30.11.11

Um santo recital para todas as idades



Texto escrito em Março/2005 

Vinhos & Versos é sempre aquela emoção. O de número VI, realizado no último dia 24 de março, não foi diferente. Iniciei o recital com um pequeno texto de autoria própria, no qual tento descrever o ser iraraense. As mesmas palavras apresentaram a exposição da noite: “Dez Iraraenses”*. Uma coletiva de dez artistas que, assim como diz o texto, devem sentir “orgulho de dizer quem é e a que veio”.

Aquela noite prometia e os costumeiros freqüentadores do Vinhos & Versos fizeram as honras da casa. Juci Freitas, com seu jeito síntese de raça e sensibilidade, conduziu aos nossos ouvidos idéias de grandes autores e poemas de sua autoria. Num deles, descreveu a emoção de participar dos recitais. Sentimento compartilhado por Kitute de Licinho, quando declamei um cordel escrito por ele. 

Na seqüência, Kitute leu versos de Patativa do Assaré, demonstrando beber em boa fonte. Tone Coelho saciou sua sede da mesma forma, lendo versos popularizados pelo grupo Cordel do Fogo Encantado. Já Fábio Calixto, só pra não perder o costume, recitou poesias de Nadia Cerqueira e “José” de Drummond. 

Novidade mesmo, foi a participação de pessoas não tão freqüentes e dos marinheiros de primeira viagem. Mauricio Pereira, Bartira Barreto e Eva Santos, deram as suas contribuições. Valdir Sacramento chegou a tempo de mostrar sua rapidez versificada receitando, ou melhor, recitando folhas e chás, para todos os males. Afonso Coelho, depois de ter a sua timidez vencida pelo vinho, virou repentista e lançou desafios. 

Porém, o novo estaria mesmo representado pelas crianças. Jessiele Caroline, de 11 anos, recitou poesias de autoria própria. E João Victor, de 07 anos, versejou em parceria com a sua mãe, Saionara Pinho.

Ali, na participação daquelas crianças estaria o futuro do Vinhos & Versos, como pontuou Kakal Pinto, certo? Errado. Ali já era o presente, que sinalizava para o futuro, observando e respeitando o passado.  Tempo de grandes poetas, de quando a poesia era usada para protestar, para noticiar, para amar... “só sei poesias antigas meu filho” foi o que disse D. Terezinha. Respondo-lhe que são estas mesmo que queremos conhecer. 

Ai então, a primeira mãe, que já havia recitado versos de sua autoria, nos presenteia com o poeta da abolição, Castro Alves. Valendo-se da ternura digna das avós, ela mostrou que pode estar ali, na matriarca, a veia artística da família. 

Por entre vozes declamadoras do idoso, do adulto e da criança, entramos pela madrugada e chegamos até a Sexta-feira Santa refazendo o milagre. 

Se Cristo transformou a água em vinho, com a licença Dele, transformávamos vinhos em versos. Conversão feita num recital empolgante e, como bem mencionou Juci Freitas, protagonizado por pessoas de diversas gerações.

* - Os Dez Iraraenses foram: Rita Lima, Claudemiro Cerqueira, Juveraldo, Cristina Guimarães, Rimaundo, Jussara Batista, Sérgio Luz, Sé Freitas, Naía Cerqueira e Sidney Steves. 


Obs _ Vinhos e Versos VI – Acontecido em 24.03.2005 - 

22.11.11

Em resposta a um comentário no texto anterior

COMENTÁRIO 


olá. 
falar assim é fácil, mas sou músico também e acho injusto essa colocação. cada um tem buscar o seu melhor. pergunto a você se você trabalharia de forma voluntaria sem ganhar nada? porque querer que os músicos não var ganhar a vida em bandas que pagam pelo bom trabalho executado por eles é meio injusto. quem é que iria pagar o cachê deles se montassem um grupo de jazz em irará? como iam se sustentar? quem pagaria um cachê a Gigi, compatível ao que Ivete paga? você? acredito que não se candidataria... acredito que musica pra eles é profissão e não hobby, diversão. quem trabalha de graça é relógio!! 


MINHA REPOSTA: 


Olá! 

“Fácil” é a covardia de falar por trás do anonimato. Porque é “injusto” que eu me exponha, mostre a minha cara para dizer minhas opiniões, enquanto você fica escondido. 

Por tanto, diante da sua falta de “coragem” para assinar um simples comentário em um blog, dá para perceber que “falar” através de um texto opinativo como fiz não é nada “fácil”.    

Ainda mais difícil, e nem um pouquinho indicado, é responder a um anônimo. 

No entanto, diante das questões levantadas, vou viver esta situação esdrúxula de “conversar” com um fantasma. Isto apenas, pelo fato de acreditar na necessidade de fazer algumas ponderações. Assim tentarei minimizar dúvidas ainda possíveis de pairar sobre o texto do post anterior. 

Na minha avaliação o que houve foi incompreensão da leitura de sua parte. 

Em momento algum pontuei no texto que os músicos não deveriam ganhar a vida com a música. Muito menos disse em qualquer citação que deveriam abandonar as bandas de axé ou qualquer outra de música fácil, onde ganham seu sustento. Nem tão pouco disse que eles só deveriam tocar jazz ou qualquer outro gênero de menor apelo mercadológico.   

Quanto às questões, seguem as respostas: 

“pergunto a você se você trabalharia de forma voluntaria sem ganhar nada?”

“Trabalharia” não. O verbo está no tempo errado. Já trabalhei e trabalho. Quer exemplo? Para não me alongar muito, vou citar dois de muitos outros movimentos aos quais já participei. 

Na Casa da Cultura de Irará (CCI) pude, junto com outros companheiros, desenvolver um trabalho na área de Produção Cultural no município. Foi no período entre 2003 e 2009. 

