25.3.10

“Batatadas” da Globo

Nem mesmo obrigada a Rede Globo quer prestar serviços a população nos seus programas de maior audiência. Vida inteligente? Só na madrugada, nas altas horas. Ou então, de manhã bem cedinho. Ou, quem sabe, em qualquer horário quando é reduzidíssimo o número de pessoas frente ao televisor. Honrosas exceções aos seus canais por assinatura.

A aparente intenção, de horários diferenciados a qualquer programa que possa presta serviço, se mostra ainda mais reveladora diante da notícia “MPF quer que BBB 10 esclareça como se contrai AIDS”, veiculada no site do Yahoo.


Marca da Globo: A emissora também
é conhecida como "Venus Platinada"


O texto informa que a vontade do Ministério Público Federal se dá graças a um monte informações distorcidas sobre a doença, ditas por um dos participantes do reality. Em diálogo entre “Brothers”, o rapaz teria dito, em meio a outras inverdades, que “hétero não pega AIDS”.

De acordo com a notícia, diante do fato, o apresentador Pedro Bial apenas se limitou a dizer que: “As opiniões e batadadas emitidas pelos participantes deste programa são de responsabilidade exclusiva deles. Parta ter acesso a informações corretas sobre como é transmitido o vírus HIV, acesse o site do Ministério da Saúde”.

Interesses

Será que a emissora teria grandes prejuízos se “perdesse” dois minutinhos do programa dando os esclarecimentos necessários? Acho que sim. Afinal, o lucro e não a prestação de serviços à sociedade deve ser a motivação. De tal maneira, ao invés de prestar os esclarecimentos necessários, a emissora, de acordo com a notícia do Yahoo, segue querendo dá desculpas para o MPF.

Insiste-se na tese de que aquela não é uma opinião da Globo. E, ainda segundo informações do Yahoo, argumenta-se também que: “o esclarecimento feito pelo apresentador do programa foi a providência tomada pela TV Globo, por liberdade”.

Esclarecimento!? Qual!? Ah! O “tá no site do Ministério”? “nosotros estamos muy esclarecidos”. Principalmente aqueles, “nós outros brasileiros”, com internet em casa e super dedicados a leituras e pesquisas.

Desparecidos

O fato não parece novidade. Há muito se percebe que a Vênus Platinada só relega maiores atenções para problemas sociais, quando eles atingem personagens de Manoel Carlos ou Glória Peres.

Na época em que uma novela global abordou o tema de crianças desaparecidas era possível ver fotos e nomes de pessoas, das quais não se sabia o paradeiro, aparecendo durantes alguns segundos no vídeo. As aparições aconteciam em intervalos do JN ou de outros programas.

A própria Globo propagandeava à época, que a ação estava possibilitando o re-encontro de muitas crianças e seus familiares. Mas... A novela acabou e, junto com ela, a campanha pelo encontro de desaparecidos desapareceu (desculpe-me a redundânica).

Novela Global de 1995 abordou
tema das crianças desaprecidas.


Será que só havia crianças desaparecidas no Brasil enquanto a novela tava no ar? Ou será que dá grande prejuízo perder cinco segundos de anúncio de um intervalo comercial? Não sei.


Sem aparentes preocupações com questionamentos ou respostas, a maioria dos brasileiros, nas suas mais de 04 horas diárias de frente a TV e, principalmente TV Globo, seguem enchendo o saco... de batatadas.

* imagens tomadas de empréstimo no google imagens

18.3.10

O Caçador de Pipas e as presas do império

A simples menção à palavra “Best Seller” já dá um tom comercial. Isto pode gerar certa repulsa. Afinal, tudo que cheira a “mercado” trás uma idéia de algo muito bem planejado para vender. Como se fosse coisa sem alma, de conteúdo efêmero.

O editor forçou a divulgação na crítica com muita grana. Os mestres receberam vantagens para recomendar a obra. Uma mega campanha de lançamento foi feita... Ou qualquer outro tipo de suspeita passível de ser explicitada pela teoria da conspiração.


Tais suposições, contudo, não me impediram de adquirir uma unidade de “O Caçador de Pipas”. A “obra sucesso” de Khaled Hosseinei, distribuído no Brasil pela Editora Nova Fronteira, estava disposta numa torre formada por dezenas de exemplares logo na entrada da livraria. Bateu curiosidade, trouxe pra casa.


Junto com a oportunidade de ler uma obra comentada, a compra de “Best Sellers” tem o benemérito de nos deixar “in”. É como ver programas tipo Big Brother. A gente tem de, no mínimo, saber como funciona pra não ficar por fora do assunto quando estivermos em determinadas mesas de bar...


Conteúdo


Saindo das divagações sobre o conflito undergroud x mainstream, vamos ao comentário sobre a obra. A leitura é prazerosa. E, acredite, despido de qualquer possível preconceito a um “Best Seller”, eu recomendo.


A narrativa da historia de Amir e Hassan, como diz no texto da orelha do livro, nos convida a pensar sobre “a frágil relação entre pais e filhos, entre seres humanos e seus deuses, entre os homens e sua pátria”. Amizade, traição, paixão... Tá tudo ali.


Da leitura, alguns trechos me chamaram a atenção. Entre eles, a passagem na qual Amir quer testar a amizade de Hassan e acaba sendo testado:


O jovem pergunta ao amigo se ele comeria cocô pela amizade deles. Hassan responde que sim, para logo em seguida questionar: “Será que algum dia você me mandaria fazer uma coisa dessas?”.


