14.10.16

Old Kids On The Rock

Eu me lembro. Na época eu já curtia rock há algum tempo, mas tinha maior proximidade com o rock brazuca. Dos monstros estrangeiros eu conhecia a fama e poucas músicas de alguns.

O Guns n’ Roses para mim aparecia como uma das novidades daquele Rock in Rio 91.

Estávamos na oitava série. Haviam colegas que já conheciam o som dos caras. Um deles tinha uma foto da banda como contracapa do caderno. Daquelas típicas, estilo garotos maus, com garrafa de wisk na mão, etc.

Talvez o meu distanciamento para com a banda foi causado pelas meninas. Não que elas me impedissem de ouvir o som. Era só ojeriza, talvez ciúmes, diante da forte tietagem.

Elas tietavam na mesma medida Axl Rose e New Kids on The Block.

Pouco tempo depois fui cedendo e me aproximando do som dos caras. Daí então conheci um hard rock eletrizante e divertido de se ouvir.

Desde “Sweet Child oh Mine”, com os clássicos rifs e solo de Slash, até todas as canção do “Appetite for Destrucion”; “Use Your Ilusion  (I e II)”, e o “Lies”. Cheguei a ouvir tb o “The Spaghetti Incidente”. Tudo em Fita K7, é claro.

O tempo passou e, embora em menor intensidade, sigo curtindo o bom e velho rock and roll.

Boa parte das meninas e dos colegas casaram-se. Eu também. Alguns já tem filhos. Eu ainda não.

O Rock in Rio se firmou como um dos maiores festivais de música do planeta. O Guns, enquanto banda, acabou e recomeçou. Agora, eles estão às vésperas de pisar em solo brasileiro novamente.

E o New Kids On The Block... Bem...

Deles eu não sei. Nem tenho muito interesse em saber. Em geral e, principalmente, quando bate a nostalgia eu prefiro os Old Kids On The Rock.

RM



3.7.16

Versos para #MeuSãoJoãoNaTVE


O pessoal da TVE publicou os versos que enviei para eles com relação ao São João.

Infelizmente, o verso de abertura acabou suprimido na edição e, assim, a primeira estrofe ao invés de septilha virou sextilha...

Mas tudo bem! Valeu a participação, a intenção e o apoio da rapaziada da TVE. E, principalmente, pela valorizada que eles deram à Literatura de Cordel !!! 

Valeu TVE !!! 

Verso original abaixo:
‪
#‎SaoJoao‬ ‪#‎Bahia‬ 
‪
#‎LiteraturadeCordel‬#MeuSaoJoaoNaTVE

Um dia, disse o vidente:
“O cordel vai acabar!”
Sabe nada o inocente
A arte vai se reinventar 
Do papel pro Facebook 
A TVE nos dá um look 
Pro cordel valorizar

Pra não virar personagem 
Modere a dose do licor 
Dance forró, faça viagem 
Nessa ‪#‎BahiaMeuAmor‬
Curta a festa com alegria
Pois o ‪#‎SãoJoãoDaBahia‬
É o melhor Seu Doutor!

Se quiser uma boa dica 
Posse então lhe oferecer
Em Irará a festa é rica 
De tradição e de saber
Tem sanfoneiro no coreto
Milho assado no espeto 
E a turma do Jeguerê...

14.3.16

“Zico” morreu, agora é folclore

As aspas já sinalizam. Não se trata do ídolo do Flamengo. O Zico do qual falo é um “mendigo” (“doido”) de Irará.

Posso dizer que ele era da minha geração. Não sei se um pouco mais novo, não sei se um pouco mais velho. Conheci o Zico quando eu era criança e ele também era.

Nunca soube ao certo do histórico dele, mas sempre ouvi muitas histórias (ou estórias) se contar.

Zico vivia nas ruas da cidade. Certa feita um bancário o adotou. Andou limpinho por alguns dias, depois, não se adaptou e voltou a viver nas ruas. É o que contam. Zico continuou sujo, maltrapilho, pedinte.

Na década de 1980, dizem, ele foi uma das crianças sequestradas em Irará para o tráfico internacional de pessoas. Teria conseguido a fuga e o retorno para sua terra.

Andarilho, Zico conhecia a tudo e a todos do Irará. Chamava as pessoas pelo nome ou apelido, como quem demonstrando intimidade. Aos mais velhos chamava com respeito ou proximidade: “Seu”, “dona”, “tia”...

Certa vez, quando foi pedir dinheiro, ouviu o interlocutor: “Não tenho trocado, Zico”. Daí, ele de pronto mostrou a solução: “Tem problema não, me dá o dinheiro que eu te dou o troco”.