Ainda hoje vemos alguns frutos daquele trabalho reverberar. E foi um trabalho totalmente voluntário, ou melhor, muitas vezes botávamos grana do nosso bolso para pagar algumas contas. 

Há mais de um ano estou mantendo em atividade o Portal Iraraense, um site de cultura e notícias de Irará e região. De acordo depoimentos de vários usuários, o site vem prestando um serviço relevante para a população iraraense. E, se quer saber, como não tenho patrocinador, não ganho um centavo sequer para manter este veículo em funcionamento. Muito pelo contrário, gasto. 

Tenho a proposta de começar a trabalhar o site profissionalmente para poder oferecer um serviço ainda melhor à comunidade iraraense. Mas isto é outra história.  

E como fiz e faço estes trabalhos voluntários? Nas horas vagas é claro. Acredito que em algum momento da vida, todo mundo tem ou deveria ter tido um tempinho para o social. E também não acredito que as pessoas vivam 100% do seu tempo só com atividade remuneradas.   

Como exemplo, na época em que fui presidente da Casa da Cultura de Irará eu trabalhava e estudava em Salvador e isto não foi empecilho para que pudéssemos executar aquele trabalho. Pode perguntar para quem acompanhou.

E observe: Todos os dois trabalhos citados foram desenvolvidos nas áreas as quais tenho formação acadêmica/profissional. Produção Cultural e Jornalismo. 

Eu poderia alegar que, como profissional da área, só faria os trabalhos em questão se recebesse “cachê” para os mesmos. No entanto, apesar de não receber remuneração alguma desenvolvi as atividades citadas, entre outras.  

"Quem é que iria pagar o cachê deles se montassem um grupo de jazz em irará? como iam se sustentar?"

Talvez, se o grupo depois de montado conseguisse agradar, poderia aparecer alguém. Talvez o próprio poder público, caso fosse implementada uma política cultural voltada para a formação de platéia em música, poderia custear as apresentações. E as apresentações possivelmente poderiam criar público e formar mercado. 

Ou, para se aproximar mais da realidade, talvez ninguém pagaria mesmo o cachê deles. 

Entretanto, isto aponta para outra questão a qual eu deixei implícita no texto. Eles só tocariam jazz ou qual outra tipo de música de qualidade se fosse pelo cachê? Será que eles não teriam nenhum tempo livre para tal? Será que na relação deles com a música não tem qualquer “pedacinho” de amor à boa música? Seriam mercenários do tipo “só toco quando tem cachê”? Acredito que não. 

Para ilustrar as questões acima vou falar de uma situação. Há algum tempo atrás era possível vê em praças de Irará jovens cantando, acompanhado de algum músico, fosse ele profissional ou não, com um violão em mãos. Hoje em dia não percebo mais isso. Cadê este gosto pela música? Será que só vai ter alguém tocando um instrumento na praça pública se tiver alguém para pagar cachê? 

E no mais. Este hipotético grupo de jazz, sugerido pelo texto, poderia ser um projeto paralelo. Projeto este cujas apresentações funcionariam como diversão e aprendizado dos próprios músicos. Afinal, acredito que eles se divertiriam tocando boa música, quando não estivesse trabalhando nas bandas de música massiva. 

Muitos músicos profissionais, como por exemplo alguns membros de bandas como Titãs e Barão Vermelho, desenvolvem projetos paralelos. Você, como músico já deve ter ouvido falar disso. 

Naqueles projetos, nos quais devem atuar nas “horas vagas”, eles se sentem mais livres para experimentalismos musicais, diante da ausência de maiores preocupações com o retorno mercadológico. Em minha opinião, eles montam estes grupos por paixão pela música que gostam e não se sentem confortáveis para tocar em suas bandas de origem, tão cheias de compromissos profissionais. 

Portanto, a provocação feita pelo texto está longe de ser uma sugestão ou indicação para os músicos da 25 abandonarem seus trabalhos e ficarem sem sustento, mas apenas sinaliza para que eles também tenham os seus “projetos paralelos”. 

"quem pagaria um cachê a Gigi, compatível ao que Ivete paga? você? acredito que não se candidataria..."

Não sei quanto Ivete paga a Gigi. E também não me interessa saber porque é um acordo profissional deles. No entanto, como Ivete Sangalo é uma artista consagrada, com carreira consolidada no circuito mainstream nacional, imagino ser um montante satisfatório para o músico. 

Então, realmente, como não tenho condições de pagar o que Ivete deve pagar, não posso me candidatar para tal. Mas, fique certo, se eu tivesse meios faria uma proposta para o filho do nosso saudoso Alfredo da Luz para integrá-lo a outro projeto musical.   

“acredito que musica pra eles é profissão e não hobby, diversão. quem trabalha de graça é relógio!!”

Para mim, os melhores profissionais são sempre aqueles os que conseguem trabalhar fazendo o que gostam. Aqueles que podem trabalhar por prazer. Aqueles têm como fazer do seu oficio a sua diversão. Infelizmente, aos que não conseguem unir o útil ao agradável sobram as horas vagas. 

Há tempos circula pela internet um texto atribuído ao publicitário Nizan Guanaes. Entre outras passagens, há uma na qual Guanaes conta uma situação vivida por uma freira. 

O publicitário narra que a freira estava cuidando de leprosos, quando um homem rico disse para ela: 

- Nossa! Madre!! Eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo. 

E a Madre então respondeu: 

- Eu também não. 

É mais ou menos por aí o espírito da coisa. Quando se gosta daquilo que se faz, profissão e diversão andam juntas. As horas passam e você nem sente que está trabalhando. 

Daí, a provocação do texto em momento algum foi para que os músicos trabalhem de graça como relógio (se é que você acha que relógio trabalhe de graça). Muito pelo contrário. 