A resposta-pergunta de Hassan soa como uma provocação. Algo do tipo: “será que vc seria meu amigo mesmo se fizesse isso?”.



História dos meninos foi transformada em filme

Poderia separar diversos outras passagens do livro em seus ensinamentos de entrelinhas, mas, para não me alongar, concentrarei atenção em dois grupos de tópicos.

Sinceridade

“Mas é melhor uma verdade que dói do que uma mentira que conforta”

“esse é o problema das pessoas que são sinceras: acham que todo mundo também é.”

Infância

“As crianças não são cadernos de colorir. Você não tem de preenchê-los com suas cores favoritas.”

Destino


“pode ser injusto, mas o que acontece em poucos dias, às vezes até uma única vez, pode alterar o rumo da vida inteira”

“Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo”

Paternidade

“percebi como boa parte de quem eu era, boa parte do que eu era tinha sido definido por baba e pelas marcas que ele deixou na vida das pessoas. Durante toda a minha vida, fui “o filho de baba”. Agora, ele tinha ido embora. Nunca mais poderia me mostrar o caminho a seguir. E eu ia ter de descobrir isso sozinho. Essa idéia me deixou aterrorizado”

“Que tipo de pai eu seria, ficava imaginando. Queria ser exatamente como baba e ser inteiramente diferente dele”



O império contra-acata, nas entrelinhas é claro

Se as passagens acima nos levam a saudáveis reflexões, o livro tem outras que nos trazem certas desconfianças quanto aos seus méritos de “Best Seller”. Tais como nos recortes abaixo:

“Pelo que vejo, os Estados Unidos infundiram em você o otimismo que fez deles um grande país. Isso é ótimo. Nós, os afegãos, somos um povo melancólico, não somos?”

“os comunistas eram a escória mesmo. Eram todos gente de famílias humildes, sem estirpe.”

“Você cresceu nos Estados Unidos, Amir. Se há uma coisa que aquele país me ensinou é que, para eles, desistir equivale a mijar na jarra de limonada das bandeirantes”

Pois bem. Alguém pode inferir de leituras de frases como as demonstradas acima, entre outras passagens do livro, que a narrativa releva à terra do Tio Sam a imagem de um grande país. Uma pátria na qual “todos” têm oportunidades “iguais”.


Burka para as mulheres, imposição Talibã

Quanto à história do Afeganistão, o livro evidência um pais livre, onde as pessoas são felizes com os seus costumes e as crianças brincam em campeonatos de pipas. Até que chegam os comunistas...

Os relatos à repressão comunista aos afegãos mostram quem são os dominadores e por quem são patrocinados. Pela Rússia é claro. No entanto, quando os fundamentalistas Talibãs tomam o poder dos comunistas e a situação fica ainda mais drástica no país, o livro não trás maiores menções.

Através das páginas de O Caçador de Pipas não dá saber quem sustentou e patrocinou o regime Talibã para derrubar os russos (um doce pra quem adivinhar!). Seria irônico se talvez, quem sabe, fossem aqueles mesmos que tempos depois quiseram “libertar” o Afeganistão dos mesmos Talibãs.

Assim, Teorias da Conspiração ou os jovens sonhadores dos anos 1960, talvez chamassem o livro de propaganda imperialista enrustida. É fácil imaginar que quem prega o seu “way of life” tão bem através do cinema e da TV igualmente o queria fazer através da literatura.

Daí, um empurrãozinho para um bom livro se tornar um “Best Seller” não é nada mal. Lá vai muita gente boa consumindo propaganda subliminar e, se não tiver cuidado, vai sustentar a condição de presa do império
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O Tio Sam ainda quer você


P. S. Depois de lido o livro, é hora de ver o filme e entrar na velha discussão: “o roteiro foi fiel à obra?”. Além de, por alguns instantes, substituir pelo olhar do diretor todas as imagens anteriormente feitas em nossa cabeça através da leitura.


Imagens tomadas de empréstimo do Google Imagens

25.2.10

O fogo apagou

Lirinha e o fogo do seu candeeiro


A notícia trás um breu no cenário musical brasileiro. O fato é o fim da banda Cordel do Fogo Encantado. Quem pôde ver, viu. Quem não viu, não verá ( ao vivo é sempre melhor).

Eu tive sorte de assistir alguns shows do Cordel em Salvador. Num deles, saí tão empolgado que acabei rabiscando algumas linhas. Para mim, era impossivel não se encantar a cada vez que ia a um show daquele grupo que conheci na Rádio Facom. Eram os meus tempos de batismo na Faculdade. Trilha sonora de boas memórias...

Valeu, e muito, enquanto durou. E sem motivo aparente algum, o Fogo do Cordel se apagou, mas a chama permanecerá acessa nos olhos e ouvidos de todos. E vai faiscar na mente de quem relembrar, ouvir um CD ou assistir um DVD.


Leia notícia do Correio Braziliense


* foto do google imagens

8.2.10

Do jardim para o canteiro*


Aceitei o desafio de dirigir a parte do jardim público a mim confiada. Foi uma escolha difícil. A roda viva do destino, havia pouco, tinha jogado em meu colo a responsabilidade de assumir o controle do canteiro lá de casa.

Era hora de estar à frente daquele pequeno jardim particular. Benfeitoria construída à base de muito suor e sacrifício. Pensei que seria possível conciliar a atuação no pequeno e no grande jardim. Não deu. Algumas tempestades fizeram-me perceber ser o momento de estar mais dedicado ao canteiro.

