24.5.12

Que tipo de profissional sou eu?


Uma cena vista há dois dias, me provocou algumas reflexões sobre o meu exercício profissional. Aqui na rua, próximo à minha casa, tinha uma aglomeração de pessoas. 

“O que aconteceu?” 

“O portão do deposito da loja de material de construção caiu em cima do rapaz”. 

A multidão vai aumentando. Vou em direção ao local do acontecido. Tenho algumas preocupações. 

“Será que alguém ali já chamou a ambulância?”. 

“Será que estão conscientes de que não podem socorrer o rapaz de qualquer maneira? Afinal, se pegarem a vítima de mau jeito pode comprometer a coluna vertebral ou outro órgão.” 

Chego próximo ao local. O portão já foi retirado. A vítima está ao chão. Logo escuto alguém falar do ocorrido. “Caiu em cima da perna dele”. E outro alguém fazer uma afirmação. “A ambulância já esta a caminho”. 

Saí. Não havia nada que eu pudesse fazer ali. Se permanecesse, seria apenas mais um a tumultuar a cena.  

Não demorou quase nada, a assistência chegou, o rapaz foi removido e a aglomeração de pessoas se dissipou. Tão rápido como havia sido formada.

Depois lembrei-me do fato. “Dava notícia!”. E a notícia poderia ser veiculada pelo Iraraense (Portal da Internet criado por mim). 

E eu tava ali de celular no bolso, mas não registrei, não fotografei, não filmei... tão pouco procurei informações mais aprofundadas. 

Antes, preocupei-me com o estado de saúde do rapaz. Quando lembrei da possibilidade de  registrar, a cena havia sido desfeita. Perdi a notícia. E aí me veio uma pergunta: 

“Que tipo de jornalista sou eu?” 

Depois comprovei a força de noticiabilidade do caso do portão, quando alguns me perguntaram o que havia ocorrido alí. 

Se o fato tivesse virado notícia do Iraraense, talvez tantos outros, quem sabe até numa quantidade de pessoas bem maior do que aquela dos perguntantes e dos aglomerados envolta, tivesse se interessado e acessado a notícia. 

Esta, assim como outros tipos de “notícia”, faria crescer a audiência do site. E com maior audiência, pela lógica mercantil, seria mais fácil conseguir parceiros para manter o veículo. 

Daí surge outra pergunta: 

“Que tipo de empreendedor da comunicação sou eu?”

Logo se vê. Sou um Roberto. Mas, pela lógica do mundo, longe de ter o sucesso profissional de um Civita ou um Marinho.  

17.5.12

A audiência e os acidentes


Ao que parece o comercial da TV Bandeirantes, anunciando as 500 Milhas de Indianápolis da Formula Indy, quer transmitir emoção. Filme de ação. Agitação tipo: “Nitroglicerina Pura!”. 


A música de fundo é o velho rock and roll; dos mais acelerados, vale dizer. É rapidez no som. É velocidade total nos carros das imagens. Takes curtos. Muito movimento. 


A quase totalidade das cenas mostram acidentes na Indy. Carros batendo forte, capotando, se “esbagaçando todo”. Aquilo que alguém chamaria de “um show de imagens”. 


“The show must go on”. Mas perde a graça quando se lembra de que ali é realidade. Não é ficção. São vidas humanas expostas a traumas, mesmo quando as sequelas não ultrapassarem os leves arranhões, ou ao fim. 


Os acidentes não deveriam ser “vangloriados” em um comercial. Todavia, quem sabe, a emissora acredite que os seus telespectadores assistam as corridas torcendo por aqueles “acidentes espetaculares” à espera de “emoção”. O pior é que (não é Pepsi mas) “pode ser” isto mesmo. Não duvide deles terem até pesquisas em mãos. 


Obs: O comercial está no ar na TV. Procurei por ele  pra linkar ou colocar aqui e não encontrei. Quando eu encontra, atualizo a notícia. Abs! 

13.5.12

Irará 170, de rombo!


Assustam as notícias sobre violência em Irará. Os fatos policiais noticiados pelo Blog do Tavares e pela Rádio Comunitária Irará FM, reproduzidos pelo Portal Iraraense, tem surpreendido. O cenário era desconhecido por muitos. 

Mortes, assaltos em plena luz do dia, tentativas de homicídios, espancamentos, arrombamentos, etc. Isto tudo tem acontecido em nosso município. E o pior é que estas ocorrências começam a ficar frequentes. 

A frequência dos atos de violência provoca o receio dos mesmos começarem a serem vistos como banais. E quando eles não mais assustarem, a situação tende a piorar. Banalizado, o mal terá mais facilidade de se espalhar e perpetuar-se. 

O enfrentamento do problema é a medida mais adequada para evitar a banalização. E para tanto, seriam necessárias ações a curto, médio e longo prazo. 

Um bom começo poderia ser a discussão do assunto. Procurar entender o porquê de tanta violência em Irará. 

Quais seriam as causas? Sempre foi assim, mas só agora a mídia está mostrando isso? É a falta de estrutura dada às polícias (Civil e Militar) para coibir a violência? É a omissão dos poderes constituídos? É o caos social e cultural vivido pelo município? Ou é tudo isso e mais um pouco?

Um município que desconhece seus índices, não discute sobre a sua realidade. Se não discute, não pensa. E sem pensamento, planejamento e gestão não se chega a soluções eficazes. 

Talvez não haja mesmo interesse no pensamento. Afinal, como nos lembra uma canção do nosso conterrâneo Tom Zé, “pensar é uma afronta”. 

Agora em maio, deste 2012, Irará faz 170 anos de emancipação política. Se fosse um bingo o cantador gritaria: “De rombo!”. Rombo sociocultural.