A provocação foi pra incitar o debate. Se os músicos gostam e conhecem a “boa música” que façam uso dela. E que de vez em quando possam brindar nossos ouvidos, tão carentes de qualidade musical no cenário de Irará. E quem sabe montar algum projeto no sentido de ir na contra-mão da tríade mencionada por Roger do Ultrage A Rigor em “Nada a Declarar”: “Baixaria, dor-de-corno e bunda pra todo lado”. 

No mais, peço desculpas se eu estiver enganado e os nossos músicos se sintam realizados em tocar em bandas com o repertório repleto de canções para as quais, repito, “imagino, não é necessário tanto estudo ou dedicação”. Estudo e dedicação estes, que para mim é necessário ter para integrar o corpo musical da gloriosa Filarmônica de Irará. 

PS: Por favor, não poste mais comentários anônimos. Da próxima vez, não responderei. 

7.11.11

Na torcida pelo revolucionário “Cara de Gato”

Há algum tempo tenho uma inquietação com a Filarmônica 25 de Dezembro. De modo algum, querer questionar o talento dos músicos, a função sociocultural da banda para o município, a sua força e tradição ou qualquer outra das suas características, já muito conhecidas de todos nós iraraenses. A problematização é outra. 

Não raro, ouvimos elogios de pessoas sobre o papel formador da Filarmônica de Irará. São muitas falas acerca do engrandecimento e do caráter profissionalizante da banda para os nossos jovens. Tudo isto é digno, verdadeiro e respeitável. 

A coisa começa a perder um pouco do “glamour”, quando são ditos os exemplos para justificar este traço da banda: “Fulano hoje toca com Ivete!”; “Beltrano tá na banda de Ninha”; “Cicrano é músico de Claudinha Leite”; e “Aquele outro tá no naipe de sopro do Calcinha Preta”.  

Formar mão de obra para estrelas da axé-music ou bandas do circuito massivo é o melhor que a banda pode oferecer?

Sempre acreditei que não. E, ao mesmo tempo, me questionava porque músicos estudam música arduamente, para se dedicarem quase que exclusivamente a tocarem canções para as quais, imagino, não é necessário tanto estudo ou dedicação. 

Por que da Filarmônica local não sai um grupo de jazz? Por que de lá não se origina um quarteto, quinteto, sexteto ou qualquer outro formato de grupo musical que flerte com ritmos como a MPB ou a World Music? Por que não temos um grupo residente de chorinho na 25 de Dezembro? 

Levantei estas questões outro dia na mesa do bar de Didi. Estava diante de ninguém menos do que o novo maestro da 25 de Dezembro. Eu passava por ali, quando cumprimentei Marcelo de Aniceto. Após mostrar para ele rapidamente uma versão avassaladora de 2001 de Tom Zé, gravada em 1969 por Gilberto Gil, ele convidou-me a sentar. Na mesa, além dele estavam o maestro, Didi e Grujó, este, assim como Marcelo, também músico da 25. 

A conversa na mesa foi música, é claro. Estava recente a morte da cantora britânica Amy Winehouse. Didi falou das influências que ela teve da música negra americana. Pus o som de Amy pra tocar e os músicos logo identificaram para mim o som do sax barítono. Era aquele cuja sonoridade eu tinha observado como “envolvente”. 

Foi ao longo desta conversa e outras sobre grupos e estilos musicais, que perdi qualquer receio e lancei as perguntas ao maestro. Quer dizer; maestro não. “Cara de Gato!”. Era assim, como também é conhecido, que ele queria ser chamado. Nada de “Maestro” ou de “França”, seu nome de batismo.

Para minha surpresa, “Cara de Gato” não só aceitou as provocações como também discorreu sobre o assunto. Ele me falou, entusiasmado, de uma filarmônica pra frente, flertando com clássicos da MPB e outras grandes músicas do mundo. Contou-me algumas ações que já vinha desenvolvendo na banda. Depois, mostrou-me, através de seu notebook, gravações da 25 tocando “Let it Be” dos Beatles e outras boas canções.

Entre uma conversa e outra, uma música e outra, eu fui ficando esteticamente tocado com tudo o que ouvia. Empolgado, saquei o celular e mandei um sms para dois amigos: “Agora em entrevista com o homem que vai revolucionar a 25!”. Como tem sido a regra na chamada era digital, era preciso “compartilhar” aquele momento. 

O que chamei de revolução não seria só com os músicos e o repertório. Anteriormente, Marcelo havia me revelado que antes de começar os tradicionais ensaios da 25 de Dezembro, “Cara de Gato” fica em frente a sede da entidade e pega as pessoas pelo braço, convidando-as a assistir o ato musical. 

Dia desses, eu fui ao ensaio da Filarmônica. Lá pude conferir presencialmente o maestro em ação. Sabe aquela visão de um homem a frente de uma banda, gesticulando ou com uma batuta de um lado para o outro? Esqueça! “Cara de Gato” é performático. 

Sons com a boca, bailados e batidas com a mão no próprio corpo, integram o repertório do maestro. “Na apresentação ele interage bastante com o público” me revelou Diógenes Barbosa, presidente da 25. E dava para imaginar. 

O presidente depois me questionou: “Você já viu uma filarmônica tocar reggae?”. Nem deu tempo para responder. Naquele momento a 25 de Dezembro já iniciava os acordes de “Is this Love” de Bob Marley.

Gostei muito dos metais tocando o som do ícone jamaicano da música. Imaginei um contrabaixo e uma guitarra em harmonia com aquele coro... Pedi calma para mim mesmo. “Afinal a banda hoje já tem mais percussão, você também quer cordas?”. Assim acrescenta-se piano e estaremos a caminho de uma orquestra...

Ao final do ensaio o maestro me perguntou. “Tá bom?”. Respondi que sim e ele me disse que: “Ainda vai ficar”. 