A labuta, na parte do jardim público na qual estive à frente, foi difícil. O clima encontrado não favorecia o alvorecer. A atenção anteriormente dada e, na maioria das vezes, ainda relegada e requerida, era apenas para as plantas de papel ornamental. O foco no imediatismo priorizava o interesse nas flores e adereços decorativos. Pouco importava se eles não tivessem vida, não tivessem garantia de continuidade, fossem fadados ao continuísmo e que amanhã já estivessem desbotados; na lata de lixo mais próxima.

Parecia não ressoar o nosso alerta da necessidade de re-vitalizar as velhas árvores frondosas e preparar o solo para o germinar de novas e exuberantes plantas naturais. Além das intempéries, ainda vimos o afastamento, ou a não possibilidade de participação, de companheiros de outros tempos e projetos de jardinagens.

As ervas daninhas e espinhos encontrados vão deixar marcas, mas não serão as únicas lembranças que guardarei desta experiência. As feridas abertas se tornarão cicatrizes. Estarão fincadas como a raiz de uma grande árvore decepada pelo seu tronco. E, por incrível que pareça, com o passar das estações, apenas as boas lembranças estarão marcadas neste caule amputado.

Recordaremos as sementes que começamos a plantar. Dos rostos felizes já com os preparativos para uma possível florada futura. Das mensagens de incentivo, torcendo e pedindo pela continuidade sacrificante do trabalho recém iniciado. Os colaboradores entusiasmados, com regador em punho, ansiando pelo momento no qual as mudas apontassem as primeiras folhinhas. Peço desculpas a todos estes amantes das flores e digo-lhes para não perder as esperanças. O amanhecer sempre virá.

Agora, neste momento específico, volto-me para o canteiro lá de casa. Honrar pai e mãe é um dos mandamentos. Buscarei respeitá-lo. Quem sabe, neste tempo que virá, terei oportunidade de apresentar o nosso projeto ecológico a outros ou ao mesmo jardim. Quem sabe outra tentativa, outro momento ou ambiente mais favorável, talvez desfrutando de mais operários e de ferramentas necessárias. Por hora, é tempo de se afastar do jardim público.

“Aprendi com as Primaveras a me deixar cortar e a renascer inteira” Cecília Meireles

* Texto inspirado em “A Travessia” de Freio Betto e “Sobre Política e Jardinagem” de Rubem Alves.


imagem de banco de imagens de internet:
http://www.sxc.hu/


16.12.09

João Martins em Feira

João na Exposição Curumins e Passarins. Irará, abril/2009

Em cartaz a exposição “A poesia das coisas” de João Martins na Sala Carlo Barbosa no Cuca em Feira de Santana. A abertura foi na quarta-feira, dia 09/12 e os trabalhos ficam expostos até o dia 31/12. Escrevi um breve perfil de João Martins para a Lupa Digital. No texto, é possível acessar links para outros escritos e informações sobre a exposição e sobre o trabalho de João Martins.

* foto: Edson Machado

13.12.09

Moska em Serrinha

Gelo seco e violão, um flagrante inesperado...


Aconteceu entre os dias 02 e 06 de Dezembro mais uma edição da Semana de Cultura de Serrinha. Desta vez o evento contou com maior apoio da Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Educação, Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, dirigida pelo amigo Sandro Magalhães.
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Creio que, por conta da participação do Poder Público, esse ano a Semana pode contar com mais atrações, entre elas nomes como os de Peninha e Paulinho Moska, além das participações de Fabio Paes, Jota Veloso e Alisson Menezes, entre outros.
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Tem Moska na programação? Arrumei tempo na agenda, botei a mochila nas costa e fui. Cheguei já quase na hora do show.
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É que antes passei por um enorme atraso injustificado na rodoviária de Feira de Santana. Foi uma Plenna falta de respeito com o passageiro. Parecia não ter santo pra dar jeito naquela situação. Eu não podia e nem era doido de apelar pra São João. Como diz o ditado “esperar... só por Deus”.
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O show foi muito bom. Ele começou “colocando um ponto final”. Um mero “sinal de que tudo na vida tem fim”. No set list canções como “Lagrimas de Diamantes”, “O Jardim do Silêncio”, “A idade do Céu”, “Pensando em Você” e “Relampiando”. O público pede bis. “O último dia” termina a festa.

Bate papo: Lembranças do show do Parque da cidade em 2007
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Depois, tive a sorte de trocar uma idéia com o artista da noite. Alguns comentários sobre a apresentação e lembranças do último som dele que presenciei no Parque da Cidade em Salvador. Um evento marcante para qual escrevi um relato na época.
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Valeu a Semana de Cultura. Parabéns a Sandro e equipe. Força, luta e perseverança! Valeu a atitude de trazer Moska. Valeu a viagem. Valeu o som. Valeu à pena. “Sou pescador de ilusões”. Nem só de “Valeu Boi” vive Serrinha. O Rappa na Vaquejada parece já ter sido um sinal. E tudo na vida tem fim.
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7.12.09

O passeio de Tom Zé em Irará

Imagem de Tom Zé no palco da Feira da Mandioca


Mais um texto sobre a vinda de Tom Zé a Irará. Desta vez, o escrito relata a ansiedade demonstrada por Tom na hora da passagem de som, o público heterogêneo para o qual o tropicalista tocou na Feira da Mandioca e algumas opiniões do público. Ao final, tem algumas narrativas da agenda de Tom Zé na cidade e uma pequena reflexão, comparando o momento com os versos da música menina Jesus. O texto foi postado na Lupa Digital e o título é O passeio de Tom Zé em Irará.