7.5.12

Modernização da Biblioteca de Irará: A semente germinou


Mesmo afastado do “jardim público”, fico feliz com a notícia. Pelo que vejo, mais uma das sementes que lá plantamos germinou. Falo do projeto de Modernização da Biblioteca Pública de Irará.  


Através deste projeto, elaborado e enviado à Fundação Pedro Calmon (Governo do Estado), por nossa iniciativa, quando estávamos à frente do Departamento Municipal de Cultura, a biblioteca pública de Irará vai receber móveis, mais de mil volumes em livros e outros acessórios. 


Em maio de 2009, noticiamos o começo desta luta no “Boletim Cultura Pra Toda Gente”.  Através daquele informativo, divulgado via internet, publicávamos as ações do Departamento de Cultura da Prefeitura de Irará. Uma nota na edição daquele mês dizia: 


“O Diretor Roberto Martins esteve reunido na Fundação Pedro Calmon em Salvador, com os dirigentes de Bibliotecas Públicas e de Arquivos Públicos do Estado. Na reunião foram tratadas de parcerias para a re-ativação do Arquivo Público do Município e para a modernização e organização da Biblioteca Pública Municipal.” 


Pois sim. A reunião mencionada foi só começo. Depois vieram elaboração e proposição de projetos, outras reuniões, sugestões e encaminhamentos. E foram vários telefonemas também. Até para o Ministério da Cultura em Brasília ligamos, em busca de informações de como estava o andamento do projeto a ser contemplado pelo programa Mais Cultura. 


Quando sai do Departamento, mencionei a ação em relatório de atividades, entregue ao Prefeito Derivaldo Pinto: 


“Envio do Projeto para integração no Programa de Modernização de Bibliotecas (Minc/Secult) que prevê aumento do acervo e novos mobiliários (segundo informações de funcionária do Minc a Biblioteca de Irará foi incorporada à lista das beneficiadas e será contemplada);”


Pois então, fiquei feliz em ver a notícia e de confirmar o nome de Irará na lista. É gratificante ver que mais esta semente, entre as que plantamos naquela breve chuva em que passamos no Jardim do Departamento de Cultura, germinou. Lamentável é lembrar que se o “tempo” tivesse ajudado teríamos germinado muitas outras flores e frutos. 


Agora, nos resta torcer para que o projeto seja devidamente executado, inclusive com a implantação da Biblioteca Itinerante e as atividades de leitura na zona rural.   


#PS: No dia 27 de Maio, em pronunciamento público, o Prefeito Derivaldo Pinto assinou o convênio do projeto de Modernização. O prefeito falou da importância da leitura e do convênio, mas em momento algum citou que o mesmo foi conseguido em 2009, quando estávamos à frente do Departamento. Deve ter esquecido. 


OBS: Esse texto foi atualizado e reescrito em 03/06/2012, com adaptações estritamente fieis ao conteúdo original (publicado em 07/05/2012), mudando apenas o formato e acrescentando algumas informações como o PS. 

5.4.12

“Praça do Pedrão!” – Este nome deve permanecer

Na Sessão solene em homenagem a Amadeu Nogueira, o prefeito Derivaldo Pinto anunciou sua pretensão em sancionar o projeto de alteração do nome da “Praça do Pedrão” para “Praça Amadeu Nogueira”, caso seja aprovado pela Câmara. Se assim o fizer, o Prefeito estará cometendo um grande equivoco. 

É válido o projeto de iniciativa do vereador Cristiano Costa - Eletroguisso (PP) em homenagear Amadeu Nogueira com o nome de um logradouro público na cidade. Entretanto, não é correto que este logradouro seja a “Praça do Pedrão”. Caso os vereadores aprovem este projeto, eles estarão cometendo um desrespeito à história do nosso município. 

Como dito numa citação que escrevi no texto “Onde se vê o Irará de antes”, lembrada pelo Vereador Ubiratan Reis (PC do B) na Sessão dita acima, em Irará existe o triste costume de fazer o novo passando por cima do antigo. E essa ideia de alterar o nome da Praça do Pedrão é mais um exemplo disto. 

Amadeu Nogueira como grande homem público de Irará merece todas as homenagens. E merece nome de logradouro público também. Com certeza, diante do processo de expansão da cidade, vão surgir ruas e praças onde o nome de Amadeu Nogueira poderá ser adequadamente colocado. 

No entanto, se a vontade é buscar por uma rua mais central ou de maior importância no nosso fluxo urbano, há alternativas. Aqui existem logradouros públicos batizados com nomes de personalidades que - até onde sei - não possuem relação intrínseca com a história do nosso município. Podemos citar a “Praça Trancredo Neves” e a “Avenida Rui Barbosa”. 

Substituir o nome de personalidades não iraraenses pelo de pessoas com história neste município seria um grande acerto. Além do mais, manteria Irará na sua linha de valorizar os seus. Afinal, a nossa terra raramente se deu ao costume da bajulação política. Aquela cujo exercício proporciona ao nome de um mesmo presidente ou de senador aparecer em ruas, praças ou avenidas de dezenas e dezenas de cidades. 

Manter o nome da Praça do Pedrão é re-afirmar as nossas raízes históricas. Não só de Irará, mas da Bahia também. Além de ser filho de Irará, Pedrão é um município de destaque nas lutas pela independência da Bahia. É a terra dos “Encourados” e dos ancestrais de muitos iraraenses. 

E como exemplo de iraraense com antepassados de Pedrão, posso citar o próprio Amadeu Nogueira. Filho de Cel. Elpidio, Amadeu era neto de Pedro Nogueira, primeiro intendente de Irará, cuja família veio da região de Pedrão. Assim, a troca de nomes de “Praça do Pedrão” para “Praça Amadeu Nogueira” seria ao mesmo tempo uma homenagem a Amadeu e uma desconsideração aos seus antepassados. 