Saí da sede da filarmônica com boas perspectivas. Espero que as ações de “Cara de Gato” possam dá um ânimo aos nossos músicos e oxigenar o cenário da música no município. Que essa silenciosa revolução barulhenta possa vingar. Que seja valorizada a diversidade musical e nossas bandas e rádio comunitária possam ter um repertório para além de dois ou três gêneros musicais. 

Estamos na torcida! 

25.10.11

Três canções para São Paulo

Há muitas canções que descrevem cidades. Algumas conseguem sintetizá-las em poucos versos. Mostrar contrastes. Evidenciar sentidos e características. 

São Paulo, como uma grande cidade, deve ter muitas e muitas homenagens em forma de canções. Lembro sempre de Sampa de Caetano e São São Paulo de Tom Zé. 

Vão direto à paulicéia desvairada:

São São Paulo – Tom Zé  (trechos)

São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor

São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo

Sampa - Caetano  Veloso (trechos) 

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

De agora, em diante, na minha curta relação de canções que retratam São Paulo, não poderei deixar “Não existe amor em SP” de Criolo, escolhida melhor música do ano no VMB 2011, de fora.

Versos tão fortes, poéticos e sintetizados como os feitos pelos dois compositores citados acima. Só que o olhar agora não de alguém que veio de fora e fixou morada na capital paulista. Agora é alguém de lá que diz. “Não existe amor em SP”. Será?  

Não Existe Amor Em SP
Criolo 

Não existe amor em SP
Um labirinto mistico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP

Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deus

23.10.11

Sorte dupla, família de Sorte ou o que?

Poucos dias depois que postei aqui no blog o achado de um amendoim com cinco caroços recebi uma ligação de meu primo Eri. “Achei também! Tô mandando as fotos pra você ver”. E ele não achou “um só não The Lock”, achou dois! 



Os dois "amendoins de cinco" encontrados por Eri 


Recebi as fotos e pensei: Será q encontrar amendoim de cinco caroços não é tão difícil como diz o ditado popular ou somos uma família de sorte? (No caso de Eri sorte dupla!) 

De qualquer sorte, avaliar sorte ou destino não é nenhuma clarividência e fatalmente as repostas, se é que existe resposta, não serão encontradas dentro de uma bage de amendoim.  




6.10.11

Faculdade de puxa-saquismo

Maria Eduarda estava pensativa no ponto de ônibus. Lembrou os tempos do colégio. Seu protagonismo, os constantes elogios dos professores e as profecias: “Essa menina tem tudo para ser uma grande profissional”. Presságios confirmados.  Eduarda era muito boa no seu trabalho. Ela sabia disso.

Não era falta de modéstia, nem auto-estima nos ares. Muito pelo contrário. Valia-se de criticidade comparativa e sabia das qualidades dos seus feitos. Era fácil perceber que estavam acima da produção daqueles cujos salários eram muito superiores ao seu. 

Questionou-se: Por que meu trabalho é melhor e ganho menos? Por que com tanto tempo de dedicação não sou promovida? Por que minha qualidade de trabalho não é devidamente reconhecida? Por que não avancei na companhia quando colegas mais novos receberam loas do chefe? Porque...

A quantidade de “porquês” assustou a moça. Susto insuficiente para interromper o filme que passava em sua cabeça. Pais, colegas, professores e manuais de auto-ajuda. Ela havia feito todo o aconselhado nas histórias dos vencedores. 

“Estude para ter uma boa formação”. Mesmo diplomada em instituição de renome, Eduarda continuava a fazer isto. “Seja criativo”. Não era mesmo essa uma das qualidades que as pessoas lhe apontavam? “Seja persistente”. Os tantos anos de lida e tentativa lhe davam atestado. 

“Seja um profissional dedicado e ame o seu trabalho”. Ela sempre gostou muito do que faz e sempre sonhou ganhar a vida com isto. 

Lembrou dos colegas que avançaram; muitos deles com pouca competência. Recordou quando a empresa mudou a chefia.  “Agora é a sua turma que está no comando Eduarda, você vai ser valorizada”, diziam os amigos otimistas. Tal e qual escrito no poema de Drummond, “o bonde não veio, o riso não veio...” e o reconhecimento também não chegou. 

Alguém que passava deixou um panfleto em suas mãos. “Faculdade de Puxa-Saquismo”. Era o título. Aquele talvez fosse um curso importante ainda em falta no currículo de Eduarda. Com este aprendizado certamente teria melhores oportunidades. 

Empolgada, ela alongou o olho e foi ler o cronograma, no qual eram listadas a as disciplinas do curso. Ali dava para sentir a qualidade da proposta. 

Babação de Ovo I e II; Beijos e abraços falsos; Técnicas para achar graça em piadas do chefe; Teoria da gabolice dos atos do chefe; Metodologia de ligar e procurar o chefe toda hora; Sistema de imitação do chefe; Cheretagem expansiva I e II, entre outras. 

O curso era relativamente barato. O pagamento poderia ser feito em suaves prestações. E as aulas eram rarefeitas, um ou dois dias por semana. A quase totalidade delas ministradas à distância. 

Eduarda deu um sorriso amarelo. Ficou pensativa. Voltou a questionar-se: Conseguiria aprender em um curso, o que os seus colegas faziam tão bem sem ter tomado aulas? Seria justa a ascensão de pessoas cujas maiores qualidades são as técnicas ensinadas naquele curso? Será que o seu perfil se adaptaria àquelas lições? Seu orgulho e amor próprio se sujeitariam aquilo? 

Sem resposta pra tudo, dobrou o panfleto, botou no bolso e tomou o ônibus lotado que acabara de chegar.  

Papel esquecido, molhado e desintegrado na lavagem da calça. Eduarda nunca se lembrou de procurar por aquele curso. Consciente e inconscientemente ela sabia que jamais estaria adaptada à “Faculdade de Puxa-Saquismo”. Quem sabe um dia, sua hora chegue.  