18.11.09

Não é de hoje que defendemos um show de Tom Zé em Irará...

o show de Tom Zé foi a relização de uma vontade antiga nossa. Embora, alguém possa ter esquecido, sonhamos com isso desde 1998, dentro do Projeto Verão Ativo. Na época cheguei a telefonar para um mangagão e.... (melhor esquecer)
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Em 2008, cheguei sugerir pessoalmente, durante a abertura do Colóquio de Literatura Popular, a membros da gestão municipal da época para fazer o show, no que fui ridicularizado (na política deles só havia espaço para grupos tipo "Novo Tom" ou "Bonde do Maluco" ao invés de Tom Zé).
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Sobre isso, vejam texto que escrevi e enviei à lista de e-mails "iraraense" (ainda não tinha blog) em 10/06/2005.
O velho Tom Zé no lugar do Novo Tom.
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Por Roberto Martins
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É Tom Zé no Le Monde, no The York Times, na Alemanha, no globo inteiro. Turne no Brasil e no Mundo, só não passa em Irará. Talvez a terra natal do compositor baiano seja mesmo um “lugar improvável” (assim o Le Monde se referiu a lugar onde Tom Zé nasceu) para estar na agenda do Tom.
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Culpa dele? Acho que não. Tom Zé é um artista consagrado e como tal merece respeito. Cobra cachê e precisa receber pelo seu trabalho. Portanto, ninguém espere que Tom Zé dê uma de santinho e diga: “oh minha gente, valei-me minha menina jesus, não se descabelem que nós vamos fazer um show em Irará”.
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As evidencias nos levam a crer que não existem maiores interesses pelo show de Tom Zé na sua terra natal (ao menos da parte daqueles que podem contrata-lo). Tão Zi, como diriam os estadunidenses, é genial, toca músicas inteligentes e tudo mais, mas vejam vocês, o tropicalista saiu de Irará nos anos 50, e caminha para fazer 70 anos de vida. Mesmo que ele pule, cante, corra, grite e “trepe” com o vilão durante o show, vai ter gente tachando-o de velho. Quem sabe seja por isso que os iraraenses não estejam interessados em ouvir o velho Tom, mas sim o Novo Tom.
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Novo Tom é nome de um grupo de arrocha, estilo de música que nas palavras do professor Jorge Portugal, na tela do Fantástico, “é um movimento pós tropicalista e pós tribalista que surge da periferia para o centro”. Profundo, não? Talvez. Mas explicações à parte, o Novo Tom se destaca entre os grupos de arrocha pelo diferencial de suas letras. Elas não choram dores como as de Silvano Sales, se dizendo carente. Elas apostam num relacionamento de “método mais moderno”: “... Menina malcriadinha/ Leva tapa na bundinha/ mas este tapa/ vai ser bem gostosinho/ você vai até gostar/ e vai pedir mais um pouquinho/ dá um tapinha na bundinha/ ai!”.
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Pois é. Se você já ouviu os versos acima, entoados a partir de um porta malas de carro em porta de bar, agora já sabe conhece o grupo. Se não, não se preocupe, pois terá a oportunidade de conferi-los ao vivo, porque o Novo Tom, ao que tudo indica, será a principal atração do São João de Irará em 2005.
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Calma gente! Não se precipitem. Não defenderei um show de Tom Zé no São João. Defendo um show de Tom Zé em Irará. Mas enquanto isto não acontece, fico por aqui “uruburservando”. Estudando o pagode e quem sabe o arrocha também. Acho até que vou perguntar ao Macaco Simão se já inventaram colírio alucinógeno para os ouvidos.
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14.11.09

A 25 também é tropicalista. Azar das outras

Tom Zé entre Filarmônica e público

Foi na noite de abertura da Feira da Mandioca, o re-encontro entre Tom Zé e a Filarmônica 25 de Dezembro. Tom, quando criança, morou ao lado da Filarmônica e chegou a estudar Sax na Sociedade.

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“Essa noite linda, será inesquecível”, disse a professora Dilma Leão, membro da diretoria da Casa.

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A sede da Sociedade Litero Musical 25 de Dezembro estava lotada. Junta-se o calor do ambiente ao aquecimento dos refletores, utilizados para as câmeras filmadoras, e aquilo se aproximava de uma fornalha.
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Calor? Quem se importava com isso? Os músicos da banda de Tom Zé, por exemplo, não demonstravam incomodo. Eles, tão acostumados à garoa paulistana, assistiam ao espetáculo na primeira fila, diante da Filarmônica. A atenção de todo o público era para o concerto da 25 de Dezembro e para a verborragia de Tom Zé; é claro.
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Tom lembrou fatos. Os elogios para a banda e o trabalho dos músicos não foram poucos. Contou histórias e, como sempre, arrancou risos do público. Lembrou aos iraraenses, ao tempo em que comunicava a seus parceiros, a condição de hours concours da 25 de Dezembro. “Eles ganharam tanto, que teve concursos que proibiram eles de concorrer”.
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Liderada pelo maestro Leandro Maciel a Filarmônica executava os números, anunciados pelo presidente Diógenes Barbosa. “Irará e Mundo Novo”, composição de Almiro Oliveira foi um deles. Entretanto, o destaque e a expectativa da noite era pela composição “Renato de Ceci”.