Em outra oportunidade fez uma intimação a um noivo. “Olhe, você enrolou a outra um tempão e não casou, não vá fazer isto com essa aí não”, avisou ao rapaz, diante de sua noiva de alguns anos.

Zico gostava de dar conselhos. Certa feita encontrou alguém saindo de casa apressadamente, tarde à noite, porta a fora, rua a dentro. “Não sai de vez assim não. Olha primeiro”. Alertou.

E também indagou um conhecido se ele confiava na namorada. “Nunca sumiu dinheiro teu não?”.

Gostava de jogo, com quem estivesse disposto a rolar dados com ele, e de rádio. Às vezes, era um cantarolar danado pelas ruas.

Quando meu pai faleceu, Zico veio me dizer para não ficar triste...

Quem procurar saber vai encontrar “causos” e mais “causos”. Entre eles os passados sob distúrbios mentais. Momentos nos quais apareciam os alertas: “Zico tá atacado!”.

Para alguns, um doido. Para outros um simples mendigo que, apesar de ter uma “aposentadoria”, gostava de sujeira e mendicância.

Na vida, alguém que passou. E agora entrou para o folclore da cidade. Assim como outros personagens. Sejam eles os “certos” ou os “doidos de Irará”.

* Em meio as notícias sobre São João e Cristiano Araújo essa pode ter passado despercebida.

Escrito originalmente em 25 de junho de 2015 e postado no Perfil de Roberto Martins no Facebook - https://www.facebook.com/roberttomarttins


Publicado aqui no Blog com pequenas adaptações e acréscimos em 14/03/2016 

10.3.16

Eu estava na floresta, diante do rio, iluminado pelo celular dele

Naná Vasconcelos em foto de 2011 - Divulgação 
Reprodução de O Globo.com


Um dia, em algum lugar perdido no tempo, entre 2003 e 2006, e achado na minha memória. Concha Acústica do Teatro Castro Alves, Salvador Bahia.
Era um show do Cordel do Fogo Encantado. Convidaram um conhecido deles, então desconhecido meu, para fazer uma participação especial.

Aquele homem chegou à frente do palco e foi segmentando a plateia. “Aqui desse lado, aquele outro, quem tá lá em cima...” Eu, meio impaciente, pensava comigo: “Que besteira”.
Ele deu um som pra cada parte fazer. E depois saiu orquestrando a plateia. Entra o pessoal do “uuuuu”, agora o “chuaaaaa”... e seguia chamando sons, comandando o tempo de cada um deles, em cada parte da plateia, entrar.
Quando ele juntou tudo, não estávamos na Concha. Estávamos na floresta, em plena noite, diante de um rio. Era puro som de natureza. Rio, vento em árvores... Mais de 5 mil pessoas nesse frisson. Pensei sozinho: “Que de fuder!!!”
Esperava viver esta emoção estética novamente. Hoje, recebi a notícia de que não mais a vivenciarei. Ao menos sob a regência do maestro Naná Vasconcelos, não.
Ele se foi. Quem acredita, vai dizer que toda noite ele estará lá de cima, sinalizando pras bandas de cá, com o seu celular...

"O celular de Naná" - Dê o play e ouça a música de Otto


7.12.15

Seja "Feira da Mandioca", seja "Festival de Beijú", vale a afirmação das pessoas e da produção local


Cartaz de Divulgação do Festival do Beijú - 
a acontecer nos dias 12 e 13 de Dezembro


Irará ficou órfão da Feira da Mandioca. Agora anuncia-se o Festival Itinerante do Beiju. 

Não sei dizer se esta itinerância pretende passear por outros municípios ou pelas diversas comunidades rurais iraraenses. 

De antemão, sei que Irará precisa deste tipo de evento. E é bom que ele fique por lá. Que mantenha periodicidade. Seja semestral, anual ou bi-anual. O importante é ganhar solidez e não deixar de ser realizado. 

O município precisa ter em seu calendário sociocultural um evento para celebrar, reafirmar e divulgar os produtos e a produção agrícola familiar de suas localidades. 

Eventos como Feira da Mandioca, Festival de Galinha Caipira e Festival do Beijú são bons para isto. Eles costumam dar visibilidade aos produtos, aos produtores e ainda podem gerar boas perspectivas de negócios e autoestima. 

Segundo fui informado por uma renomada beijuzeira do Irará, numa das Feiras da Mandioca, um pesquisador conheceu o “beiju colorido”, incrementou seus estudos no produto e depois o difundiu pelo Brasil a fora. 

Ainda de acordo com aquela beijuzeira, quando questionado sobre a origem, o pesquisador apenas dizia: “vi numa Feira”. “Sequer se dava ao trabalho de dizer onde foi a Feira”, me disse a senhora, indignada.