Segundo me relatou o Professor Sérgio Ramos aquele logradouro foi batizado de “Praça do Pedrão” para homenagear os Encourados. Mais precisamente, pela narrativa do professor, para marcar o fato deles terem partido daquele local para unirem-se às forças brasileiras no combate que resultou no Dois de Julho. 

Por isso mudar o nome da praça seria desprestigiar a independência da Bahia, que na realidade é a independência do Brasil, conquistada pelo sangue e luta dos baianos. Seria cometer o mesmo desrespeito praticado em Salvador, quando foi trocado o nome do aeroporto, ainda que no nosso caso a homenagem seja mais adequada. 

Até pouco, Irará tinha em alguns dos seus logradouros o nome dos outros quatro municípios que somados a ele compõem a nossa comarca. Hoje, pelo que apurei junto ao cadastro imobiliário da Prefeitura, só temos a Praça do Pedrão e a Rua de Santanópolis. 

A rua de Água Fria virou Rua Primo Bispo do Santos e a rua de Ouriçangas virou Avenida Padre Jocundo. Curioso é que, como me lembrou o amigo Artur Modesto, já existia, e ainda existe, a rua Padre Jocundo. Não conheço a história do Padre, todavia por mais esplendorosa que ela tenha sido, não seria motivo para “abençoa-lo” com seu nome em dois logradouros (uma rua e uma avenida). 

No Rio Vermelho em Salvador existem várias ruas com nomes de cidades baianas. Fico contente quando me lembro da existência da “Rua Irará” naquele bairro. Assim como fomos lembrados lá, acho que nossos irmãos, quase conterrâneos, de Água Fria, Santanópolis, Ouriçangas e Pedrão, merecem as lembranças aqui. 

Por tudo isto, defendo a permanecia do nome “Praça do Pedrão”. Afinal, parafraseando o slogan de um ex-candidato a prefeito nas eleições de 2000, “a praça merece este nome”. 

PS – Se o desejo é utilizar ruas do centro. A título de sugestão, podemos imaginar a troca de “Tancredo Neves” por “Aristeu Nogueira”, dando o nome de um ícone político local à nossa praça dos três poderes. E “Rui Barbosa” poderia ser substituído por “Amadeu Nogueira”. Na reinauguração a avenida ganharia nome novo. 

28.3.12

Artista de atitude no Buzu


Nos ônibus urbanos de Salvador já ouvi muitos dizerem: “Pessoal, desculpe interromper a viagem de vocês”. De vendedores de doces e outros atrativos a ex-viciados pregando a cura através de centros de recuperação, tem de tudo. 

Até hoje guardo na memória a cena de um cego. Ele só tinha como companhia seus dois instrumentos. Uma vara de tatear e um acordeom. Preparava o recipiente para receber os donativos e começava a tocar. 

Ficou marcado ele cantando uma canção do veio Lua. Ele tinha emoção na voz. Ao descrever a dor do personagem tema, o ceguinho parecia falar da sua própria dor: “Mas assum preto/ cego dos olhos/ não vendo a luz canta de dor”.

Lembrei desta cena na sexta, 16. Entrou um rapaz com um acordeom no ônibus. Este não era cego, mas me despertou para algo inusitado. 
Como dito acima, já vi muito personagens vendendo coisas no buzu. Já vi pedintes. Presenciei necessitados. E outros que nem pareciam tanto. Só não tinha visto artista divulgar seu trabalho musical. 


"se aprumou na lateral 
de um dos assentos e passou a tocar"

“Gil do Arcordeon” é o nome dele. Não tinha jeito de artista. Parecia tímido e talvez até envergonhado do que estava fazendo. A voz era um pouco baixa. 

Anunciou que iria passar um CD e tocar um pouquinho. Não era obrigado ninguém ficar com o disco. O custo era de modestos R$ 2,00. Valia menos que a passagem (R$ 2,50).  

Depois o artista foi até o meio do ônibus, se aprumou na lateral de um dos assentos e passou a tocar. Tocou “brasileirinho” com seu acordeom.

O som do instrumento não estava muito agradável. Não sei se era algum defeito. Não sei se o acordeom, denunciado pelo seu aspecto velho, reclamava dos anos e das tocatas. Não sei se foram os meus ouvidos. 

Eu queria ouvir. Já o passageiro da fileira ao meu lado... “nem tchun”. Fone no ouvido, ele estava distraído e movimentava a cabeça levemente. O interesse era maior para o som que saia do seu aparelho. Pelo formato, parecia ser um Ipod. 

“Aí não pode!” O cidadão parece nem ter percebido o Gil. Este, fez uma brevíssima tocata de uma música só e logo se postou a recolher os CDs ou o dinheiro dos dispostos a “contribuir” com aquela participação. 

Eu vi um, vi dois, vi três devolverem o CD. Quando passou por mim, fiquei com um exemplar. Pelo conjunto da cena, achei por merecimento reconhecer. Logo, a moça ao meu lado também ficou com um. Depois a outra à minha frente. E na sequência outra pessoa lá adiante.


"o artista sentou-se 
nas primeiras cadeiras do ônibus"

Então o artista sentou-se nas primeiras cadeiras do ônibus. Estava sem idosos, gestantes ou outros a merecer o direto. Às suas costas, as marcas de suor nas tiras do instrumento criavam suspeitas. O labor já devia durar algum tempo. Deveria vir de bem antes daquele começo de tarde de sol escaldante depois de uma breve tempestade de verão.  

Enquanto ele esperava a próxima parada, para descer, subir noutro ônibus e exercitar novamente a sua verve, passei a olhar a capa do disco dele. 