29.8.11

Falta um Zé do Caroço


Já escrevi um texto sobre os zés de Irará. Entre os citados e os não citados no escrito, percebe-se que têm muitos Zés. Mas, outro dia olhando a letra da bela canção a seguir, imaginei que falta um Zé do Caroço. 

“Aí quem me dera que fosse Irará!”


(veja também abaixo o vídeo da canção interpretada por Seu Jorge) 




Zé do Caroço
Leci Brandão 


No serviço de auto-falante
Do morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira


Aí como eu queria que fosse em mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira


Mas é o Morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira


E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda gente com a sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela


Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder


No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira
No morro do Pau da Bandeira


Lelelelê Lelelelelelelelelê
Lelelelê Lelelelelelelelelê










Letra do Terra Letras 
Vídeo Zé do Caroço com Seu Jorge do Youtube. 

26.8.11

Recorte - Bennett



* Jornal de Londrina, edição de Quarta-Feira, 08 de Junho de 2011 - Secção Mosaico Pag. 22.

24.8.11

Metáforas em canções tentam definir o amor

O discurso na letra da canção nos faz viajar. Quando os versos rimados são embalados por metáforas então... 


E quando se busca definição para algo que o ser humano muitas vezes sabe o que é, mas não sabe explicar. Os sentimentos, por exemplo. 


Canções para falar de amor têm muitas por aí. Algumas até tentam explicar o que é este sentimento. Muitas delas através de metáfora. 


Resolvi destacar aqui no blog, três trechos de canções muito conhecidas em terras brasileiras/nordestinas, que tentam definir o amor através de metáfora. 


Deixo o leitor a vontade para fazer o julgamento, entendimento, comparação ou avaliação dos trechos a seguir. Boa diversão. 


Trecho 1 -


“O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”


Monte Castelo
Legião Urbana
Composição: Renato Russo (recortes do Apóstolo Paulo e de Camões).


Trecho 2 – 


“O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata feito desgosto de filha”


Faltando um Pedaço
Djavan
Composição: Djavan


Trecho 3 - 


O amor é feito capim
Mas veja que absurdo:
A gente planta, ele cresce
Aí vem uma vaca e acaba tudo


Feito Capim
Aviões do Forró
Composição: Rodrigo Mell / Elvis Pires




Com auxilio luxuoso do Terra Letras 



7.8.11

Nem só de pão viverá a humanidade

Imagine uma criança sendo alimentada somente com guloseimas consideradas as mais gostosas por ela. No seu cardápio diário, nada de feijão, arroz, saladas ou qualquer tipo de legume. O almoço, a janta e o café da manha de todos os dias seriam resumidos a doces, pizzas, salgados e refrigerantes.

É fácil imaginar que este ser humano em questão não viveria por muito tempo. E, certamente, na possibilidade de chegar à idade adulta, o mesmo não teria uma vida saudável. Diabetes, obesidade mórbida, problemas cardíacos, entre tantos outros malefícios, poderiam surgir. O corpo, carente de nutrientes, possivelmente não suportaria por muito tempo.

Esta consciência com o funcionamento do corpo parece que a sociedade já tem. Daí, a clarividência do caso relatado acima ser mais possível de acontecer somente na imaginação. As famílias, as escolas, e os governos não concordariam em permitir que uma pessoa só se alimentasse o tempo todo de besteiras.

O ser humano, entretanto, não é constituído só de corpo. Somos corpo e alma. E é na alma do humano (independente da crença de termos ou não um espírito que se desprende do nosso corpo quando morremos) é que está a nossa capacidade de pensar, de sonhar, de simbolizar, de se relacionar com o outro e com o mundo a nossa volta.

Por isso, se já é notória a necessidade de alimento de qualidade para o corpo, a mesma compreensão devemos ter para com a alma. E a alimentação da alma é a cultura.

Talvez, muitos ainda não pararam para observar o motivo de tantas doenças da alma e mazelas sociais sofridas atualmente. Elas certamente são causadas pela desnutrição cultural da sociedade. Depressões, stress, entre outros, são quase sempre conseqüências de desencanto ou perspectivas de vidas frustradas. Já as faltas de compreensão e de respeito ao próximo, proporcionam os crimes mais diversos e hediondos.

No bojo da indústria cultural, as emissoras de rádio e TV incentivam o consumo rápido e fácil. Tal e qual o doce das crianças, eles oferecem à população produtos “gostosos”, de perfil tentador. Divertir o público com produtos culturais nada “nutritivos”, assim como os doces e refrigerantes, garante o jabá pago pelos empresários. A missão social dos veículos é “esquecida”. Os empresários, por sua vez, “agradecem” as emissoras pela massificação do seu produto que, de tanto ser veiculado, acaba caindo no gosto de quase todos.

Muitos dos governantes, sobretudo nas cidades do interior, vão pelo mesmo caminho do mercado. Dizem seguir a lei da oferta e da procura. Sob o argumento de agradar uma suposta maioria, e talvez pensando em votos, investem em cachês altos para grupos de qualidade duvidosa. Quase sempre são aqueles que expõem mulheres como mercadorias ou pregam o hedonismo exacerbado. Ainda que aquilo signifique a humilhação do próximo.

Tais práticas seguem no sentido contrário ao necessário incentivo para o saudável desenvolvimento social de qualquer povo.

É preciso que seja ampliado o “cardápio cultural” das pessoas. Boa música, bons filmes, livros, peças teatrais, apresentações de manifestações culturais diversas, e um calendário cultural “recheado” de eventos de qualidade, entre tantas outras opções, só iriam fazer bem. Seriam alargados conceitos e compreensões, fortalecendo o rico “caldeirão cultural”, no qual todos nós estamos imersos, mas nem sempre nos damos conta.