Talvez, se o “beijú colorido do Irará” estivesse patenteado, o pesquisador não teria como “esquecer” o nome da cidade. 

Profissionalizados, organizados e feito em parecerias solidas, sejam Feiras ou Festivais, este tipo de evento direcionado à agricultura familiar tem tudo para crescer em solo iraraense.

Desta maneira, é simbólica a homenagem a ser feita ao saudoso Jarinho da EBDA neste Festival do Beijú. Tomara que a vontade e o trabalho dele pela evolução dos movimentos sociais agrícolas de Irará sirvam de inspiração.

E que estes momentos de celebração sirvam, de fato, para celebrar as colheitas, as produções, as manifestações da cultura rural e a prosperidade do município. Para afirmar as pessoas e a produção agrícola das famílias iraraenses.

9.11.15

Arte de rua, mídia e mendicância




Lembro Machado de Assis: 

“Ela era bonita, mas era coxa. Por que coxa, se bonita? Por que bonita, se coxa?” 

Pulo das lembranças do celebre Memórias Póstumas de Brás Cubas para a página A7 do A TARDE de sexta, 30/10/2015. 

A notícia “Jovem toca sax na rua para pagar a faculdade” apresenta uma aspa atribuída ao administrador Gustavo Correia, 44 anos. 

“É curioso, porque a gente, que reside aqui de Salvador, não está habituado a conviver com pessoas se apresentando nos espaços públicos. O rapaz é, de fato, corajoso. Ele está de parabéns”.

É totalmente possível ao administrador, “residente em” ou “residindo de”, falar de uma Salvador diferente da vista por mim. Ao contrário dele, na soterópolis por onde trânsito, vejo pessoas “se apresentando nos espaços públicos”. 

Malabaristas nos sinais; músicos, atores, palhaços e poetas nos ônibus; estátuas vivas nas praças... Muitos que talvez nunca tenham merecido sequer uma nota, quanto mais ter foto estampada na capa do jornal, como o rapaz do sax. 

Lembro-me agora de um senhor. Cabelos alorados, sotaque arrastado num tipo meio confuso de portunhol. Ele já entrou algumas vezes em ônibus nos quais eu era passageiro. 

Com um sax meio desbotado, certamente pela ação do tempo, toca músicas internacionais conhecidas e manda o seu recado.  Certa feita, o vi se apresentando na Cantina da Lua, de Clarindo Silva, lá no Pelô. Nunca o vi na capa do jornal. E, quem sabe, talvez nunca tenha sido citado por qualquer um diário...  



De cara, penso que A Tarde perdeu uma oportunidade de contextualizar sobre arte de rua em Salvador. E, ainda por cima, pareceu se resumir e assumir para si o discurso de uma única fonte. 

Diante do quadro fiquei a me perguntar se, ao produzir esta notícia, o jornal não se valeu do critério “mendigata” ou “mendigato” de noticiabilidade. 

Seria este rapaz do sax, estudante universitário, com formação em filarmônica, tocando música clássica e boa aparência, “um artista”, enquanto os outros seriam apenas “pedintes”? 

"E porque ele se apresenta na rua, se bem afeiçoado? Porque bem afeiçoado, se apresenta na rua?" 

De repente é o que se perguntam os passantes daquela avenida em frente à sede do jornal. Transeuntes e prováveis fonte única de opinião a ser considerada pelo periódico. 

PS 1 - Emissoras de rádio reproduziram a notícia da mesma forma deslumbrada e descontextualizada do jornal.

PS 2 – Já escrevi aqui nesse blog sobre um sanfoneiro que se apresenta no ônibus e vendia seus CDs – Artista de Atitude no Buzu


5.10.15

Política provinciana

A pouco mais de um ano das eleições de 2016, a movimentação já é intensa. Tanto do lado governista, quanto do lado oposicionista. Todos armam, articulam e planejam seus movimentos. 

O tema das eleições ganha a pauta em todo canto. No noticiário e nas rodas de conversa. 

Do lado da situação a procura é por um novo candidato. O atual mandatário já foi reeleito e, como não pode mais se candidatar, deseja passar o bastão a um dos seus. 

Dizem que o vice, velho parceiro político do executivo atual, naturalmente seria um candidato. Ele foi escolhido para ser vice pelo próprio titular e tem fama de ser um cara com bom trânsito junto à oposição. No entanto, não sei se o partido terá preferência por ele. 

O nome dos sonhos da maioria no partido é aquela mulher. Ela seria candidata em 2008, quando o atual executivo foi eleito. Preterida na época, apoiou o atual chefe e logrou cargos de destaque nos dois mandatos dele. No cenário atual, ela possui maior peso político do que o seu marido. 