Mestro Leandro rege Filarmônica em frente a músicos de Tom Zé

Trata-se de uma autoria de Tom Zé, junto a dois parceiros, composta especialmente para a Filarmônica de Irará. A música é feita em homenagem ao saudoso amigo Renato Portela, pessoa que apresentou o violão à Tom Zé e lhe deu várias outras dicas. Ceci era a mãe de Renato. “De Ceci” é sobremenome em Irará.

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A música mereceu um bis no final. “Quem chegou atrasado pediu para ouvir a composição”, disse o presidente Diógenes. “A segunda vez é mais difícil, a responsabilidade é grande”, brincou Tom Zé com o maestro Leandro. E a Filarmônica mandou ver.

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“Eu to tão feliz, que se eu encontrar um jegue debaixo da jaqueira eu dou boa noite”. Assim Tom Zé tentava descrever a sensação estética daquele momento, ao tempo em que remetia a um dos casos iraraenses contados antes.

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Com olhos marejados, Dr. Deraldo ouviu a composição e as palavras de Tom Zé sobre Renato. “Eu que também sou filho de Ceci quero lhe agradecer Tom Zé”. Assim o presidente de honra da 25 de Dezembro, sendo dirigente da entidade por 40 anos ininterruptos, agradeceu a Tom Zé em nome de toda a banda.

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“Renato de Ceci”, ou “Ré Nato”, como estava escrito na pauta musical dos músicos, não parece ser uma música fácil de ser executada. O próprio Tom falou disso, mencionando subidas e descidas da música, exemplificando com nomes que quem é músico deve entender.
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Eu, particularmente, nunca tinha visto uma filarmônica tocar algo tão inventivo. Gostei muito da espetacular entrada do naipe de clarinetes. Fiquei viajando naquela canção como trilha sonora. Suspense, comédia, aventura, sei lá o que... E, cá com meus botões pensei: “isso é tropicalismo puro”.
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Era uma sexta-feira 13. Imaginei a Filarmônica de Irará executando aquele número em concursos Brasil á fora. Azar da outras...

vejam video com trecho da exucação da música, pena que não tem as partes finais quando vai ficando ainda mais revolucionário...









13.11.09

Na varanda com Tom Zé

Um bate papo descontraído com Tom Zé

Varanda da casa do amigo Edson Barbosa. Alí, bem à vontade, junto com sua esposa Neusa, está um dos grandes nomes da música no mundo. Tom Zé, iraraense, nosso conterrâneo. A conversa flui amigável.

“Estou no Edén”, fala Tom. “Para quem cuida de um pequeno jardim em São Paulo, isso aqui é o paraíso mesmo”, comento com ele. Árvores, galinhas, grama... sem falar da deslumbrante paisagem. Como o bate papo é bom, o tempo passa depressa.

Na pauta, música, política e outros assuntos. Personagens, tempos e lembranças de Irará. Até de quando Tom Zé foi candidato a vereador representando o partido comunista... Tom Zé lembra dos seus tempos como repórter do Jornal da Bahia. Edson Barbosa, hoje conceituado publicitário, narra seu começo na redação da Tribuna da Bahia.

Tom Zé descreve a expectativa da banda: “Você não tem idéia de como eles ficaram empolgados com esse show aqui de Irará”. “Também, Tom Zé, tantos anos lhe acompanhado e ouvindo você falar de Irará, não era pra menos”, digo.

Depois, pergunto do show. “Será algo especifíco para Irará”, diz Tom Zé. Desejo saber do repertório. “Será definido ainda junto com a banda”, informa, mas não deixa de adiantar que terá músicas sobre Irará. “O abacaxi, a lavagem... Maria Bago ainda ta censurada aqui?”. “Não, pode tocar a vontade”, respondo.

Contudo, as revelações não me dão certeza alguma. Como alertam Lauro Lelis e Jarbas Marins, no (filme) Fabricando Tom Zé, o repertório do artista pode ser todo substituído na hora do show. “E vamos nessa...”

A chegada de Tom Zé no Irará para a Feira da Mandioca

Tom Zé estuda a Chegança




Ali está um senhor descendo da van. Parece se atrapalhar com o fio do microfone de lapela, preso á sua camisa. Esquina da rua de baixo (Campos Martins) com o beco ao lado do consultório de Dra. Toteia. Tom Zé pisa o solo iraraense. Em frente ao terreno onde foi um das casas onde morou.

“Aê cambada de vagabundo!”. Foram as primeiras palavras que ouvi Tom Zé dizer. A face risonha evidenciava um misto de irreverência, de emoção, de irmandade, de carinho naquelas palavras. Me aproximo. “Salve Tom Zé!”. É a saudação. Um a um, vão vindo outros. Apresentam Tom Zé ao Prefeito Derivaldo e ele o cumprimenta com vigor.

João Martins faz as honras da cidade. Tira a própria camisa que vestia e passa para Tom Zé. A roupa trás o desenho dele (João), feito em homenagem a Mãe Melânia por ocasião da Lavagem 2009. Ajudo com a retirada do microfone. O aparelho auditivo de Tom cai a meus pés. O alerta vem de Guilherme. Daí, pego o aparelho e devolvo ao mestre que passa para sua esposa/produtora Neusa guardar.