Quando isto acontecer, talvez nem sejam mais necessárias leis que visem proibir verbas públicas para pagar cachê de bandas com músicas maliciosas. A própria audiência se encarregaria de censurá-las.
Enquanto não acontece, projetos de lei como o da Deputada Estadual, Luiza Maia (PT - Ba), merecem discussão e crédito.

A sociedade que se preocupa tanto com a saúde do corpo deve também se preocupar com a saúde da mente. A alimentação mental é importante e merece atenção. E nesse sentido, vamos continuar alertando as nossas “criancinhas” de que nem tudo que se acha gostoso é saudável. E em excesso ou com uso único, pode fazer mal. Vale lembrar, que a palavra escrita já disse há milhares de anos atrás: “nem só de pão viverá o homem”.

28.7.11

João Falcão: personagem da história, agora sai da vida


Ouvi na rádio A Tarde FM divulgação do local de sepultamento de João Falcão. Fui pesquisar o assunto na rede e encontrei a notícia da Tribuna da Bahia.

É sempre com pesar que se toma ciência do desaparecimento físico de personagens como João Falcão. Ainda mais no cenário atual da política, tão carente de referências. Ainda bem que João escreveu livros com suas memórias...

Como já disse aqui nesse blog, estive com João Falcão por três oportunidades. Foi a época da escrita da monografia sobre a militância de Aristeu Nogueira. O iraraense Nogueira e o feirense Falcão foram colegas de profissão (advogados), de Partido (Comunista) e de tantas militâncias.

Agora é esperar que sejam perenes os ensinamentos que podem ser extraídos das memórias e lutas de João Falcão. O militante, fundador do já lendário Jornal da Bahia, que já tinha grafado seu nome na história, antes mesmo de sair da vida.


Imagem capturada no Site de A Tribuna da Bahia

27.7.11

O Quarto de Despejo de Carolina Maria



O amigo Jairo deixou em minhas mãos o livro “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”. Ele pediu que quando terminasse a leitura, levasse o escrito para a biblioteca do Colégio Social, antiga Escolinha Saci.

Já estou indo levar. Antes, quero fazer alguns comentários sobre a obra de Carolina Maria de Jesus.


Como o subtítulo já indica, o escrito é a adaptação para livro de anotações em cadernos feitas por uma moradora da favela. Os fatos se dão entre 1958 e 59.

Carolina, a autora, residia na “favela que se expandia na beira do rio Tietê”. Ela tinha mania de escrever e usava papel e caneta como uma espécie de desabafo e reflexão do seu cotidiano.

Um dia, ela conheceu o jornalista Audálio Dantas. Ele tinha ido à favela para produzir uma reportagem sobre a vida no lugar, mas, diante dos escritos de Carolina, teve a seguinte percepção:

“a história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina Guardava em seu barraco”.

O diário virou livro. Carolina ganhou certa notoriedade do público, saiu da favela e chegou à conclusão que fora dela os instintos humanos não são muito diferentes.

Numa entrevista, anexa à edição lida do livro, o repórter pergunta: “Mas foi bom mudar de vida, escapar da miséria e conhecer um mundo diferente daquele da favela?”

Ao que Carolina responde:

“Decepção. Pensei que houvesse idealismo, menos inveja. Mas aqui há não só muita ambição, mas também, o desejo de vencer a qualquer preço. Mesmo que os meios empregados sejam podres. Quando matei um porco, lá na favela do Canindé, alguns vizinhos exigiram um pedaço da carne. Rondavam meu barraco feito bicho que fareja presa. Lá na favela era o porco, aqui é o dinheiro. No fundo é a mesma coisa. Lembrei de meu provérbio: “Não há coisa pior na vida do que a própria vida”.

Os escritos do diário ainda retratam cenas de um triste cotidiano. Brigas, intrigas, problemas com alcoolismo. “A assembléia da favela é de paus e pedras”, relata Carolina.

A obra chegou a ser acusada de ser falsa. Diziam que “uma favelada semi-analfabeta” não teria condições de escrever aquilo.

Alguém também pode considerar o livro como um relato carregado de pessimismo. Nele, estaria em evidência o lado perverso da favela.

Quem sabe, naquela longínqua década de 1950, a vida dos favelados não registrasse mais traços comunitários que, por ventura, não tenham sidos relatados no livro?

Temporalmente e espacialmente distantes, não temos lá muitas condições de fazer julgamentos do tipo. E, como diz o ditado, “quem tem sua dor é que geme”.


Alguns fragmentos do diário de Carolina, transcritos no livro

“A pior coisa do mundo é a fome” – Pag. 167


“A cidade é um morcego que chupa agente” – Pag. 159 (Sobre gastos e custo de vida)

“Se o custo de vida continuar subindo até 1960 vamos ter revolução” – Pag. 117 – (Talvez prevendo o então futuro de instabilidade política da nação)

“Ontem comemos mal e hoje pior” - Pag 107 (anotação do dia 03/09/1959)

“O Brasil precisa ser governado por uma pessoa que já passou fome” – Pag 26 (Queixando-se dos governantes do país).

18.6.11

Amendoim de cinco caroços




Até então eu não saiba, mas agora já me contaram. “Achar um amendoim com cinco caroços é sinal de sorte”. Seria algo como encontrar um trevo de quatro folhas. Pois bem, o amendoim (foto) eu já encontrei...

24.5.11

Quarto Escuro - Peça Jeguerê 2011


Redação e Criação: Roberto Martins.
Auxilio Luxuoso do Google Imagens.
Cartaz do Jeguerê: Marcilio Cerqueira.

23.5.11

Visita - Ao acaso encontro com os descendentes de Pedro Veiga

Texto e Fotos de Emerson Nogueira - Mercinho

Emerson Nogueira - Mercinho em seu ambiente de trabalho

Passavam das 11 da manha, dez de maio 2011. Estava eu de cabeça baixa, fazendo o rotineiro trabalho de todos os dias, quando ouvi na janela alguns murmurinhos, parecia uma conversa. Era comum às vezes alguém entrar no Cras, e ficar na janela, então pensei que fosse atendimento.

