mesmo após as corridas, e na maturidade, em uma festa. 

Na saída da festividade vem a cereja do bolo gostoso que é este comercial. Jackie justifica a negativa: “Ainda dirijo”.

A cena antecipa a apresentação da mensagem do comercial: “when you drive, never drink”.

As duas palavras “ainda dirijo”, além de largar a deixa para a mensagem, serve também como testemunho da responsabilidade de Jackie Stewart ao longo dos anos, como piloto e como cidadão.

Destaca-se ainda a forma como a cerveja é recusada pelo protagonista durante todo o vídeo. Ele nega com um sorriso simpático de quem parece dizer: “eu adoraria, mas não posso...”.

É um comercial de cerveja, no qual a cerveja é negada e ao mesmo tempo tem o consumo altamente incentivado. É meio paradoxal e completamente bem feito.

Veja comercial: 



Leia notícia do G1 sobre o comercial

4.9.17

A esportiva é desconsiderada até no esporte



 Goleiro sentiu-se ofendido com editorial do Extra

Onde começa e onde termina a linha limítrofe entre crítica e ofensa?

A divisão é muito tênue. E, talvez por isso, não raro, há quem perceba em toda crítica uma ofensa grave.

Matéria do Uol aborda a repercussão e a resposta do goleiro Alex “Muralha”, do Flamengo, após editorial do jornal esportivo Extra, e apresenta a integra dos escritos.   

O trecho abaixo parece resumir o sentimento da resposta do guarda-metas:

“Isso está longe de ser uma brincadeira. A palavra é humilhação, é execração pública”.

Bateu a curiosidade e segui na leitura da matéria até chegar na reprodução do editorial do Extra.

Jornal - O editorial diz que, a partir das mais recentes atuações do goleiro, o jornal não vai mais chamá-lo pelo apelido, “Alex Muralha”, mas sim pelo nome: Alex Roberto.

(Comportamento já adotado por torcedores do Flamengo no twitter há um tempo)

Na opinião do jornal, o goleiro não merece mais a alcunha de “Muralha” pois desmoralizou o apelido “levando um frango no jogo contra o Paraná pela Primeira Liga. Além de ter errado 100% dos lados nas cobranças de pênaltis”.

O jornal alega que assim o faz “em nome da precisão jornalística” e promete rever sua decisão caso Alex Roberto faça por merecer o apelido de “Muralha” novamente.

Voltei a ler o editorial e li outra vez procurando a “humilhação” e a “execração pública”. Não encontrei. Será miopia minha?

E outra pergunta: um goleiro que toma frango e erra todos os lados em seis pênaltis merece ser chamado de... “Muralha”?

O jornal sequer inventou um apelido novo em homenagem a fase atual do goleiro, apenas comunicou que passará a chamá-lo pelo nome de batismo.

Na resposta do goleiro ao jornal há ainda um possível temor:

“O termo ‘vulgo’, que citam no texto a meu respeito, é normalmente usado para designar bandido, e isso causa constrangimento. É um fato que pode até incitar a violência...”

Para mim, o trecho acima quis forçar um pouco a barra.

No editorial do Extra, o “vulgo” não é empregado para se referir ao goleiro em sí. O termo aparece como uma espécie de sinônimo para “apelido”, quando diz que “Alex Roberto desmoralizou o vulgo”, ou seja desmoralizou o apelido de “Muralha”. 

Torcida - Claro, o temor do goleiro não é de todo despropositado. A história registra diversos exemplos de complicações nas relações entre jogadores em má fase e torcida. Alguns torcedores (se é que podem ser chamados assim) partem mesmo para a agressividade.

No entanto, os jogadores, como ídolos e personagens centrais no palco do espetáculo chamado futebol, tem um local privilegiado e deviam, a partir desta condição, dar o exemplo e desestimular comportamento raivosos.

Desta forma, ao meu ver, o posicionamento mais adequado do goleiro Alex (Roberto ou Muralha) ou de sua assessoria de comunicação seria, ao invés de tentar revidar, rebater ou acusar o jornal, levar o caso na esportiva.

Eu proporia uma resposta mais ou menos nos termos abaixo:

Olá pessoal do jornal Extra!