Enquanto isto, no lado oposicionista as definições estão ainda mais incertas. Já são dois mandatos fora do poder. A sede pela volta é grande. Os correligionários têm saudades da gestão daquele que, seguindo os passos do pai, também se tornou o governante. 

Coisas de política de província. Vejam que o pai foi governante, um filho também foi governante e agora outro filho está interessado. A democracia também cria oligarquias. 

Dizem que, naquela província, ganha eleição quem tem dinheiro. E a política de província é bem assim. No entanto, existem mecanismos para barrar a possibilidade algum “aventureiro”, com muito dinheiro no bolso, chegar ao poder pelas graças do povo. 

Lá, o poder sempre é disputado pela polarização entre duas forças. Azuis de um lado, vermelhos do outro, alternando-se no poder.

Em política, tudo pode ser o seu contrário. E, às vezes, pelas características, chamamos de “província” a maior potência política do planeta. Os Estados Unidos da América. 

Barack Obama, o atual mandatário, já foi reeleito. Hillary Clinton, preterida em 2008, ocupou funções de destaque no governo Obama e agora tenta uma candidatura. Ela é a que tem maior chance no partido Democrata. E hoje é mais representativa politicamente do que o marido, Bill Clinton.  

O vice de Obama, Joe Biden, foi colega dele de senado. No Governo Democrata, Joe se destacou por sua habilidade para negociar com congressistas Republicanos. 

A oposição tem muitos nomes como prováveis candidatos. Um deles é Jeb Bush. Jeb é filho de Jorge Bush e irmão de Jorge W. Bush. Os dois últimos já foram presidentes dos Estados Unidos. 

Nas eleições estadunidenses, pode até aparecer um milionário, como candidato independente, com intenções de investir para chegar à Casa Branca, mas a disputa sempre estará polarizada entre Democratas e Republicanos. 

A política é assim. Ela tem ares provincianos. Seja numa cidadezinha de interior ou no maior centro de poder do planeta.

3.10.15

Tentativas

Aqui começo um simples soneto, 
Nem sei mesmo se acerto ou consigo
Vou seguir, bem assim, destemido
Fina flor é meu prêmio, por direito 

Este, de certo, será (seria) o primeiro
E talvez nem haja, por ventura, um segundo
Pois, por desventura, no mundo vagabundo
Só tem vez o que é apressado e ligeiro 

Não espere métrica, pois não me preocupo medir
Vou na sorte e no rumo; firme na trilha do por vir 
Eis a rota do poema, do seu nascente à conclusão. 

E de tanto projeto sem destino certo 
Até sinto-me clamando no deserto
Mudo estratégias. Desistir? Posso não.  

Roberto Martins – Jul/2015
*Publicado no Facebook em 08/07/2015

29.9.15

Água em Marte? O que nós temos com isto?

Esta galinha "surtou" e resolveu saltar do quintal para o telhado... 
Será que um dia elas chegarão a Marte?

Dois baianos me fazem refletir sobre a pirotecnia e a empolgação com essa tal descoberta da NASA. 

Primeiro Raul, quando, para também reclamar, já nos lembrava: "gelo em Marte, diz a viking, mas, no entanto, não há galinha em meu quintal". 

Depois Gilberto Gil , quando diz que "queremos saber, o que vão fazer com as novas invenções". 

É Raul, por aqui, vejo muitos quintais de cinza. Por aqui, quintais cimentados, como sepulturas, enquanto celebram um indício de vida em Marte. 

É Gil... Eu também quero notícia mais séria... Isto servirá para emancipação do homem? Acabará a fome na terra? 

Pergunto também se isto fará o homem se reencontrar consigo próprio?... 

Então, me lembro de um mineiro notável, Carlos Drummond de Andrade, no seu clássico "O homem e as viagens"... 

Ah, o ser humano... Ah, os donos do dinheiro, querendo mais dinheiro... E suas cabeças de galinhas surtadas...






14.9.15

Reverência às referências do Cordel Baiano

Começo por Kitute Coelho
Um valoroso conterrâneo
Nele se inspira esse título
Seu cordel é espontâneo
Tem humor, realidade e ficção
Polêmicas, protestos, louvação...
É exemplo contemporâneo

Agora falo da forte lenda
Que o dito Cuíca se tornou
“Ele o tal de Santo Amaro”
Aos poderosos incomodou
E virou história de cinema 
Josias Pires trás o dilema
E documenta o trovador 

Histórico na Bahia também 
Rodolfo Coelho Cavalcante
Escrevia versos de cordel
E publicava aos montes 
Pesquisado na universidade
Conhecido em toda a cidade
É outro nome importante 

A grafia pela pronúncia no “X” 
Franklin Maxado Nordestino 
Levou o cordel pra São Paulo 
Barba branca, alma de menino  
Advogado na sua formação
Ex-diretor, “Casa do Sertão”
E fez do cordel o seu destino