Pela greta da janela vi um azul que não era o do céu, e sim uma camisa da mesma cor, estiquei o pescoço e vi um senhor, ao seu lado estava uma senhora. Levantei e cumprimentei-os, logo percebi que observavam a casa, hora ou outra apontava algum lugar. Foi quando me ousei a invadir as suas curiosidades.

Convidei para entrar e ficar a vontade. Perguntei o nome do senhor, respondeu-me João Veiga, o faro sentiu que algo de bom estava ali. Naquele momento perguntei: O senhor é alguma coisa de Pedro Veiga, sorrindo me disse: sou filho, percebi que o momento era precioso, pois no mês de aniversario do nosso Irará, receberia um presente muito especial, eufórico fiquei um pouco descontrolado.

Conduzir aos cômodos da casa. Disseram-me que alguns anos atrás alugaram a casa e passaram alguns meses. Em passos lentos os dois conversavam sem parar “ali foi o seu quarto mãe”, a palavra mãe chamou-me atenção, achei que era um casal, e não mãe e filho. Daí, reparei com mais ênfase a fisionomia e vi que a doce senhora era mais velha. Fomos ao quintal e começamos uma prosa. A recente amiga era muito lúcida, senti na sua suave expressão uma sensação de paz.

Comecei as perguntas, derrepente alguém me chama: “Emerson tem gente pra atender”, costumo não deixar ninguém a esperar mais naquele momento não tinha jeito. Sentei na mureta dos fundos com a doce velhinha. A todo o momento o entusiasmo me tomava, disse a eles: “estou muito feliz, vocês não sabem o quanto”. Sorrindo os ilustres visitantes continuavam a me ajudar. Peguei uma folha em branco e comecei a rabiscar, tinha que montar mais um desconhecido quebram cabeças.

Diante de mim estava Dona Celsina Monteiro Veiga, filha de Celso Monteiro e Maria Alencar, nasceu em Aracati no Ceará em 27 de agosto de 1920. Recém nascida apresentou problemas de saúde onde a sua mãe foi orientada a fazer rapidamente o tratamento em Salvador, pois o estado do Ceara não dispunha de atendimento específico para o caso. Partiram de navio com destino a Salvador onde um casal de amigos da família aguardava. Foram acolhidos com muito carinho. Passou-se algum tempo até que a sua mãe teve que retornar para o Ceará, porem não poderia levar a criança por conta do tratamento. A partir deste momento a história de Dona Celsina começaria a ser escrita, o destino reservaria um novo rumo.

Bastante sentida a sua mãe partiu deixando-a com a Srª Maria Cândida Guimarães de Freitas, mãe de Eduardo Guimarães de Freitas e sua esposa Idalina de Almeida Freitas. A família criou uma afetuosa relação com a menina, à mesma ficou boa e passou a ser tratada como filha. Após um ano sua mãe retornou para buscá-la mais foi convencida pelo casal a deixá-la mais um tempo. Passaram-se mais alguns anos e a menina não quis mais ir embora estava apegada ao casal.

Viveu uma infância feliz, estudou em bons colégios na capital até a adolescência, quando O Sr. Eduardo, que na época era Dentista, veio morar em Irará com sua esposa Idalina e aqui passou a trabalhar no Cartório Cível. A jovem ficou em Salvador, pois teria que continuar os estudos.


João Veiga (Filho de Pedro Veiga) e D. Celsina (viúva)

Final da década de 30, Celsina passou a vi em Irará para passar férias. Lembrou que ainda encontrou restos da Igreja ainda na praça. Rapidamente lembrei-me do texto lido há dias atrás no blog de Ró, “Onde se vê o Irará de antes”. Perguntei a ela de quem partiu idéia de derrubar a Igreja, respondeu-me que se falava que havia sido o Padre Jocundo Paulillo, juntamente com as Beatas da época. Aqui, Celsina fez muitos amigos entre eles Cesi Bacelar e Deraldo Bacelar ambos os filhos do Sr. Cesário, Dona Floripes filha de Pitaco, entre muitos outros.

A prosa não pôde continuar, aproveitei e tirei algumas fotos perguntei onde estavam hospedados e que dia iriam embora. Ao sair tratou-me com muita delicadeza.

Alguns dias depois parti para a pousada de Dona Narinha. Celsina estava sentadinha na varanda, entrei e continuei a encantar-me com os depoimentos da amiga.

Lembrou das tradicionais festas do mês de junho, o São João era muito animado, recorda das visitas, todos brincavam e se confraternizam. Uma dessas festas lembra com muito carinho. Era um Baile de Chita realizado na União Iraraense. Foi lá que conheceu o amor de sua vida, o então interventor de Irará Pedro Veiga. O Baile deixou marcas no coração da doce Celsina. Dias depois voltaria a Salvador, mas como se diz o velho ditado: “Deus escreve certo por linhas tortas”, a página do futuro romance ganharia emoções.

Certa feita sua grande amiga Cesi Bacelar precisava comprar algumas medalhas para um evento e então fez uma carta para a amiga contendo trinta Mires. Por ironia do destino o portador foi Pedro Veiga que teria assuntos a resolver em Salvador. Ao chegar ao endereço, surpreende Celsina com a visita. Deixou a carta e disse que voltaria para pegar as encomendas. Retornou dois dias depois cumprindo o prometido.

Passaram algum tempo e as férias chegaram novamente. Dona Celsina se mandou para Irará. Lembra que a viagem era difícil o motorista da Marinete muitas vezes descia do carro com um facão para abrir o mato. Aquela viagem seria marcante, pois não voltou mais. Perguntada pelos padrinhos se queria estudar ou ficar em Irará a mesma não pensou duas vezes “quero ficar”. Começou a namorar Pedro e foi tudo acontecendo naturalmente.

Dona Celsina conta que Pedro nasceu em 17 de setembro de 1905, era irmão de Gustavo Veiga, ambos os filhos de João Veiga e Maria Rita Veiga. Seu irmão Gustavo chegou a Irará primeiro, era coletor de impostos. Pedro Veiga era Advogado e Político, já havia sido prefeito da cidade de Jequiriça. Gostava muito de política foi Intendente de 1942 a 1944, época da II Guerra Mundial.

Chega o ano de 1945, ano que deixou profundas marcas no coração de dona Celsina. Quando intendente, Pedro Veiga trouxe para Irará o delegado Joaquim Lopes, eram muito amigos. Em Irará, Joaquim Lopes sentou praça e passou a namorar Natalina, irmã de Dário, ambos da família Magalhães, moradores da Fazenda Leão. Tempos depois, Pedro e Celsina receberam um inesperado convite: ser padrinhos de casamento de Joaquim e Natalina.

No dia 06 de fevereiro de 1945 dona Celsina não esperava tamanha surpresa. Vestindo um vestido rosa chega ao casório, lá estavam alguns convidados como Alfredo Dantas, Amadeu Nogueira entre muitos outros. O juiz era o Dr. João Pompilio e o escrivão era Hugulino Barbosa. Começaram alguns cochichos quando Joaquim e alguns amigos mais próximos chamaram Pedro e Celsina para uma conversa, disseram: “vocês querem casar hoje”. O apaixonado casal estava na mesma sintonia. Pedro disse: mais como? Assim de ultima hora, precisamos nos confessar. Logo o amigo chamou o padre Agenor Maia Birley, que disse que o faria no dia seguinte, e que não teria problema. Assim a cerimônia se realizou e todos ficaram muito felizes. Passaram-se alguns meses ate que em 13 de novembro de 1945 nasce João Veiga, a felicidade de casal era visível.


No campo político o ano era difícil, a Ditadura Vargas estava chegando ao fim. Pedro Veiga na época apoiava o General Eurico Gaspar Dultra . Em 02 de dezembro de 1945 é realizada a eleição e Dultra sai vitorioso. Embora Pedro Veiga ficasse contente com o resultado, sua felicidade não era completa, pois vários amigos aqui em Irará foram oposição, entre eles, Elísio Santana. Pedro ficou triste, houve certo desconforto com a situação. Poucos dias após a eleição, Pedro passa mal. Ele não respondia a estímulos básicos. Desesperada a família trás de Feira de Santana o médico chamado Dr. Couto.

Ao ver a situação, o médico manda que Pedro seja levado imediatamente para Salvador. Joaquim Lopes providenciou o carro e partiram. As notícias não eram nada animadoras para Dona Celsina, após o atendimento o médico a chamou e disse que o caso era complicado, havia Pedro sofrido um derrame cerebral muito grave. Arrasada Dona Celsina sai do hospital por algumas horas, não sabia o que fazer. Foi quando lembrou da Igreja do Bonfim, foi à Colina Sagrada. Com a fé que lhe era pertinente fez suas orações e pediu se fosse para Pedro ficar sofrendo que Deus desse-lhe o melhor para ele. Após alguns dias, Pedro morre.

Nesse momento da entrevista senti na velhinha grande emoção, parei e disse: a senhora quer parar? Se não estiver lhe fazendo bem às lembranças, a gente para não tem problema. Dona Celsina olha nos meus olhos e fala: não meu filho, eu vou continuar, isso faz parte da minha vida. “Pedro não me deixou pertence, fazenda, dinheiro, mais me deu minha maior riqueza que é o meu filho”. Nesse momento senti a força de uma grande mulher.

Após o ocorrido ficou muito triste, passou alguns meses em Irará até que decidiu ir embora para Salvador. Precisava trabalhar, cuidar do seu filho João. Conta que era habilidosa nos bordados e arranjou emprego na loja Estela. Ficou alguns anos até que em janeiro de 1949 partiu para Ilhéus. Lá trabalhou em um atelier, e posteriormente em uma escola.

Era vida nova, voltou a estudar, os ventos sopravam positivamente na vida de Dona Celsina. Na época o cacau era forte e a prosperidade era visível em toda região. O tempo foi passando, João crescendo e sempre próximo da sua querida mãe. Eles sempre que podiam vinham passear em Salvador.

Certo dia estava em uma rua da Capital, quando passa um ônibus com o nome Irará. Aquele nome tocou seu coração, ficou contente partiu correndo pra casa para contar a novidade. Chegando a casa chamou à amiga Maria Jose e disse: “Irará já tem ônibus”, “vamos lá”. Dona Celsina, após 40 anos, voltaria a Irará. Pegou o ônibus junto com a amiga.

Chegando aqui relembrou lugares e achou tudo muito parecido, chegou à pensão de Dona Nenê onde se hospedou. Logo saiu para reencontrar amigos, o primeiro deles estava no comércio de Pedro Pinho. Estava de costas, Dona Celsina chegou de mansinho, era Deraldo Bacelar, ao virar-se viu a velha amiga e se cumprimentaram. O Sr. Deraldo logo tratou de acompanhá-las em todos os lugares, ofereceu-lhe a casa e fez praça a todo o momento. Reviu grandes amigas como Floripes, Maria Dantas e muitas outras. Ficou bastante contente passou a vim a cidade sempre que podia. Dizia a seu filho João: “Irará é sua querida terra meu filho”.


Já era final de tarde, agradeci muito a sua colaboração. Levantou e me deu-me um carinhoso abraço, disse que havia gostado muito de mim. Fez questão de dar-me o seu endereço em Ilhéus com telefone. Ao passar no portão emocionei-me, acabaria ali mais uma inesquecível visita.


Mercinho,
Irará 19 de maio de 2011.