Confesso ter ficado triste, ao ler o editorial da edição XXX, informando que vocês (por enquanto) não vão mais me chamar de Muralha. Triste porque ganhei esse apelido em reconhecimento a um trabalho de anos. De fato, vivo uma fase ruim, mas o que é uma fase diante de uma carreira repleta de momentos gloriosos? Não dá para julgar o trabalho de um goleiro por um jogo infeliz, não acham? Até porque sei que esta fase ruim passa logo. Então eu voltarei a ser o Muralha de sempre, o goleiro querido e admirado por todos vocês. Estou treinando e me esforçando bastante para corrigir falhas, aprimorar técnica e ser um profissional cada vez melhor. Aí vocês voltarão a me chamar de Muralha. Quem sabe uma muralha tão grande quanto a da China. E assim como o paredão chinês é diferenciado, ao ponto de ser visto até do céu, também serei percebido como um goleiro de destaque incontestável. Um goleiro Extra, tal e qual o jornal de vocês.

Um grande abraço!


Uma resposta nestes termos seria um jeito de aceitar a crítica, reconhecer o momento ruim e mostrar comprometimento e fé no futuro, além de ser uma forma de “levar na esportiva”.

Infelizmente, nestes tempos sombrios a esportiva tem sido desconsiderada até mesmo no esporte. O ódio está ganhando de goleada. E o futebol corre o risco de virar campo de batalha. No gramado, na arquibancada e na mídia.

RM>

17.7.17

Caminhos da roça

“Olha a chuva! Passou...”

A volta de um dia ensolarado, depois de uma semana chuvosa na capital baiana, lembrou-me o São João. A festa, tão esperada, agora está longe novamente. “Nem se despediu de mim”, chegou e saiu rapidinho.   

Demorada foi a viagem pra viver o São João. No período, quando centenas de milhares saem da capital para o interior da Bahia, o engarrafamento na BR 324 já está mais tradicional do que a fogueira.

Em meio ao “cardume”, formado pelas milhares de “sardinhas de lata”, estando eu (dentro de uma delas) a “navegar” lentamente naquele “rio negro” da Vasco Filho, a mente pescava pensamentos diversos e me fazia refletir a situação e suas causas.

Reflexões conduzindo a constatações obvias: “A Bahia só tem uma metrópole!”, comentei.

A soterópolis é a única cidade com mais de 1 milhão de habitantes do Estado. Ela já tem quase três vezes esta marca, enquanto o segundo maior município baiano (Feira de Santana) ainda não chegou a 700 mil.

E, vale destacar, 80% dos municípios da Bahia, assim como o meu torrão iraraense, não chegam aos 30 mil habitantes.

Tão desigual quanto a distribuição do povoamento é a repartição da produtividade econômica pelo território baiano. Para perceber o disparate desta, basta uma rápida olhada em um mapa disponível no sítio eletrônico da Secretária Estadual de Planejamento.


Mapa Territórios de Identidade - Reprodução

O Território Metropolitano de Salvador concentra 77,9% da arrecadação de ICMS (Imposto de Circulação de Mercadorias) prevista para o quadriênio 2016-2019.

O Portal do Sertão, onde quem reina é a princesa Feira de Santana, tem a segunda concentração, com distantes 4,68%. Na sequência vem o Território Litoral Norte e Agreste Baiano, onde Alagoinhas está localizada, com 4,36% da previsão de arrecadação do imposto.

Agora observem que todos os outros 24 Territórios de Identidade do Estado alternam-se em valores entre zero virgula alguma coisa (0,x) e um virgula qualquer tanto (1,y) de porcentagem da arrecadação estadual de ICMS. 

Salvador e cidades próximas são mais desenvolvidas. E as pessoas, como cantavam os Lampirônicos, são atraídas a capital para buscar o capital (e outras “cositas” mais). À procura de emprego, na caça por estudos, garimpando oportunidades, na luta pela sobrevivência...

Há muito se fala em desenvolvimento dos pequenos municípios. Fixação do homem no campo, melhorias na infraestrutura das cidades menores, surgimento de outras metrópoles no Estado, etc.

Muitos defendem a atração de indústrias para o desenvolvimento das cidades menores. Pregam a liberação de recursos e concessões diversas para seduzir empreendimentos fabris, médios ou pequenos, a instalarem unidades no interior. 

A medida já tentada em alguns lugares foi como ouro de tolo. As unidades chegaram, levaram alguns subempregos e tiraram seus lucros. Depois, por qualquer tendência econômica, fecharam as portas e deixaram um cenário de abandono e desemprego. Aí Tiriricou: “pior do que tava, ficou”.

Urge o encontro de um caminho para o desenvolvimento do interior. Um rumo guiado por estratégias lastreadas pelo potencial dos próprios municípios. Um horizonte destinado a prosperidade equitativa da Bahia. Um norte para termos geração de renda espacialmente distribuída em nosso estado.

Naquele 23 de junho, véspera do São João, a minha constante vontade de ver estes caminhos percorridos gritavam em meus pensamentos enquanto eu tomava o meu “caminho da roça”. 