Curioso. Ao fundo uma cena pastoril. Em primeiro plano uma sanfona, ao ar, sem tocador. A imagem, quem sabe, representa a situação de muitos cantadores como o Gil. Invisíveis do grande público, da grande mídia, das majors, do mundo... 

Para aumentar a sua “invisibilidade”, o Gil ainda parecer ser pré-internet. Na ficha técnica e nas outras informações na capa do disco não há sequer um endereço de e-mail. 


Capa do disco: 
Ao fundo uma cena pastoril. 
Em primeiro plano uma sanfona, ao ar, sem tocador.


Sem Palco MP3, Youtube, My Space, Facebook, Melody Box, Cloudy Sound, ou qualquer rede social do tipo, fica ainda mais complicado para o Gil aparecer no atual cenário da música, onde CD é apenas cartão de visita.

Imaginei quantos artistas na mesma situação dele não deve existir neste Brasil de meu Deus. Neste sertão nordestino. Santos guerreiros na eterna luta contra o dragão da maldade. O sonho de ter seu trabalho reconhecido e não mais serem vistos como pedintes. A quem cabe a ladainha: “compra pá majudá!”

Particularmente, eu não achei o som do Gil lá esta “coca cola toda”. Mas... se for em época de São João, tomando um licor, num bate coxa numa sala de reboco... possa crer que é uma trilha sonora maravilhosa. 
De qualquer sorte. Parabéns ao Gil. Pode ser que não seja bom artista. Pode ser que não seja bom camelô. Mas mostrou-se um cara de atitude.

Ei Supresa!!!! 

Quando estava fechando o texto, por curiosidade, resolvi colocar o nome de Gil do Acordeon no Google. E não é que me deparei com um site do cara. E lá tem link para várias redes sociais. 

Percebi que deve ser algo recente. Afinal ele continua um pouco invisível. No momento dessta postagem, ele só tem um amgio no Face. Dois seguidores no Twiiter. E ainda nenhum vídeo no Youtube, mas já tá na net. Acho que ninguém mais quer ficar de fora dela.  


- Visite o site de Gil –

12.3.12

“A CHAMA DA ATENÇÃO”


Texto de Emerson Nogueira - Mersinho 

A madrugada do dia 29 de fevereiro de 2012 foi terrível, algo queimava meu juízo ao ponto de não deixar-me dormir.  Insônia, desconforto, preocupação, não sei bem, mas a cena vista dias atrás buliu a consciência. 

Numa manhã de domingo viajei e no trajeto uma “visagem” chamou-me atenção. Embora estivesse a quilômetros da ocorrência, pude observar que não era uma simples queimada. A fumaça misturava-se às nuvens deixando uma cicatriz no horizonte, rapidamente pensei nas arvores e animais perdendo a vida. 

"A fumaça misturava-se às nuvens 
deixando uma cicatriz no horizonte"

Não sou ativista, mais se tem uma coisa que me deixa chateado é agressão a natureza. Após uma parada desci e tentei registrar aquele episodio, mas o “calibre” não alcançava tal destruição. Tirei algumas fotos porem só uma ficou razoável, parecia que a câmera se recusou a dar qualidade à infeliz imagem. 

Talvez tenha sido um acidente, alguém colocou fogo com um objetivo e ele se propagou “o vento levou”, mas a realidade é quase cotidiana e vista quase sempre em áreas rurais. Tentei compreender um pouco a motivação deste tipo de ação. Conversei com alguns experientes amigos da roça onde me disseram que a prática é antiga e na maioria das vezes a criação de gado é um dos principais fatores. 

Embora o tema seja diariamente discutido em todo planeta parece que os nossos ouvidos precisam de atendimento otorrino, “uma lavagem”. Dentro desse contexto nos acostumamos vê as coisas de fora. Irará não foge a realidade e assim como em toda parte do nosso imenso Brasil vem sofrendo com a destruição do seu Patrimônio Natural. O crescimento deveria moldar-se na sustentabilidade, no entanto mudar essa cultura secular não é tão simples. 

Associei alguns momentos de vivencia e alguns fatos que nos coloca a todo instante nesta temática. Lembrei das historias relatadas por meu avô Januário quando me contava aspectos geográficos da região principalmente da nossa bacia hidrográfica. O Velho me disse que nossos Rios e Riachos ainda não acabaram definitivamente por conta da mão de Deus. O desmatamento das margens é a gota d’água. Jilú sempre me diz: “Meu filho o olho d’água não quer vê o olho do sol”. Outro dia exemplificou dizendo: “Fique meio dia olhando sem parar para o sol pra vê se você agüenta”. São simples frases mas que estão relacionadas aos acontecimentos. 

Jilú: “Meu filho o olho d’água não quer vê o olho do sol”


A preservação das nascentes em toda sua extensão já seria um recomeço. Outros caminhos devem ser estudados, preservar muitas vezes se resume a apenas não interferir. Meu avô tem apenas uma pequena propriedade, mas sempre manteve um pedacinho de Mata, segundo ele é bastante útil não só para os animais que “precisam se esconder”, mas para utilização da mesma. 

Outro dia uma observação me fez refletir. Fui à casa do meu pai e lá reparei algumas gaiolas com pássaros e falei: “porque o senhor não solta esses passarinhos?”. A resposta foi imediata: “Não, se soltar vão caçar e matar tudo, eles não deixam nada”. A resposta um tanto contraditória levara-me a crer que no pensamento dele os passarinhos estavam mais bem protegidos presos. Recordei de alguns relatos de que meu pai gostava de mato e era um caçador. Fiquei pensativo, em seguida vi o meu pequeno irmão nos braços da mãe, ali estava o futuro.  

A todo o momento nos deparamos com situações pertinentes ao assunto. É triste ver nas feiras a comercialização de pássaros. A quem goste de criar, é também uma questão de costume, mas deveria ter limites, ninguém gosta de viver atrás de grades. 