Bule Bule grande mago
Dos versos de cordel
Vende ideias para agências 
É esplendoroso menestrel
Conhecido até no estrangeiro 
Um mestre popular brasileiro
Canta embolada, faz escarcéu 

Antônio Vieira, bate saudade  
É só deste vate se lembrar
Ele fez a peleja da ciência
Com a sabedoria popular
A verve do cordel remoçado
Virou show, CD bem gravado 
Bela história pra se contar 

Asa Filho é o prefeito
Da “Cidade da Cultura”
Lá o “Augustinho de Ziza”
Segue firme sua ventura
De quem vive pela crença
Que o saber é recompensa
Seu Espaço é beleza pura

Agora falo do mestre
Jotacê Freitas, o professor
Pelos macetes de sua oficina 
Muitos tomaram este labor 
Já no IL- UFBA* dava a pista 
E se firmou, grande cordelista
Pela estatura e pelo humor

Assinatura com nome cumprido 
Estatura mediana, que nem eu                           
Antônio Carlos de Oliveira Barreto
Cordeliza assim que o fato se deu 
Olho ligado no acontecimento 
Faz da educação o seu intento 
E tem no cordel, um orgulho seu

Conterrânea de Barreto 
É a lutadora Maria José
Vi poucos escritos por ela 
Mas aqui valorizo a mulher
Todas que escrevem cordel
A quem tiro meu chapéu 
Boas vindas a quem vier 

E o CRIA** fez escola
Fronte do saudoso Zeca              
Magalhães falou da rima
Segurou firme a peteca
Gutembergue, Bahialista
Gente esperta e artista 
Juventude ligada no ECA**

Lembremos de Jurivaldo
Com sua banca de cordel
Seja no Mercado de Arte
Na Feira-livre, sob o céu
Ensinou pra sua filha 
É exemplo pra família 
Essa luta merece troféu 

O A Tarde certa feita
Deu bandeira a esse mastro 
Narrou a Mudança do Garcia
Tendo o cordel como lastro
E para uma tarefa certeira 
Um jornalista de primeira
O faconiano Zezão Castro

Não falei de todos os baianos
Foquei só nos que conheço 
Amigos, colegas, inspirações
Gente de arte e de apreço 
Tem muitos outros por aí
Não daria pra citar aqui
Desde o fim até o começo

Resisto o momento da despedida 
Ora aqui preciso ainda contar 
Boa origem dessa gente baiana
E tem de Salvador, Sta Barbara, Irará
Rumo de Bomfim a Antônio Cardoso
Tem Santo Amaro e o povo valoroso
Originários de longe, de outro lugar 

Muito valor a essa turma 
Arretada na lida e na alegria 
Rima, verso e repente 
Tradição, respeito, harmonia
Interesse pela arte popular 
Nessa luta, vou proclamar: 
Salve os cordelistas da Bahia!

Roberto Martins
Salvador, Setembro/2015

* IL-UFBA : Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia
** CRIA: Centro de Referência para a Infância e Adolescência
*** ECA: Estatuto da Criança e do Adolescente


13.2.15

“Axé Músic”: Irônico, Marcelo Nova teria feito batismo

Entre as recordações da “Axé Music”, as elegias saudosas e as tantas abordagens e entrevistas em programas de rádio, surge uma versão até então desconhecida para muitos. 

O nome de batismo, para o que se comemora 30 anos neste carnaval, pode ter sido originado nas críticas e ironias de Marcelo Nova, então vocalista da banda Camisa de Vênus. 

A versão foi dita na quinta (12/02) no programa Band News Primeira Edição, da FM 99,1 – BN Salvador, pelo apresentador Evilásio Jr. De acordo com o jornalista, na época, o roqueiro se referia às músicas que faziam sucesso no carnaval baiano, pejorativamente e ironicamente, com o termo “axé músic”. 

Depois, publicitários e/ou locutores de rádio teriam se apropriado do nome e popularizado o batismo das músicas e danças de destaque naquele momento de tantos “fricotes” e “deboches”. 

O que era chacota, virou rótulo de sucesso... 

Em meados dos anos 1980, momento no qual surge a “Axé Music”, o Rock Brasileiro era forte nos corações e mentes da juventude no Brasil, inclusive na Bahia. 

Que cruzamentos e/ou enfrentamentos estes dois tipos de música podem ter sofrido em terras soteropolitanas naqueles tempos?

Estão aí indícios de um bom tema para pesquisa. Se é que alguém já não a tenha feito. 

A informação de Evilásio, me lembrou o vídeo abaixo. Nesta gravação, de 1988, Marcelo Nova, acompanhado de Raul Seixas, comenta sobre uma das músicas mais populares do nascedouro da “axé music”. 