Depois é só alegria. Tom Zé cumprimenta a charanga e abraça as meninas que estão logo à frente, se acabando de dançar. Ele segue, rua de baixa à cima, em direção à Purificação. Com destreza vai ao passeio e cumprimenta D. Dôra. A residente da casa 40 é, certamente, uma amiga de infância.

As crianças saíram da escola para ver Tom Zé. Elas estão acompanhadas dos professores e gritam: “Tom Zé, Tom Zé, Tom Zé...” . No meio do corredor formado, ele pula, acena, beija, abraça, cumprimenta. Vai ao passeio e fala com Leo. É o rapaz que minutos antes tocava os foguetes para anunciar Tom Zé. “Ele quis saber da loja de Eduardo”, informa o “fogueteiro”, dizendo-lhe ter comunicado que ali agora é a Panificadora Victor.

A Chegança da comunidade da Loja faz uma apresentação. “Ainda tem chegança em Irará?” Era um questionamento de Tom Zé antes de vir. Agora, com a chegança na sua chegada, ele tinha a comprovação. Recepção especial.

Tom Zé fica ali ao lado admirado. Acompanha o ritmo, faz movimentos com os pés. Tenta imitar os passos. Parece estar ali interpretando, viajando em algo... Ou, quem sabe, estudando a Chegança.

Muitos se aproximam, querem fotos. “Quero esse retrato para botar num quadro”, diz dona Noelia Pinho. Minutos depois, muitos orkuts também já estariam abastecidos. E assim, Tom Zé volta a sua terra para um show especial na Feira da Mandioca. E todos os olhos se voltam pra ele.

vejam video:


http://www.youtube.com/watch?v=5BPw0AsAkHM

Depois estarei postando mais videos. É que a internet aqui no Irará anda de jegue... rs.

10.11.09

Primeiro Perfis Artísticos: Apresentamos Tom Zé

Poluação terá oportunidade de
conhecer perfil de diversos artistas

Cultura é mais que diversão. Se é assim, não é suficiente só apreciar - ou não - o que é feito pelos artistas. É preciso conhecer o trabalho deles. Até para ter motivo para falar bem ou falar mal. Daí surgiu a idéia dos Seminários Perfis Artísticos – apresentando grandes artistas. A realização é por conta do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Irará.

Cartaz da primeira edição de Perfis Artíticos - Tom Zé
Alinhar ao centro
E, idéia na cabeça, nada melhor do que começar com o conterrâneo Tom Zé. Estamos em vésperas de show dele em Irará. E, também, é uma oportunidade para muitas pessoas saber mais sobre a carreira do tropicalista. Uma caminhada pouco, ou quase nada, conhecida em Irará. Conforme pude comprovar quando pesquisei para o artigo, Tom Zé: Um tropicalista e sua aldeia, também disponível aqui neste blog.


Sérgio Ramos (Cabelera) iniciou o Perfis Artísticos

O amigo Sérgio Ramos (Cabelera) deu início aos trabalhos. Primeiro Sérgio abordou o perfil de Tom Zé como um artista inventivo, com instrumentos e com palavras; suas abordagens críticas sobre a realidade sociocultural e política; e o seu reconhecimento no Brasil e no Mundo. Sérgio finalizou sua contribuição abordando sobre a participação de Tom Zé no Premio Bravo de Cultura. Em 2009, como artista convidado. Em 2006, como vencedor do Prêmio na categoria Artista Prime.


Recebi o "leme" pra tocar o Seminário em frente

Depois assumi o controle do barco. Lendo parte do artigo mencionado acima, fiz um resumo da trajetória de Tom Zé, desde o nascimento em Irará até quando David Byrne lhe fez renascer para o mundo artístico. Depois mostrei, com alguns exemplos, como o da entrevista na Revista Caros Amigos (“o gênio de Irará”), a forma como o nome de Irará aparece na mídia pegando carona no nome de Tom Zé.

Tom Zé fará show na Feira da Mandioca de Irará

Daí, divulgamos o show da Feira da Mandioca e a importância dele acontecer para cultura do município. Então mostramos para a população as perspectivas de Tom Zé para esse show histórico, conforme post no blog do artista. Finalmente abordei sobre a discografia de Tom Zé, comentando rapidamente sobre cada álbum.


Trecho de entrevista no Programa do Jô foi exibido


Na sequência, exibimos imagens de Tom Zé cantando Maria Bago durante entrevista no Programa do Jô (2003) da TV Globo. Depois, foram exibidos diversos trechos do documentário Zé de Irará, o Tom da Bahia, da TVE-BAHIA – 2003. Tom Zé visitando a casa onde nasceu (atual Colégio Social); visitando a escola onde estudou (Juliano Moreira) e encontrando amigos. Entre eles, os saudosos Zé Aristeu, D. Melânia e Nilzete Maia.

Quem chegou depois assistiu de pé

Aos poucos o recinto foi ficando cheio. O público estava disposto e empolgado. Riu, ouvi, participou. Curtiu o seminário desde antes do começo, quando o telão já exibia o DVD Jogos de Armar. José A. Barbosa de Lima (Zé Cego), um amante de poesia, na média dos seus 50 anos, falou de sua admiração pelo trabalho de Tom Zé e disse não dá ouvido aos que judiam o trabalho do artista.

José Barbosa garantiu lugar na primeira fila

José havia chega uma hora antes do horário marcado. “Resolvi chegar cedo pra pegar lugar na frente”, revelou. Josafá Ferreira sugeriu fazer o mesmo seminário em todas as escolas do município, “os alunos precisam conhecer Tom Zé”, justificou.