Tempos atrás me encantei com a labuta de algumas famílias que vinham de longe comercializar Mangaba na Feira de Irará. Passei a conhecer o modo de vida de algumas que apresentavam características Quilombolas e têm na extração da Mangaba um complemento na renda. Chamou-me a atenção quando me relataram a luta para conseguir a fruta e que a extração estava cada vez mais escassa, pois estavam acabando com as arvores de Mangabeira para dar lugar à plantação de Eucaliptos nas Regiões de Água Fria e Ouriçangas. Assim o velho ditado “vestir um santo e descobrir outro” parece ser o caminho para alguns. 


"a labuta de algumas famílias 
que vinham de longe comercializar Mangaba 
na Feira de Irará"

De toda sorte é certo que a Mãe Natureza necessita ter mais filhos e para isso temos que fazer a nossa parte. É preciso participar mais, o dialogo talvez seja a melhor escolha. As próximas gerações devem ser preparadas, a Família e a Escola terão papel fundamental nas mudanças neste mundo de regeneração.

Mercinho, 09/03/2012

GALERIA

NATUREZA DE IRARÁ - IMAGENS DE EMERSON NOGUEIRA - MERSINHO:  








4.3.12

Fernando Sant’Anna, a parte e o todo


Fernando Sant’Anna nos anos 1980 

Em Irará, os comentários da morte de Fernando Sant’Anna não devem ter sido diferentes dos de quando ele era vivo. “É daqui, mas fez o que pela terra?”, muitos podem ter questionado. 

Sim. A reposta pode ser dada com citações de algumas obras ou realizações na cidade. No evento no qual lhe foram prestadas homenagens, acontecido em maio de 2011, algumas delas foram citadas. 

Entre as mencionadas, a Rodovia BA 084, a construção da grande agência dos Correios e Telégrafos, a vinda do telefone, além de outras conquistas para o município, nas quais Fernando teria participação. 

Mas, pensar assim é pensar pequeno. É só olhar para a parte e esquecer o todo. É pensar no varejo. E Fernando Sant’Anna era da política do atacado. Um daqueles, hoje raros, homens públicos com atenção dedicada, principalmente nos seus exercícios parlamentares, às grandes questões nacionais e da humanidade.  

Por isso, melhor do que citar benfeitorias em Irará, conquistadas com alguma influência de Fernando Sant’Anna, melhor seria dizer que o ex-deputado não se limitou à sua cidade natal, como faria qualquer político provinciano.  A sua batalha era pela pátria como um todo. 

A luta se dava em campos como o da defesa pela soberania nacional, entre outros. Fernando Sant’Anna, nosso conterrâneo, foi um dos articulistas da grande campanha nacionalista “O Petróleo é Nosso”, ocorrida na década de 1950. 

Aquela empreitada contribuiu para o nascimento da Petrobras. Com a gênese de uma petrolífera nacional veio também o direito dos próprios brasileiros explorarem e comercializarem o ouro negro, antes adormecido sob o sagrado solo desta nação. 

E a Constituição de 1988 e todas as suas garantias democráticas? Fernando foi um Deputado Constituinte e participou ativamente da elaboração da Carta, considerada umas das mais avançadas do mundo. Se suas prerrogativas são desrespeitas, isto é outro assunto.  

Agora é história. Chegou o dia de Fernando Sant’Anna ser atingido pela “fatalidade cósmica”*. Fica o seu exemplo do fazer política. A política do dialogo com o discordante. A política dos ideais. 

A grande política, em contraposição a pequenez desta que se tem visto por aqui. Onde tribunas são ocupadas para “diz que...”. Onde cada qual parece mais preocupado em cuidar de suas partes e particularidade. Onde os partidos são repartidos. 

É claro, a toda regra há exceções. Vez em quando um cometa passar por esta província e deixa por aqui uma centelha idealista. Algum “maluco beleza” qualquer, sabedor de que a parte contém o todo, pois, “a letra A tem meu nome”, como cantava Raul. 


* O termo foi usado por Fernando Sant’Anna para se referir à morte quando o entrevistei em 2005 para a escrita de monografia sobre a militância de Aristeu Nogueira. 

** Imagem - Fernando Sant’Anna nos anos 1980 em foto da Galeria dos Iraraense Notáveis – Acervo da Casa da Cultura de Irará 

16.2.12

“O mundo se brasilificou”

Público em frente e mesa da 
Desconferência com Gilberto Gil no Digitália 

Gilberto Gil levou o país à condição de verbo. Este foi um dos pontos da chamada “Desconferência” (estava assim mesmo no programa) daquele “preto que a gente gosta”. 

Na mesa com Gilberto Gil, estavam o amigo Juca Ferreira, o DJ Spooky (Nova York) e o pesquisador Volker Grassmuk (Leuphana University), um dos companheiros de pesquisa do teórico Marshall MacLuhan. 

Salvador, sexta, 03 de fevereiro, fim de tarde, pátio do ICBA (Instituto Cultural Brasil Alemanha), Corredor da Vitória.  

A soterópolis estava assustada, diante da “greve” (“motim”, “paralização”...) da PM. Pairava o medo da repetição dos acontecidos do dia anterior. Arrastões, ônibus trancando avenidas, fechamento de lojas e shoppings, assassinatos na madrugada, pânico e muita boataria também. 

Algumas patrulhas do exército já eram vistas nas ruas. As rádios ainda titubeavam em confirmar, ou não, o informe da manhã, o qual anunciava o recolhimento dos “buzus” às 18h. 

O público no pátio do ICBA parecia alheio a tudo aquilo. A fala de Gil dentro da programação do Digitália era uma das mais aguardadas e, visivelmente, teve público bem maior que muitas outras do evento. 