Raul Seixas & Marcelo Nova 
- Sobre a AXÉ Music - Salvador BA - 1988
Publicado em 3 de mar de 2012

Do canal de Rodrigo Titatelli no Youtube

12.2.15

Por que este anúncio “confuso”? “Porque sim!”

Era o episódio intitulado “O Rei e Eu”, de A Grande Família. Agustinho Carrara (Pedro Cardoso), comodoro do Paivence (Espaço de Eventos), programou um show cover de Roberto Carlos. O artista genérico era o Tuco (Lúcio Mauro Filho), cunhado do gestor do espaço. 

Para atrair público Augustinho aprontou uma das suas. O que, para ele, se traduzia numa “estratégia de marketing”.

 "Estratégia de Marketing" de Augustinho

Carrara mandou fazer um cartaz: “Tuco canta Roberto Carlos”. 

A informação “Tuco canta” tinha letras bem pequenas; enquanto “Roberto Carlos” e os outros elementos informativos eram grafados em tipologia gigantesca. 

Como era de se imaginar, deu confusão. 

Lembrei-me desse episódio, da saudosa série de TV, ao ver o cartaz reproduzido abaixo. O anúncio divulga um evento de camarote durante o Carnaval de Salvador.  


O show é de Lenadro Sapucai, com participação de Carlinhos Brown. Pela lógica, o anfitrião faz o show - na quase totalidade do tempo - e o convidado entra em algumas músicas. No entanto, a julgar pelo cartaz, não é isso o que aparenta. 

Na peça publicitária, Carlinhos Brown é o único a ter imagem e ainda tem o nome mais destacado. Fica com a maior pinta de atração principal. Seria uma “estratégia de marketing”?

Redações e layouts assim são até engraçadinhas, quando acontecem na ficção. Mas na vida real...

Eu questionaria aos produtores e divulgadores do evento, porque eles publicizam um tipo de anúncio “confuso” como este. E eles fatalmente me responderiam: “Por que sim!”. 

PS – O anuncio ainda deveria informar, além da data, o dia do evento. Tipo: “Domingo de Carnaval”. Desta forma comunicaria melhor para o folião.  

15.10.14

Até parece o "café com leite"

Nos primeiros anos do Brasil republicano, paulistas  e mineiros alternaram-se no poder.  

Era a chamada “República do Café com Leite”. A nação tinha um comando rotativo. Um presidente paulista (Café), depois um mineiro (Leite). E assim sucessivamente. Isto era a República Velha.

O gaúcho Vargas quebrou esse ciclo. De lá até os militares (1964) tivemos um mineiro na presidência, Juscelino Kubistchek.  

No entanto, após o período militar (1964-1985), ao que parece, voltamos a tomar café com leite. 

O primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar, ainda que de forma indireta, foi Tancredo Neves (mineiro). 

Morto antes da posse, Tancredo deixou a vaga ao vice Sarney. 

A eleição de 1989 elegeu o carioca, com base em Alagoas, Fernando Collor. 

Sofrido o impeachment, Collor saiu da presidência pra dá lugar a Itamar Franco (mineiro). 

Em 1994 e 1998, FHC foi eleito e reeleito. Ele é carioca de nascimento, mas oriundo da base política de São Paulo. 

No anos 2002 e 2006, o eleito e reeleito foi Lula da Silva. O ex-sindicalista, de origem pernambucana, também construiu sua vida política em São Paulo.

2010 foi o ano da primeira eleição de Dilma Roussef. Embora tenha feito carreira pública no Rio Grande do Sul, Dilma é mineira de nascença. Em Minhas Gerais, onde foi presa e torturada pela ditadura, a presidente iniciou sua militância política. 

Dilma volta a disputar a presidência agora em 2014. O seu oponente no segundo turno é o mineiro Aécio Neves (Neto do Trancredo). 

Dois candidatos mineiros, Dilma e Aécio, com dois paulistas como vices. Michel Temer e Aloysio Nunes, respectivamente. 

Se levarmos em consideração a base política ou local de nascimento dos presidentes pós golpe, teríamos o seguinte resumo. 

1985 - Trancredo Neves (Minas) 
1985 - Sarney (Maranhão) 
1989 - Collor de Mello (Rio de Janeiro/Alagoas) 
1992 - Itamar Franco (Minas) 
1994 - Fernando Henrique (Rio de Janeiro/São Paulo) 
1998 - Fernando Henrique (Rio de Janeiro/São Paulo) 
2002 - Lula da Silva (Pernambuco/São Paulo) 
2006 - Lula da Silva (Pernambuco/São Paulo) 
2010 - Dilma Roussef (Minas/Rio Grande do Sul). 