Filme tem exibição na Quarta 11/11,
20 h,
no mesmo auditório do Seminário


Já passava das 22:30 e não foi possível a exibição do documentário Fabricando Tom Zé. Foi acertado com a plenária que o filme seria publicamente exibido na quarta-feira, dia 11/11, às 20h, no mesmo local do Seminário. O cordelista Kitute de Licinho pediu que fosse exibido o trailler do filme, para criar um gostinho no público. Trailler exibido, “assim encerramos esta primeira edição do Seminário Perfis Artísticos”, anunciou Sérgio Ramos.

Caros Amigos parodia imagem da Michelangelo
com Tom Zé "no lugar de Deus"

Ainda sem data definida, informei que a próxima edição do seminário deverá apresentar o perfil do de um grande roqueiro baiano. Para apresentação convidaremos alguém que conheça da vida do artista. Aí será só marcar a data e gritar: “Toca Raul!”.

* imagens: Roberto Martins; Sérgio Ramos e Google Imagens

** design cartazes: Roberta Rodamilans


9.10.09

O cordelismo de Antônio Barreto

Antônio Barreto é um cordelista jornalistíco
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Barreto é que muitos chamam de um cordelista jornalista. Acontece o fato, ele faz um cordel. Entrevistei Barreto para escrever um perfil dele para a revista Lupa Digital. Em pouco mais de meia hora de conversa foi tanta informação que não caberia no texto... Daí, para não perder a produção acabei fazendo 03 textos. O Cordelismo de Antônio Barreto foi públicado na Revista e os outros dois estão aqui no Blog.

O “esconderijo” de Antônio Barreto

Barreto faz pose em meio à sua "bagunça criativa"

Um modesto quarto e sala em prédio antigo do centro de Salvador serve de morada ao cordelista Antônio Barreto. Por todo lado estão livros e, claro, cordéis escritos por ele. Seja na mesa do computador na sala, nas paredes ou dependurados na estante. Até mesmo á frente do aparelho de TV, ao que parece pouco usado, tem livreto de cordel.
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O ambiente tranquilo e ventilado contrasta com o movimento e o calor infernal da rua. Numa parede, um quadro tem a imagem de uma pomba e três letras abaixo: P, A e Z. Outro, localizado ao lado oposto da sala, traz a imagem do indiano Mahatma Gandhi.

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Os sinais que poderiam evidenciar o ambiente como casa de um adepto da cultura oriental terminam por aí. Nada de elefantes, mandalas ou incensos. Estamos no “esconderijo” de um baiano nato. Um divulgador e fã da cultura nordestina. A rede no centro da sala e a bagunça ao redor, confirmam. E é assim que o proprietário da casa sente-se melhor.

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“Quando arrumam, fico sem inspiração, depois que desarrumo tudo é que começo a criar. Eu preciso de certa desorganização para me organizar no meu processo criativo”, revela.

Universo infantil trouxe inspiração a Antônio Barreto

Barreto e um livro cordel infantil de sua autoria com ilustações de Cedraz

O menino Toinho de Mariinha cresceu brincante entre animais e plantas no ambiente bucólico de comunidade rural do sertão onde, apesar da paisagem árida, havia presença de rios. O pano de fundo da cena era uma esplendorosa serra de morros. Marco divisório entre os municípios de Tanquinho e Santa Barbara, sua terra natal.
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Já desde criança Antônio Barreto gostava de assistir e participar, quando possível, das brincadeiras do lugar. Corrida de Saco, Bumba-boi, Tiração de Argola, Cantoria de Viola, Trezena de Santo Antônio, entre outras tradições locais. Aos 13 anos, mudou-se para a sede do município, onde pôde se aproximar de mais uma de suas paixões.
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Para ele, os ambulantes e os vendedores de livretos de cordel eram verdadeiros artistas das feiras-livres de Santa Bárbara. O fascínio era tal que ele só parava de apreciar a atuação dos mascates quando “convocado” pela a avó, com um puxão de orelha, a ir de volta para casa.
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“Me encantava a maneira como o camelô vendia o seu produto na feira. Como ele seduzia o comprador. E isso o cordelista também fazia para vender o seu folheto de cordel. Ele tinha de ser muito lúdico, muito brincalhão. Aquilo me encantava”. Assim lembra o cordelista, com certa dose de saudosismo.
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Comunista e Calouro
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Antônio Barreto só não deve sentir saudades da maneira hostil que era tratado por alguns conterrâneos à época. Filho do comunista Pedro Barreto, o garoto sofria os preconceitos dos tempos de exceção. Nem sequer sabia o que era comunismo, mas não lhe agradava os chamados de “filho de comunista!”.
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“Eu não tô entendendo, meu pai é uma pessoa boa, é de partilhar tudo que ele tem, por que ele é chamado assim?”. Hoje a auto-indagação é lembrança de uma questão sem resposta para a mente do menino Barreto à época.
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A Igreja de Santa Barbara também censurou e, para não ficar pagão, o menino Toínho Barreto precisou ser batizado em Feira de Santana. O Padre local não deixou o dono da padaria (Jaime Azevedo), que seria o padrinho do menino, entrar na Igreja. Antônio Barreto recorda que o pecado do padrinho era ser negro, comunista, espírita e intelectual auto-didata. Tom Zé diria que é contraversão demais para um homem só.
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Então, só cantando para espantar os males. Aos 14 anos, Antônio Barreto atuou nos programas de calouros do auditório público da cidade. No roteiro, a apresentação de sucessos interpretados por Jerry Adriane e Vanderlei Cardoso. Só mais tarde, descobriu Raul Seixas e, embalado pelas músicas do “maluco beleza”, aprendeu a tocar vilão.
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Salvador
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Nos anos 1980, já morando em Salvador, para onde foi, devido a necessidade de estudar o ensino médio, filiou-se ao Raul Rock Clube. O fã clube oficial do artista baiano era sediado em São Paulo e dirigido por Sylvio Passos.
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Através de Cartas, Barreto se mantinha atualizado sobre a carreira do artista. A imagem da carteira dele (sócio 10093/83) foi reproduzida na contracapa do cordel “O Encontro de Raul Seixas com Zé Limeira no avarandado da lua”.
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Na capital baiana, Barreto trabalhou no Pólo Petroquímico por 23 anos. Hoje está aposentado do emprego de alta periculosidade, onde exercia a função de Operador de Processo, trabalhando com benzeno e volume sonoro acima de 90 decibéis. Emprego de alta responsabilidade. Corria-se risco de explosão e vazamento letal. Um contemporâneo de Barreto acidentou-se e faleceu no hospital.
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O trabalho de Antônio Barreto, no Pólo, não foi resumido à responsabilidade e tragédia. Naquela época, em que já dava aula no turno noturno, lançou o “Cordel da qualidade de vida” e se apresentou na empresa. Só que ainda “não levava o cordel a sério”.
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Só depois da aposentadoria, em 1999, começou a praticar mais. Os amigos foram incentivando, incentivando... A esta época já havia escrito dois livro de poesias, Rimas e Loucuras (1985) e Uns Versos Outros (1995). Só dez anos depois, ao concluir oficina com Maria da Conceição Paranhos, publicou Flores de Umburana (2006), pelo selo Letras da Bahia - Fundação Cultural do Estado.
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No ano de 2004, Barreto fez uma oficina de cordel com Jotacê Freitas, a quem considera uma alma de luz, um irmão, um mestre. Daí não parou mais de fazer cordéis. E segue levando sua vida extrovertida, no seu papel de cinqüentão-solteirão, pai de três filhos. Após conviver com a mãe de sua primeira filha, hoje com 23 anos, partiu para “carreira solo” e teve o segundo filho (22 anos) e o terceiro (13 anos). E que Antônio Barreto siga fazendo seu cordelismo.