Abordando sobre as novas tecnologias Gil falou de canções suas. “Cérebro eletrônico, zomba do computador”. Depois citou “Futurível”, enaltecedora da máquina, segundo disse. Ele cantarolou ambas. Ao vivo, Gilberto Gil à capela, muito aplaudido.  

O músico falou do processo evolutivo da comunicação na raça humana. Lembrou do hiato de 17 mil gerações para sairmos da linguagem oral para a escrita e apenas 35 da escrita para a audiovisual.  

“TV é uma mente pública. Computador mente privada. Internet a mente conectada e aumentada (publica + privada, baseada nas redes)”, exemplificou. 

Neste contexto também foi lembrado o papel de países como o Brasil. Lugares onde, grosso modo, a população está fazendo a transição da cultura falada para a cultura digital. Uma passagem feita sem dominar, de modo mais complexo, os meandros da escrita. 

Gilberto Gil falou da presença do Brasil no novo cenário mundial e de como o mundo tem prestado atenção no país atualmente. O jeito brasileiro de ser e suas peculiaridades, como o fato de lidar bem diante de situações difíceis, tem interessado ao mundo. 

“O mundo se brasilificou um pouco nas dificuldades”, disse Gil numa co-relação às crises recentes vividas pelo antigo primeiro mundo.


Foi a cereja do bolo. Não dava para ouvir Gilberto Gil sem uma palavra de efeito. E, neste momento, quando se diz muito de que “o Brasil é a bola vez”, o “brasilificou” foi especial. 

É a pátria transformada em verbo. Em ação. O Brasil acontecendo!

____________________________

Ministério 

Com o Ministério da Cultura em seu currículo, Gil foi provocado a falar sobre suas gestão e a da atual titular da pasta, Ana de Holanda. “Não vou falar!”. “Não quero discutir isso”. Foi enfático. 

Na sua breve argumentação porque não falaria, uma das frases dita foi: “A realidade não é o desejo de cada um, a realidade é a realidade”. 


Diferente do amigo, Juca Ferreira, sucessor de Gil e antecessor de Ana no Minc, falou sobre o assunto. 

Juca fez uma breve descrição sobre os avanços do país e medidas adotadas durantes a sua gestão e a de Gil, ocorridas nos dois mandatos do ex-presidente Lula, para a universalização da cultura no Brasil. 

Ele destacou o papel do programa Cultura Viva, através das instalações de Pontos e Pontões de Cultura, em vários lugares do país, até mesmo em aldeias indígenas. Tocou também nas questões da identidade e diversidade cultural. 

O ex-ministro Juca salientou que um país com o desenvolvimento econômico em ascensão como o Brasil precisa também incluir culturalmente. 

“Acesso pleno a educação. Acesso pleno a cultura. Se não seremos um país rico, povoado de bossais”. Disse Juca Ferreira. 




15.2.12

E Cara de Gato aceitou a provocação...


No final do evento de homenagem a Alfredo, ao me encontrar, o músico Grujó perguntou: “Porque você não tava no evento do Natal?”. 

Ele se referia ao Concerto Natalino da Filarmônica 25 de Dezembro. Antes mesmo que eu apresentasse o motivo da ausência, Grujó emendou: “Você que foi o percussor da coisa...”. 



Grujó (nesta foto tocando na Lavagem ) revelou que o 
maestro comprou a ideia.  

Confesso que não entendi muito bem: “Percussor? Criador? De que???”, questionei.  

- “Da Big Band!”

Então Grujó passou a me contar que, de fato, a ideia de um grupo de jazz dentro da Filarmônica, processo demandado para uma Big Band, nasceu daquela conversa no bar de Didi, já relatada em post aqui no blog. 

Depois ele me contou da satisfação, da empolgação e das dificuldades (como as ausências de alguns aos ensaios), enfrentadas pelo projeto. 

Fiquei lisonjeado. Nem sempre encontramos pessoas dispostas a escutarem nossas ideias. E ainda por cima, executá-las. 


Maestro "Cara de Gato" 
(nesta foto com a boca no trombone na Lavagem)
aderia a ideia e tocou adiante   

Já ouvi muitas vezes: “você é santo de casa”. É, mas, Cara de Gato veio de outra freguesia. De tal modo, ele teve maior sensibilidade para dar ouvidos à “ladainha”. E como “santo”, bem recepcionado, operou o “milagre”.

O maestro aceitou a provocação e toca adiante. E vamos nessa caminhada. Na fé e na vontade de que esse embalo vá longe. Bem longe! 

Por agora, a ansiedade e vontade de ouvir o anúncio de uma tocata da chamada “Big Band” é grande. Da próxima vez, não posso perder por falta.  


Fotos: Portal Iraraense 

11.1.12

Seriam as escolhas ou os escolhidos?


Às vezes nos perguntamos sobre o que seria sorte ou que seria azar. Destino? Será que isto existe? Haveria um caderno escrito em algum lugar, no qual o roteiro de todo ser humano já estaria traçado. 

Crenças, religiões, filosofias. O debate ecoa... 

Para uns o mundo, Deus, o Universo, ou qualquer entidade ou sistema no qual se creia tem os seus escolhidos. Por isso, existe quem tenha acesso a uma vida melhor e desejos realizados. 

Para outros, a sorte na vida depende de escolhas. Mesmo que as opções independam da pessoa. Por vezes foi o sistema, ou alguém que dele se beneficia, que não deu alternativas.  

Lembro que minha vó paterna, Ana Ferreira, falava da parábola do sapato.

No caso, um homem chorava bastante porque não podia ter um par de sapatos para calçar. Ele seguiu descalço e adiante encontrou um rapaz também chorando. Este tinha os sapatos, mas não tinha pés para usá-los. Diante da cena, o homem viu que a sua condição não era das piores. 