Um pouco parecido com o "café com leite", não é? 

7.10.14

SETARO King! Herói dos quadrinhos. E da Facom

Setaro King  
Reprodução do Zine Facoman 03


Primeira metade da primeira década do século XXI.  Tempos de produção efervescente de zines na Facom. Alguns memoráveis como o “Bundalelê”, o “Terno de Branco” e o “Muriçoca”, entre outros.  

Neste contexto foi criado o “Facoman”. Um Zine/HQ de tanto sucesso, no ambiente faconiano, que até ultrapassou as páginas impressas e ganhou uma versão em vídeo.

A criação foi de Lucas Mascarenhas, Thiago Alban e Lucas Esteves. A inspiração é nitidamente nas séries de TV com grupos de super-heróis japoneses, como “Changeman” e “Flahsman”, e o cotidiano da faculdade, vivenciado pelos autores, então estudantes. 

Os Facomans (ou Facomen?) foram alunos selecionados pelo “MasterCat” para se tornarem super-heróis. A grande missão deles era salvar a Facom, e o mundo, do “Império Boçalis”. Esta “organização maligna”, liderada pelo grande “Satan Gomes”, tinha a missão de transformar todos em “intelectuais boçais”. 

Na terceira HQ da série foi anunciado desde a capa, ainda improvisada como as duas anteriores, “a triunfal aparição de Setaro King”. 

Inspirado no professor André Setaro, como o próprio nome já indica, o “Setaro King” era um robô gigante. Ele apareceu na série para salvar os heróis faconianos do “Monstro Coxinha de Tia Del”. 

“Setaro é a única unanimidade da Facom”, disse alguém naquela época. Talvez por isso foi o professor escolhido para ser o herói dos super-heróis faconianos. O artefato decisivo para salvar “os Facoman” na hora do perigo.  

Para combater boçalidades nada melhor do que a irreverência, o humor fino, a contemplação preguiçosa e criativa, a informalidade e a crítica ácida e certeira, entre tantas armas setarianas para a sobrevivência em um mundo hostil. 

Muitos o consideravam “o herói da Facom”. Mirdad disse que, depois da ausência dele, a Faculdade de Comunicação da UFBA poderia até trocar de nome, porque jamais será “a Facom”. 


Acesse abaixo a integra do Facom 03 - Terceiro, mas não derradeiro
#SETRO64 – Homenagem ao professor André Setaro, em 12 de outubro, às 16h, na Sala Walter da Silveira – Biblioteca dos Barris. 

3.10.14

O chiclete da Dilma faz “ploc”, o do Aécio faz “bum”

O debate de ontem na Globo não teve muitas diferenças dos outros realizados anteriormente.

No confronto Dilma X Aécio, o que se viu foi mais do mesmo.

E esta repetição vai além dos debates anteriores. Capítulo repetido de uma novela re-make que o Brasil assiste periodicamente há cerca de 20 anos. A gincana PT x PSDB.

Um aponta que o outro privatizou quase tudo. O outro responde que o adversário privatizou estradas e aeroportos.

Então se um diz que o oponente está inundado em corrupções. Seja privatizações, votos da reeleição, metrô de SP, aeroporto do tio... A resposta? “Petrobrás!”, “Correios!”, “mensalão!”...

Quando um diz ser responsável pela criação de grandes programas sociais. Outro diz ter criado antes.

E se um sinaliza ter transformado o país numa potência econômica. Logo o outro diz ter nocauteado a inflação.

Luciana Genro, ontem no debate, em fala dirigida a Aécio Neves, disse que “é o sujo falando do mal lavado”.

Às vezes nos parece ser briga besta de menino birrento.

“O meu chiclete faz ‘ploc’, o seu chiclete faz ‘bum’”. Bum bum bundão.

Ainda com o soar de barulhos diferentes, as bolhas se mostram parecidas.

Isso pode fazer bem pra “seu” Mané do bar; mas pra nossa dentadura não.

* Inspirado na canção “O chiclete” do Ultraje a Rigor

1.10.14

Os cãesdidatos


Depois de um olhar ligeiro, a gente pode pensar que o cachorro também é candidato.

Corre o risco da rapidez na visualização pregar uma peça. 

Imagine um cão, como um político importante, dando apoio ao seu coligado. 

A cidade está infestada de placas com fotos de políticos. Outro dia vi uma com um candidato a deputado, um candidato a senador, um candidato a governador e um cachorro. 

Rapidamente, me perguntei: “O cachorro é candidato a que mesmo?”. 

Parece a moda da estação. Percebe-se um aumento no número de candidatos a pousar ao lado de fotos caninas. 

É a onda pela defesa dos animais. 

Dizem que isso dá voto. E, provavelmente, quem vota, quem pede e quem defende este tipo de voto deve relevar maior importância aos direitos animais. Os humanos e os sociais ficam em segundo plano. Se é que figuram em alguma posição... 

Sabedoria popular diz ser melhor um cachorro amigo do que um amigo cachorro. 

O cachorro é visto como símbolo de “amizade” e “fidelidade”. Já “cachorrada” remete a “falsidade” ou “safadeza”. 

Desconheço qual simbologia precede a outra. Apenas observo os usos e os frutos nas representações daquelas palavras em suas contradições.

Minha mãe me contou que, em tempos eleitorais, quando a humilde residência da família na zona rural era visitada por políticos, após a saída de cada um deles, meu avô materno alertava: “É tudo uns cachorro minhas fia, só muda a coleira”. 

A “coleira” seriam os partidos. 

Hoje é difícil identificar a qual linhagem pertence um político profissional. Temos visto muitos deles mudando de “coleira” ou até mesmo de “canil” a todo instante. 

Neste ambiente, é raro encontrar “cães fieis” a princípios. Existem muitos “cães de guarda” ferozes. Eles defendem, com garras e dentes, os seus empregos, salários, vantagens e/ou mordomias.

Ainda que possamos separar o joio do trigo, o eleitor se perde no meio de tantos “cãesdidatos” a latir no horário político eleitoral.

“Quanto mais eu conheço os homens, mais admiro os cachorros”. 

Quem costuma repetir a famosa frase acima deve acreditar mais nos cães do que nos homens. E, certamente, ficaria feliz se os cães estivessem denotativamente na política. Porque, conotativamente, a cachorrada já faz parte do meio político há muito tempo. 

Será que um dia os cães estarão na urna eletrônica? 

Bem, nos cartazes e no horário eleitoral da TV eles já estão aparecendo de montão. “Au, au!”. 

30.7.14

Construção de Mersinho faz Jilú permanecer

Sentimos dor, quando perdemos as pessoas para a existência. 

Conforta lembrar que a memória fica. No entanto, ela é uma espécie de existência com prazo de validade. 

A memória é passível de falhas. E, qualquer dia destes, também há de ir junto conosco... 

Carrego dores. Angústias por pessoas para as quais não fiz registros. E, me sinto pequeno, para grafar memórias tardias. Medo enorme de falhar. 

Principalmente para com os meus. Assusta-me ainda a possibilidade de parecer presunçoso. Um tipo de coruja gabando o toco. Receio de criar um produto não merecedor de crença analítica por quem leia. 

Hoje diante da notícia da morte de Jilú, pensei um pouco nisto. Pensei o quanto Mersinho foi apaixonado e corajoso com o seu: “A Construção – Histórias do Mestre Januário”. 

Lembrei da época em que Mersinho labutava na construção do seu livro. Da empolgação dele de, não só contar sobre a obra e as histórias do avô, mas como também de levar pessoas até a casa se Jilú. 


Ao lado do Mestre Januário em visita à casa dele

Tive a sorte de ser um destes privilegiados visitantes. Na casa de Jilú além de histórias, como a curiosa passagem de Luis Gonzaga num circo em Irará, ainda descobrir engenhocas. 

Estava lá um complicado “quebra-cabeça” que, feito pelo próprio Jilú com alguns pedaços de gravetos, para mim, foi impossível desarmar.

Quando o livro de Merso ficou pronto, tivemos a honra de lançá-lo durante o Colóquio de Literatura Popular de 2008. Evento produzido pela Casa da Cultura, quando estávamos por lá. 

Para felicidade de todos, o velho Jilú se fez presente. Foi vestido a caráter, para a noite de autógrafos do neto, no lançamento da obra na qual ele era o personagem de centro. 

Jilú, ao centro, em noite de autógrafos de "A construção..."

Recentemente pude ler e ouvir relatos da dedicação constante de Mersinho a Jilú. Fosse para “chamar o doutor” ou para dá banhos. Mãos à obra. 

Se a canção perguntar, talvez a resposta seja rápida. Ao merecer tanto carinho daquele neto, Jilú, como mestre de obras que foi, deixou muito mais do que tijolos no muro.

No dia de ontem Jilú passou. Um dia, pode ser daqui a cem anos, Mersinho também passará. Mas em algum canto, algum dia, alguém pode encontrar um exemplar daquele livro. E quem ler saberá das histórias do Mestre Jilú, graças a seu neto dedicado e atencioso. 

Mersinho e seu livro "A Construção - Histórias de Mestre Januário"




Imagens: 
Roberto e Januário por Emerson Nogueira
Januário e convidados e Mersinho com Livro por Katiene Suzart