25.5.17

Vida e arte em mímesis

Chico Buarque tem obras de referência sobre o cotidiano brasileiro.
Reprodução Roma Pra Você

Na canção “Cotidiano”, Chico Buarque, como os versos e o próprio título sugere, fatalmente representa a vida cotidiana dos personagens da obra.

Por outro lado, podemos também pensar o inverso. Alguém, de repente, ao se inspirar na canção de Chico, passou a adotar o costume de todo dia sacudir @ companheir@ às seis horas da manhã e beijá-l@ com a boca de hortelã.

Daí é um passo curto para caímos em um dilema de casualidade, ao estilo do “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”.

No caso da canção de Chico, e seu inverso sugerido acima, o dilema é: “a vida imita a arte ou o contrário?”.  

O amor, o amor romântico tal como o conhecemos, teria sido uma invenção da literatura, depois aperfeiçoada pelo cinema. Já ouvi alguém dizer isso...

Afinal, nem sempre os casais e as famílias foram formadas com base naquele amor. Conforme nos mostra a história da humanidade, relações outras costumavam prevalecer na constituição dos grupos familiares.



Glória Pires viveu "Maria de Fátima" principal vilã da novela Vale Tudo (1988/89) - Rede Globo. No final da trama a megera saiu do Brasil e casou-se com um príncipe italiano. 
Reprodução estrelando.com.br

A inversão de rota talvez sirva também para o “e foram felizes para sempre”. Afinal, a busca incessante pela “felicidade”, e pelo nosso imaginado tipo de “felicidade”, certamente não era a grande meta dos nossos antepassados.

É fácil imaginar a mãozinha dada pela literatura, o cinema, a publicidade, etc, para a reconfiguração dos sonhos de felicidade. A ponto de muitos pagarem pela "felicidade" "contida" numa garrafa com design “irresistível”...

Para os mais céticos, finais felizes só mesmo na ficção. A incidência do “foram felizes pra sempre” deve ter motivado esta crença. De tanto “co-incidir” a indústria cultural resolveu mudar um pouco a rota. Então a tragédia deixou de ser “privilégio dos intelectuais” para ocupar os folhetins.

Nas novelas da TV incidiram vilões de destaque terminando a trama “de boa” (como se diz aqui na Bahia), e protagonistas com personalidade dúbia (heróis/vilões), tendo em si qualidades e defeitos antagônicos.

“Isso é apenas pura reprodução da realidade”, defendem os realistas.

“Mas a vida já tem tanta miséria, porque ver miséria na novela também?”, questiona os amantes da ficção ficcional (perdão pela redundância).

Mas, o que é conto de fadas e o que é realidade?




Depoimento de James Hetfield em cena do Documentário Some Kind Of Monster
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Por volta do minuto 63 do documentário Some Kind of Monster, após sair de uma rehab, James Hetfield, frontman do Metallica, faz uma fala reflexiva.

Após exibir cenas de James buscando a filha no balé, o documentário mostra um depoimento dele sobre sua “previsível” vida anterior.

Diz o vocalista: “Acordava no dia seguinte em alguma cama e não sabia quem estava ao meu lado, estava bêbado, de ressaca e tinha um show a fazer. O resultado é igual. Sabe como é? A vida agora é empolgante. Não se sabe o que vai acontecer quando você está de cara limpa, vivendo o aqui e agora”.

Em geral, costumamos buscar a empolgação em algum entorpecente. E, pelo seu depoimento, James Hetfield parece ter encontrado o “grande barato” numa vida familiar cotidiana.

Quantos, mundo a fora, não sonham em viver o “conto de fadas” atribuído ao mundo artístico? Shows, aplausos, curtição, bebedeira e muito sexo...


House of Cards e Netflix comentam crise política do Brasil. 
Reprodução: Twitter

Diante da chamada crise política do Brasil atual, o perfil do twitter do House Of Cards, série do Netflix, certamente inspirada no modus operandi da política estadunidense, desabafou: “tá difícil competir”. E o perfil da Netflix interagiu: “Eu até tentaria, mas se eu reunisse 20 roteiristas premiados não conseguiria chegar numa história a essa altura”.

Ao longo da nossa história, envolta a fábulas, estória oral, teatro, literatura, cinema, entre outras manifestações artísticas, vida e arte tem vivido em mímesis. É uma imitando a outra. Elas se misturam, se provocam, se amam e se enroscam.

Para uns, vale a expectativa da felicidade e do casamento perfeito no final entre o mocinho e a mocinha. Para outros, “não tem beijo final e não vai ter happy end”.

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