O fato talvez apele para o conformismo. Aquela situação de que, “por pior que estejamos, tem sempre alguém pior do que a gente”. Sim. Mas, ao que parece, tem sempre alguém melhor também. Tem gente que têm os pés e os sapatos. 

Muitos se sacrificam bastante e parece nunca alcançarem os seus objetivos. Já outros supostamente são agraciados sem esforço algum. 

Observo as situações e me questiono. Seria cada um mesmo vítima de suas escolhas, ainda que, para quem acredita, em vidas passadas? Ou o mundo (Deus, Jeová, Alá, Oxalá...) já tem os seus escolhidos?   

3.1.12

Brasileiro ecológico. Isto é real.


Impressionante como os brasileiros de uns anos para cá se tornaram extremamente ecológicos. Mais precisamente, árduos defensores da fauna nacional. Se bem que, vale pontuar, este instinto de defesa parece não se estender a todos os animais, mas, tão somente, a um seleto grupo deles. Especificamente, tartarugas de pente; garças; araras; micos-leão dourados; onças pintadas e peixes garoupa. Determinado tido de beija-flor, antes de ser extinto, também já integrou a lista. De fato, impressiona, como todos fazem de um tudo para ter e/ou preservar estes animais em casa. Ou então, numa “reserva ambiental” adequada, neste caso, igualmente conhecidas como “banco”. Não é brincadeira. Isto é real!    

@robertoirara 




17.12.11

Maria do Banco

Texto e Fotos de Emerson Nogueira - Mercinho




Outro dia surgiu uma informação. Denise disse: “Merço tu sabia que Dona Maria do Banco é tia de Gloria Maria?”. Franzi a testa e disse: “quem?” Respondeu: “Gloria Maria a jornalista da Globo”. Sacudi a cabeça e perguntei: “Quem te falou”. “Foi alguém que falou na farmácia ai ela teve lá eu perguntei, ela me disse que é verdade”. No momento não me empolguei muito mais guardei no meu “HD” a informação. Os dias passaram e algo me incomodava. A historia merecia um interesse maior. 

Logo que comecei a estudar o caso fiquei empolgado. Seria bom, não só porque havia uma informação importante a ser averiguada, mas também porque muitas vezes esquecemos as pessoas do nosso cotidiano, principalmente quando são as mais simples. 

Em um domingo à noite, matava o tempo na Praça do Coreto acompanhado de meu filho Cauã. Quando se aproximou das 20:00h, desci a Pedro de Lima, para ir ao encontro de Denise, pois o expediente de seu trabalho se encerrava. Próximo ao local da minha antiga residência, algumas pessoas saiam de uma Igreja Evangélica e entre elas Dona Maria. Adiantei os passos até que lhe dei um “boa noite”. Sem perder tempo puxei o assunto e a mesma sorrindo me disse: “é verdade ela é filha do meu irmão”. 

Continuamos e ao cruzar a esquina do antigo Cinema avistei Ró conversando na porta com alguém, deu vontade de passar logo a informação, mas o horário estava estourado. A breve conversa não pode prosseguir e ficou para depois. 

Os dias foram passando e os atributos do dia a dia não me deixavam. Ate que em 13 de dezembro de 2011, fui à pensão de Dona Maria. Fui muito bem recebido, a mesma pediu-me para aguardar um pouco, pois estava fazendo algumas cocadas. Sentei e observei a casa extensa com muitos quartos. Logo a velha aproximou-se e sentou. Começaria ali uma gostosa prosa. Dona Maria aparentava-se disposta, lúcida, alegre. Comecei com algumas brincadeiras, havia sentido um clima propicio a sorrir. Quando dona Maria foi aos poucos revivendo o passado. 

Nasceu em Olhos D’água município de Aramari, em 05 de maio de 1933. Antes disso a família vivia em Água Fria, quando houve a grande seca de 1932 (seca que ate hoje é lembrada como uma das piores em nossa região). Seu pai chamava-se Florêncio Bispo dos Santos, filho de Zidorio Luciano dos Santos, “Zidoro do Boi”, e Maria Cula de Jesus. A descendência paterna era de raízes negras, oriundas da região conhecida como Curral de Fora na fazenda Roça Grande, localidade próxima de onde passava o Rio Inhambupe. Lembra que ficava próximo da Fazenda de Agenor Moraes.  Já sua mãe chamava-se Juliana Batista de Matos, era filha de Faustino Matos, segundo Dona Maria ele era índio. Sua avó chamava-se Naninha Damasceno, era descendentes de escravos, eram da região de Olhos d’água em Aramari. 

Após o período de seca a família voltou a morar em Água Fria. Dona Maria teve muitos irmãos entre eles: Hilda, Galdensio, Marinho, Ceçe, Ranunfo, Arcenio, Beijamim, Pedro, Zé Claudio, este chamado de “Zuza”.  

Lembra da infância na roça, pescava bastante. Algumas vezes passava na correnteza do Rio com feixe de lenha na cabeça. Lembra quando criança quando seu avô Zidoro Boi chegava com seu lindo cavalo chamado “Furta Menina” e gritava de longe: “Cula, boa noite de frança que paz é dia”. Com carinho lembra-se dos domingos em que seu pai e seu tio Gregório iam sambar e tocar sanfona. A menina ficava doida pra ir mais seu pai não permitia. 

Na época teve seu primeiro namorado, mas seu pai não queria. Chamava Domingos, quando o rapaz passava para o samba seu pai dizia: “Pé do Cão passou aqui, você não vai”. 

Aos 20 anos Dona Maria ganhou rumo, foi convidada a trabalhar em Água Fria em uma casa próxima a histórica Igreja de São Sebastião. Foi trabalhar para a família de Pedro Ribeiro. Fazia trabalhos domésticos, como lavar roupa, limpar casa, e assim ficou algum tempo. Aprendeu ainda alguns ensinamentos com Dona Julieta filha de Pedro Ribeiro. Neste instante Dona Maria me disse: “Meu filho sem saber lê, eu já era uma cobra se soubesse virava uma Cainana” (risos).



Lembranças de Maria (ao centro). 
Nesta foto junto com ela, entre outros, 
Geneci, Romário, Xisto, Angélica, 
Sebastião, Roque Inspetor, Gracinha e 
Nilton Junior (neto de Maria do Banco)


Passou-se algum tempo ate vim morar em Irará. Lembra que sua primeira casa foi próxima ao atual fórum e que era tudo mato. Sofreu, a vida era difícil. O pouco que ganhava mal dava pra se manter. No balanço da conversa dona Maria se emocionou, foi quando lembrou que aos sábados uma senhora chamada Lauzinha filha de Zé Bevenuto, passava com sexto de bananas para vender na feira e ficava sempre a observar seu sofrimento. Foi quando a mesma convidou Dona Maria a morar com ela. Assim foi ganhando conhecimento e trabalhar em casa de famílias. 

Em meados da década de 50 foi trabalhar na casa do advogado Dr. Ramalho e sua esposa Dona Lalinha. Estes eram da cidade de Saúde, e estavam morando em Irará, tiveram uma farmácia. O casal tinha filhos como: Zequinha, Conchita, Daduca e João Bosco Ramalho, grande amor de Dona Maria. A velha conta que era uma negra bonita e começou um romance com João. Conta que o ponto de encontro era nos fundos da Escola Juliano Moreira. 

E assim a família foi morar em Salvador e Dona Maria foi junto, quando a família descobriu foi um alvoroço , ninguém queria por conta do preconceito. Viajou e foi morar na cidade de Saúde lá ficou algum tempo. Conta que conheceu Helio Pereira comerciante da cidade, tinha uma loja de roupa. Ele era irmão de Edgar Pereira, advogado e chegou a ser Deputado. Após algum tempo voltou a Salvador e foi morar na pensão de Dede Loura. Dona Maria conta que gostava muito de João e continuou os encontros na praia do Canta Galo e foi lá que engravidou. Dona Maria veio embora. 


Em 1958 teve seu único filho. Nasceu em Pataiba e foi batizado pelo Padre Carlos. Voltou a Irará. Morou em muitas casas ate que foi trabalhar na casa de Elísio Santana. Foram 14 anos ate que Sr. Elisio, arranjou para ela um emprego no recém chegado Banco do Brasil. Na época Dona Maria já ostentava um grande sonho, formar seu filho. Foi ai que Sr. Elísio a chamou e disse que o Banco lhe pagaria melhor e que lhe daria condições de custear os estudos de seu filho. Lá trabalhou muitos anos fazendo limpeza e servindo cafezinho, entre outras coisas. Fez muitos amigos, falou da casa da Republica, era uma alegria só. Aproveitou e mostrou-me uma fotografia de meados da década de 80.

Dona Maria conta que entre idas e vindas rodou bastante, sua vida foi um verdadeiro andarilho. Entre os lugares que morou, lembra com carinho de Cruz das Almas onde morou na casa do Dr. Lucilio Flores que era Engenheiro Agrônomo. Conta também que foi para São Paulo morar com Dom Valter e Dona Tide na Rua Baronesa de Itú, depois foram para Paranaguá. 

O bate papo tava bom, ora ou outra Dona Maria partia para a cozinha para olhar as cocadas. Eu ficava fazendo alguns rabiscos para não perder o compasso. Foi quando entrei no assunto sobre Gloria Maria.  A velha me disse que ela era filha do seu irmão Zé Claudio que se casou em Pataiba com a prima chamada Etelvina Luciana dos Santos, segundo ela mãe de Gloria Maria, Paizinho e Nêna. Segundo ela alguns dos filhos nasceram na casa de Rulfino em Inhambupe a mais de dez léguas do Curral de Fora. Informa que era região de muitas matas, passava por Maracaia e também próximo a regiões de Satiro Dias.  

A jornalista Glória Maria da Rede Globo  
foi apresentadora do Fantástico  

Perguntei se chegou a conhecer Gloria Maria, e me disse que não. Ainda me disse que após a morte de Zé Claudio “Zuza”, Nêna levou a mãe para o Rio de Janeiro. Aproveitei e questionei como sabia que a jornalista famosa era sua sobrinha. Disse-me que seus irmãos falavam. Não tinha muitas informações, só sabia que ela era casada com um estrangeiro. Disse que cada um segue seu destino e que Deus a abençoa-se. 

Já no final da prosa perguntei qual foi um momento feliz em sua vida. Disse ser a formatura de seu filho Nilton na cidade de Catú. Conta que na época Reginaldo deu dois ônibus. Dr. Deraldo levou a Banda, foi muita gente de Irará entre elas: Julieta Campos, João Lopes, Aiala Santana e Roberto, Lurdes Ferro, Beto Santana, Reginaldo, Marli, entre muitos outros. Neste momento Dona Maria voltou a se emocionar, deixei-a por alguns minutos... Em lagrimas relembrou que não foi fácil mais Deus proporcionou esta grande felicidade em sua vida. 




Maria do Banco se despede de Emerson 

Já passavam das 17:30 quando encerramos a entrevista, conduziu-me ate a porta, onde agradeci de coração, registrei a última foto e partir feliz na certeza de ter contribuído para a alegria de Maria do Banco, que teve vida difícil mais com persistência e fé conseguiu almejar seus objetivos. 

Mercinho, 15/12/11