26.9.09

Ras Sidney Rocha



Publiquei o texto “Sidney Rocha: Rastafári, homem bom e nada maluco”, na Revista Lupa. O escrito foi construído baseado em conversas com Sidney, na palestra que ele fez na comunidade da Sucupira e na entrevista concedida a Emanuel Mirdad, publicada no Blog do Jornalista. Leiam!

8.8.09

8. Oito

Forma da Ampulheta lembra o número oito


Outro dia me peguei pensando acerca do número oito. Lembrei da minha infância. Acho que a gráfia daquele algarismo foi a mais divertida de apreender. Recordo de atrapalhar-me um pouco naquele desenho.

Minha mãe vinha em meu socorro. Ela me ensinou que se eu desenhasse dois círculos, um a cima do outro, teríamos um “oito (8)”. Mas, isso não me agradava. Sei lá. Parecia jeitinho, atalho, facilidade. Queria o desafio. A vontade era aprender aquela outra forma “mais complicada” de fazer “o oito”.

Outra lembrança infantil do oito era no futebol. Naquela época, começo dos oitenta, quando o mengão ganhava tudo, o camisa oito daquele super time era o Adílio.

As jogadas do rapaz ajudaram a popularizar o algarismo na minha mente. Se, por acaso (por acaso mesmo), tivesse uma vaga pra mim no time dia de jogo, sem chance nenhuma de pegar a camisa 10 (era a que todo mundo queria, pela mística: Pelé, Rivelino, Zico, Maradona...), eu perguntada logo pela a que tinha o oito grafado.

Hoje, lembrando destes fatos, faço correlações. Estava ali, diante de mim, um número engraçado, com aquelas curvas sinuosas. Talvez, já – quem sabe - meio combalido pela libido da primeira infância, a visão de um número sensual. (Freud explica. Será?). Aquela cintura fina... Imagino uma lingerrie sobre o oito...

Duas vezes quatro. Dois elevado ao cubo. O oito lembra prazer. É só acrescentar um “c”, pra chegar a “coito”. Se quiser repetir, é só pedir “bis”; com oito fica gostoso e vira “biscoito”.

Numa dada canção, Gilberto Gil lembra que o número oito invertido é o símbolo do infinito (∞). O tempo sem fim não pede medida. Entretanto, a ampulheta, aquele negócio que serve pra medir o tempo, tem um formato parecido ao numeral do qual estamos tratando.

“Aff ! - você e suas manias de relacionar, comparar, ver letra de música em tudo”. Só não tenha pressa, dizem que o tempo tem respostas pra tudo. E eu, não quero ser taxado como: “affoito”.

Manias de nos mortais. Contar e esperar tempos. Pode-se até se medir em intervalos de oito. Oito horas, oito dias, oitos meses... O oitavo dia, do mês oito, do oitavo ano. A semana tem sete dias. Não falta quem diga que ela tem oito. E daqui a oito dias, tudo pode ser igual ou diferente. Talvez seja oito, ou, seja oitenta.
imagem "tomada de emprestimo" no Google Imagens: