25.5.17

Vida e arte em mímesis

Chico Buarque tem obras de referência sobre o cotidiano brasileiro.
Reprodução Roma Pra Você

Na canção “Cotidiano”, Chico Buarque, como os versos e o próprio título sugere, fatalmente representa a vida cotidiana dos personagens da obra.

Por outro lado, podemos também pensar o inverso. Alguém, de repente, ao se inspirar na canção de Chico, passou a adotar o costume de todo dia sacudir @ companheir@ às seis horas da manhã e beijá-l@ com a boca de hortelã.

Daí é um passo curto para caímos em um dilema de casualidade, ao estilo do “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”.

No caso da canção de Chico, e seu inverso sugerido acima, o dilema é: “a vida imita a arte ou o contrário?”.  

O amor, o amor romântico tal como o conhecemos, teria sido uma invenção da literatura, depois aperfeiçoada pelo cinema. Já ouvi alguém dizer isso...

Afinal, nem sempre os casais e as famílias foram formadas com base naquele amor. Conforme nos mostra a história da humanidade, relações outras costumavam prevalecer na constituição dos grupos familiares.



Glória Pires viveu "Maria de Fátima" principal vilã da novela Vale Tudo (1988/89) - Rede Globo. No final da trama a megera saiu do Brasil e casou-se com um príncipe italiano. 
Reprodução estrelando.com.br

A inversão de rota talvez sirva também para o “e foram felizes para sempre”. Afinal, a busca incessante pela “felicidade”, e pelo nosso imaginado tipo de “felicidade”, certamente não era a grande meta dos nossos antepassados.

É fácil imaginar a mãozinha dada pela literatura, o cinema, a publicidade, etc, para a reconfiguração dos sonhos de felicidade. A ponto de muitos pagarem pela "felicidade" "contida" numa garrafa com design “irresistível”...

Para os mais céticos, finais felizes só mesmo na ficção. A incidência do “foram felizes pra sempre” deve ter motivado esta crença. De tanto “co-incidir” a indústria cultural resolveu mudar um pouco a rota. Então a tragédia deixou de ser “privilégio dos intelectuais” para ocupar os folhetins.

Nas novelas da TV incidiram vilões de destaque terminando a trama “de boa” (como se diz aqui na Bahia), e protagonistas com personalidade dúbia (heróis/vilões), tendo em si qualidades e defeitos antagônicos.

“Isso é apenas pura reprodução da realidade”, defendem os realistas.

“Mas a vida já tem tanta miséria, porque ver miséria na novela também?”, questiona os amantes da ficção ficcional (perdão pela redundância).

Mas, o que é conto de fadas e o que é realidade?




Depoimento de James Hetfield em cena do Documentário Some Kind Of Monster - 
No ícone da engrenagem no youtube é possível ver legenda em português. Vá em Legendas/ Traduzir Automaticamente/ e escolher o idioma.

Por volta do minuto 63 do documentário Some Kind of Monster, após sair de uma rehab, James Hetfield, frontman do Metallica, faz uma fala reflexiva.

Após exibir cenas de James buscando a filha no balé, o documentário mostra um depoimento dele sobre sua “previsível” vida anterior.

Diz o vocalista: “Acordava no dia seguinte em alguma cama e não sabia quem estava ao meu lado, estava bêbado, de ressaca e tinha um show a fazer. O resultado é igual. Sabe como é? A vida agora é empolgante. Não se sabe o que vai acontecer quando você está de cara limpa, vivendo o aqui e agora”.

Em geral, costumamos buscar a empolgação em algum entorpecente. E, pelo seu depoimento, James Hetfield parece ter encontrado o “grande barato” numa vida familiar cotidiana.

Quantos, mundo a fora, não sonham em viver o “conto de fadas” atribuído ao mundo artístico? Shows, aplausos, curtição, bebedeira e muito sexo...


House of Cards e Netflix comentam crise política do Brasil. 
Reprodução: Twitter

Diante da chamada crise política do Brasil atual, o perfil do twitter do House Of Cards, série do Netflix, certamente inspirada no modus operandi da política estadunidense, desabafou: “tá difícil competir”. E o perfil da Netflix interagiu: “Eu até tentaria, mas se eu reunisse 20 roteiristas premiados não conseguiria chegar numa história a essa altura”.

Ao longo da nossa história, envolta a fábulas, estória oral, teatro, literatura, cinema, entre outras manifestações artísticas, vida e arte tem vivido em mímesis. É uma imitando a outra. Elas se misturam, se provocam, se amam e se enroscam.

Para uns, vale a expectativa da felicidade e do casamento perfeito no final entre o mocinho e a mocinha. Para outros, “não tem beijo final e não vai ter happy end”.

RM>



9.5.17

O “vai dar merda” e o “erramos” caberiam na mochila

Ricardo Boechat, âncora da BandNews FM, costuma dizer que os governos deveriam ter um departamento, uma secretaria ou um ministério responsável pelo “vai dar merda”.

O órgão teria como missão chamar atenção do gestor público e antever situações. Vislumbrar problemas que, diante do consumir de tarefas e responsabilidades cotidianas da função pública, estivessem ocultos, mas fossem óbvios.

Boechat tem razão, mas acredito ser exagerada a sua proposta. Talvez não seja necessário um organismo, mas tão somente um simples e único servidor. 

Alguém talhado para ser o lembrador do óbvio. Para ser o “índio revelador” como na canção de Caetano, da qual tomei de empréstimo a dualidade “oculto x óbvio” mencionada no parágrafo anterior.

Chefes, gestores, pessoas em posição de comando dificilmente aceitam “índios” como assessores. Os motivos são diversos, certamente o mais assertivo é que “índios”, em geral, são mais dedicados à natureza da sua missão do que ao “ficar de boa com o chefe” da tribo.

Maquiavel, em sua obra mais conhecida, diz que um dos graves erros do Príncipe é cercar-se de bajuladores. Um puxa-saco, bem diferente de um “índio”, jamais alertaria o Rei da sua nudez visível. O medo de desagradar o soberano falaria mais alto. Assim, o Rei seguiria nu até ser apontado por uma criança travessa e virar bobo da corte.

Criança dentro da mochila (Reprodução Facebook/Correio24Horas)

O noticiário sobre o caso das mochilas grandes distribuídas, pela prefeitura de Jequié, para as pequeninas crianças da creche municipal nos leva a esta reflexão: Será que por lá faltou o assessor do “vai dar merda”?

Além disto, pelo percebido em notícia do Bocão News, as respostas da prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Educação, e do secretário, em “desabafo” no Facebook, convidam a outra dúvida: Será que faltou assessor de comunicação ou o mesmo não foi consultado?

As repostas não parecem adequadas. Não se vê, em momento algum, um “erramos”. Príncipes em geral (não sei se é o caso dos gestores de Jequié, pois não os conheço) têm dificuldades de reconhecer erros.

A resposta da prefeitura, conforme noticiada, diz que “a atitude de também distribuir as mochilas [grandes] para os alunos das creches [foi] para evitar qualquer tipo de discriminação”.

No argumento acima reside um grande equívoco para gestão pública. Afinal, conforme já ouvi Orman Ribeiro, conhecido professor de Direito Constitucional, dizer: “a ideia de igualdade não é a proibição absoluta de qualquer discriminação”. Uma gestão pública precisa saber tratar os desiguais na proporção de suas desigualdades.


Ilustração para uma desigualação de desiguais - Reprodução

No caso em questão era preciso mesmo “discriminar”, ou seja, “diferenciar”. Diferenciar os alunos grandes dos pequenos e entregar a cada um a mochila adequada a seu biótipo e não o modelo de mesmo tamanho a todos. Se não tinha mochila apropriada para os pequenos nesta oportunidade, que se esperasse por uma próxima.

O “desabafo” do secretário foi infeliz também. Pelo texto [no final da notícia], é difícil entender o argumento, atribuído ao Ministério da Saúde, de que “uma criança não pode carregar mais que 10% do seu peso” para justificar uma mochila com potencial para carregar 100% ou mais.

Do mesmo jeito, o texto ficou estranho quando se pergunta ao público: “querem afirmar que os pais de hoje não estão servindo nem pra carregar a mochila dos seus filhos?”.

Será que as mochilas foram distribuídas para serem usadas pelos pais das crianças? Não é o que mostra a imagem...

Crianças com as mochilas grandes nas Costas (Reprodução/Bocão News) 

As emendas saíram tão ruins quanto o soneto. A julgar pelas respostas, faltou um “índio”. Alguém capaz de identificar os “sinais de fumaça” da situação. Um profissional de comunicação para, nestes tempos de exposição pública, potencializada pela mídias digitais, orientar os gestores como se posicionar diante dos fatos.

No final de sua postagem, o secretário usa trecho de canção dos Novos Baianos para dizer que “ninguém vê minha sacola”. Aqui mais uma infelicidade. As sacolas foram fotografadas e as imagens foram publicadas na internet, sendo vistas e retransmitidas até por telejornais da região sudeste do país.


Assim, “todo mundo” viu a sacola. A sacola é grande. É tão grande que cabe uma criança dentro. E caberia até o “vai dar merda” e o “erramos”. Só não cabe resposta descabida. 

28.4.17

"Direito de ir e vir" carregado

Imagem: Domínio Público - Flicker - http://bit.ly/2oRCpBY

A situação financeira no sítio não era das melhores. 

A produção estava ruim. O dono exigia cada vez mais de todos os bichos. 

Os galos deviam alertar o início do expediente mais cedo. Da vaca se pedia cada vez mais leite. E das galinhas, mais ovos... Todos eram exigidos. Era preciso acelerar a produção. 

O burro também era obrigado a contribuir. A carga da carroça ficou mais pesada. O número de viagens só aumentava. 

Já o dono do sítio seguia em contramão. Ele exigia produção, reclamava dos tempos difíceis, mas não reduzia em um milímetro sequer o seu conforto. Pelo contrário, era cada vez mais gastador. 

O dinheiro era para jogatina e negócios com seus amigos financistas da cidade. Pouco importava a lida sacrificante dos animais do sítio. Eles eram “só” animais. 

Um dia, o dono do sítio adquiriu uma pick-up nova. O carro, comprado em dezenas de prestações e juros abusivos, era de alto luxo. Com mecanismos e funções suficientes para nunca serem utilizadas por ele. 

Quando viram a caminhonete chegando, alguns imaginaram uma redução do trabalho do burro. Ledo engano. 

Com o carro novo, o trabalho do burro duplicou. A pick-up era pra passear na cidade e ostentar diante dos outros carros, menores e mais baixos. Não era carro para entrar na labuta diária como o antigo. O dono temia arranhar a lataria reluzente, etc e tal. 

Os bichos ficaram revoltados. Resolveram organizar um movimento. “Vamos bloquear a porta do sítio”, gritou o papagaio. 

O burro logo reclamou. “Eu gosto de trabalhar, não sou cachorro pra ficar aê latindo e nem gato preguiçoso pra vagabundar”. 

Mesmo sem o apoio de todos, o bichos fizeram o protesto. Eles bloquearam a entrada do sítio. 

Neste dia, o dono não saiu de casa. Também não se importou muito. Dentro de casa ele tinha todo o conforto necessário. Além do mais, nem todos os bichos aderiram ao movimento. “Depois tudo volta ao normal”, pensou o proprietário.  

Na entrada do sítio, de repente começou uma discussão entre os animais do protesto e o burro. 

“Eu tenho meu direito de ir e vir!”, gritava o quadrúpede. 

Além de tudo, ele não queria se indispor com o dono do sítio. Não queria correr o risco de ficar sem a sua ração podre. E temia as chibatadas. “Enquanto eu viver, eu vou aguentando”, vaticinou o burro. 

Assim o burro seguiu indo e vindo, no transporte de sua carga cada vez mais pesada. Continuaria desta maneira até quando lhe fosse possível viver, mas, com o passar do tempo, o trabalho árduo levou seus anos e seu destino mudou. 

“Está velho, não presta pra mais nada”, falou o dono do sítio, antes de trancafiá-lo na cocheira e sacrificá-lo depois.

Os outros animais seguiram sitiados. 

23.12.16

DIA - 32 anos

A manhã era cinzenta
Restos madrugada sombria
Na aurora das diretas
Espera sol do novo dia. 
Indireta, sem posse... 

Na hora do lanche
O quase todo contente
Aperitivo pra participar  
Pelo voto seria diferente. 
Arroto, sabor frustração... 

Vem o almoço
Com sol forte na testa 
Estável expectativa de fartura
E milhões de fora da festa.
Decisão, vamos a outro lado... 

É necessário compartilhar
Experimenta essa merenda
Apesar dos recheios de antes
Um pouco de igualdade e renda.
Indigestão, algo não cheira bem... 

A barriga não tá cheia
Prepara, incerto jantar 
Com ódio é ruim digerir
Até dificulta o pensar.
Anoitece. Receio das trevas... 

15.12.16

Tom Zé e Tropicália em debate na Politécnica


Mesa coordenada pelo professor Nelson Pretto - Faced-UFBa

Depois do bate-papo, na quinta (08), no Palácio das Artes, e do show, na sexta (09), na Concha Acústica do TCA (Teatro Castro Alves), Tom Zé continuou em pauta na cidade da Bahia (Salvador).

O evento “80 anos de Tom Zé e 50 anos da Tropicália” aconteceu no auditório da Escola Politécnica da UFBA (Universidade Federal da Bahia), na noite desta segunda (12).

A atividade integrou a disciplina “Polêmicas Contemporâneas”, da Faculdade de Educação da UFBa), coordenada pelo professor Nelson Pretto.

Quando cheguei, falava Tuzé de Abreu, professor da EMUS (Escola de Música) UFBa. Perdi a fala do pesquisador Fernando Cerqueira. Tuzé contava como acompanhava a tropicália de Salvador, enquanto os tropicalistas estavam em São Paulo, revelando ter visto os festivais pela TV.

Interior - O poeta e compositor tropicalista José Carlos Capinan falou sobre a cena cultural da época. Ele, nascido em Entre Rios, destacou o fato de Salvador ter recebido muitas contribuições dos jovens oriundos de diversas regiões do interior do Estado.

Capinam rememorou a sua entrada no CPC (Centro Popular de Cultura), ligado ao Partido Comunista, onde conheceu muitos dos tropicalistas, e onde fez parceria com Tom Zé.  

O professor Armando Almeida discorreu sobre a tropicália. Destacou o fato do Brasil, naquela época, viver o final de uma transição de rural para urbano. “O tropicalismo encarou de frente a indústria cultural”, disse.

Ele também comentou sobre artigos da época. Entre eles um de Caetano, no qual o santamarense abordou “a linha evolutiva da música popular brasileira”, e outro de Rogério Duarte, quando o designer defendia a necessidade da arte dialogar com o útil e o belo.  

Tom Zé - Marle Macedo, cantora, arte educadora e conterrânea de Tom Zé, falou sobre a sua convivência com Tom na juventude. Relatou como Tom Zé e outros jovens de Irará iam à casa de seu pai, o músico Almiro Oliveira, para apreciar as tocatas lá realizadas.  

No seu relato, Marle comentou sobre os reencontros e saraus daqueles jovens nas épocas dos festejos de Irará quando, então residentes fora para estudar, regressavam à cidade.

Destacou a genialidade, o talento e a sensibilidade estética de Tom Zé, já percebida desde jovem ainda em Irará.  

Fez uma breve cronologia da carreira do artista, do encontro dele com David Byrne e das conversas dela com Tom Zé nesse período. Teceu comentários sobre o conceito do disco “Defeito de Fabricação”, acerca do trabalhador terceiro mundista que ousava ir além de condição de mão de obra barata ao qual tentava lhe impor, apresentando a música “Valsar”.

Widner - Tuzé de Abreu comentou ainda sobre o maestro suíço Ernst Widner, então professor na Emus – UFBa. Lembrou como o suíço falava e escrevia bem o português e se encantava com a cultura da Bahia.

De acordo comentou Marle Mecedo, o maestro chegava a viajar para cidades do interior do Estado só para conhecer sons da natureza e dos movimentos urbanos daqueles ambientes.

O professor Nelson Pretto destacou o papel então Universidade da Bahia, hoje Universidade Federal da Bahia (UFBa) no desenvolvimento cultural do estado. 

Com intervenções da plateia, formada por estudantes, pesquisadores e entusiastas do tema da tropicália, o evento iniciado pouco depois das 19h seguiu até as 22hs.  

9.11.16

Hate is in the air

A torcida dos vitoriosos comemora e a crítica está em suspense.

Diante de tantas incertezas quanto ao futuro, chego a uma constatação: A província contínua sendo província.

Em 2008 vencera uma campanha pautada na esperança.

O candidato tinha origem humilde e os discursos defendiam melhorias a conquistar.

Os vencedores de então diziam que podiam fazer mais, que podiam fazer melhor. Discurso de esperança com grande potencial de resumo em um slogan: “Yes, we can!”.

Após a vitória naquela eleição o gestor apresentou realizações. Fez pela saúde o que não tinha sido feito antes. Fez pelo desenvolvimento. E o seu governo se mostrou mais aberto à inclusão em comparação ao anterior.

No plano externo ele passou a ser respeitado. Galgou espaços em Fóruns de discussões e recebeu credibilidade dos pares.

Em 2012 ele foi reeleito sem grandes sobressaltos.

Na segunda gestão seguiu quase no mesmo compasso da primeira.

Depois de sua eleição (2008), da reeleição (2012), da aprovação do seu governo apresentada nas pesquisas, imaginava-se que fazer sucessor ou sucessora seria uma tranquilidade.

“PERRRRRRRRRRDEU!”

A oposição veio feroz. De cara lisa, sem receio de expor feridas abertas e ressentimentos.

Na força de um candidato midiático, alçado à política pelo encanto das plateias nos seus shows, os opositores fizeram reverberar o discurso único: “Tirar essa gente do poder!”.  

— Mas a economia melhorou...

— Temos de tirar essa gente do poder, temos de mudar.

— Mas a infraestrutura melhorou...  

— Temos de tirar essa gente do poder, temos de mudar.

— Mas o dialogo melhorou...  

— Temos de tirar essa gente do poder, temos de mudar.

— Mas...

— Temos de tirar essa gente do poder, temos de mudar!

Tempos temerosos.

A “mudança” vem com a volta de grupos políticos de antes.

É como já dito em outro texto:

“A política é assim. Ela tem ares provincianos. Seja numa cidadezinha de interior ou no maior centro de poder do planeta”.

A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos da América me fez lembrar do golpe no Brasil; de alguns resultados em eleições municipais; do Brexit no Reino Unido (ou seria desunido?); do referendo a favor do conflito na Colômbia; do tratamento na Europa a quem foge de guerras incentivadas pelos próprios governos europeus; do...

E, ao lembrar de tantas cenas tristes e casos de intolerância, vi o mundo embalado por uma trilha sonora depressiva, cujo refrão, ao inverso do dito em uma canção de sucesso, sintetizaria: “Hate is in the air”.  



14.10.16

Old Kids On The Rock

Eu me lembro. Na época eu já curtia rock há algum tempo, mas tinha maior proximidade com o rock brazuca. Dos monstros estrangeiros eu conhecia a fama e poucas músicas de alguns.

O Guns n’ Roses para mim aparecia como uma das novidades daquele Rock in Rio 91.

Estávamos na oitava série. Haviam colegas que já conheciam o som dos caras. Um deles tinha uma foto da banda como contracapa do caderno. Daquelas típicas, estilo garotos maus, com garrafa de wisk na mão, etc.

Talvez o meu distanciamento para com a banda foi causado pelas meninas. Não que elas me impedissem de ouvir o som. Era só ojeriza, talvez ciúmes, diante da forte tietagem.

Elas tietavam na mesma medida Axl Rose e New Kids on The Block.

Pouco tempo depois fui cedendo e me aproximando do som dos caras. Daí então conheci um hard rock eletrizante e divertido de se ouvir.

Desde “Sweet Child oh Mine”, com os clássicos rifs e solo de Slash, até todas as canção do “Appetite for Destrucion”; “Use Your Ilusion  (I e II)”, e o “Lies”. Cheguei a ouvir tb o “The Spaghetti Incidente”. Tudo em Fita K7, é claro.

O tempo passou e, embora em menor intensidade, sigo curtindo o bom e velho rock and roll.

Boa parte das meninas e dos colegas casaram-se. Eu também. Alguns já tem filhos. Eu ainda não.

O Rock in Rio se firmou como um dos maiores festivais de música do planeta. O Guns, enquanto banda, acabou e recomeçou. Agora, eles estão às vésperas de pisar em solo brasileiro novamente.

E o New Kids On The Block... Bem...

Deles eu não sei. Nem tenho muito interesse em saber. Em geral e, principalmente, quando bate a nostalgia eu prefiro os Old Kids On The Rock.

RM



3.7.16

Versos para #MeuSãoJoãoNaTVE


O pessoal da TVE publicou os versos que enviei para eles com relação ao São João.

Infelizmente, o verso de abertura acabou suprimido na edição e, assim, a primeira estrofe ao invés de septilha virou sextilha...

Mas tudo bem! Valeu a participação, a intenção e o apoio da rapaziada da TVE. E, principalmente, pela valorizada que eles deram à Literatura de Cordel !!! 

Valeu TVE !!! 

Verso original abaixo:
‪
#‎SaoJoao‬ ‪#‎Bahia‬ 
‪
#‎LiteraturadeCordel‬#MeuSaoJoaoNaTVE

Um dia, disse o vidente:
“O cordel vai acabar!”
Sabe nada o inocente
A arte vai se reinventar 
Do papel pro Facebook 
A TVE nos dá um look 
Pro cordel valorizar

Pra não virar personagem 
Modere a dose do licor 
Dance forró, faça viagem 
Nessa ‪#‎BahiaMeuAmor‬
Curta a festa com alegria
Pois o ‪#‎SãoJoãoDaBahia‬
É o melhor Seu Doutor!

Se quiser uma boa dica 
Posse então lhe oferecer
Em Irará a festa é rica 
De tradição e de saber
Tem sanfoneiro no coreto
Milho assado no espeto 
E a turma do Jeguerê...

14.3.16

“Zico” morreu, agora é folclore

As aspas já sinalizam. Não se trata do ídolo do Flamengo. O Zico do qual falo é um “mendigo” (“doido”) de Irará.

Posso dizer que ele era da minha geração. Não sei se um pouco mais novo, não sei se um pouco mais velho. Conheci o Zico quando eu era criança e ele também era.

Nunca soube ao certo do histórico dele, mas sempre ouvi muitas histórias (ou estórias) se contar.

Zico vivia nas ruas da cidade. Certa feita um bancário o adotou. Andou limpinho por alguns dias, depois, não se adaptou e voltou a viver nas ruas. É o que contam. Zico continuou sujo, maltrapilho, pedinte.

Na década de 1980, dizem, ele foi uma das crianças sequestradas em Irará para o tráfico internacional de pessoas. Teria conseguido a fuga e o retorno para sua terra.

Andarilho, Zico conhecia a tudo e a todos do Irará. Chamava as pessoas pelo nome ou apelido, como quem demonstrando intimidade. Aos mais velhos chamava com respeito ou proximidade: “Seu”, “dona”, “tia”...

Certa vez, quando foi pedir dinheiro, ouviu o interlocutor: “Não tenho trocado, Zico”. Daí, ele de pronto mostrou a solução: “Tem problema não, me dá o dinheiro que eu te dou o troco”.

Em outra oportunidade fez uma intimação a um noivo. “Olhe, você enrolou a outra um tempão e não casou, não vá fazer isto com essa aí não”, avisou ao rapaz, diante de sua noiva de alguns anos.

Zico gostava de dar conselhos. Certa feita encontrou alguém saindo de casa apressadamente, tarde à noite, porta a fora, rua a dentro. “Não sai de vez assim não. Olha primeiro”. Alertou.

E também indagou um conhecido se ele confiava na namorada. “Nunca sumiu dinheiro teu não?”.

Gostava de jogo, com quem estivesse disposto a rolar dados com ele, e de rádio. Às vezes, era um cantarolar danado pelas ruas.

Quando meu pai faleceu, Zico veio me dizer para não ficar triste...

Quem procurar saber vai encontrar “causos” e mais “causos”. Entre eles os passados sob distúrbios mentais. Momentos nos quais apareciam os alertas: “Zico tá atacado!”.

Para alguns, um doido. Para outros um simples mendigo que, apesar de ter uma “aposentadoria”, gostava de sujeira e mendicância.

Na vida, alguém que passou. E agora entrou para o folclore da cidade. Assim como outros personagens. Sejam eles os “certos” ou os “doidos de Irará”.

* Em meio as notícias sobre São João e Cristiano Araújo essa pode ter passado despercebida.

Escrito originalmente em 25 de junho de 2015 e postado no Perfil de Roberto Martins no Facebook - https://www.facebook.com/roberttomarttins


Publicado aqui no Blog com pequenas adaptações e acréscimos em 14/03/2016 

10.3.16

Eu estava na floresta, diante do rio, iluminado pelo celular dele

Naná Vasconcelos em foto de 2011 - Divulgação 
Reprodução de O Globo.com


Um dia, em algum lugar perdido no tempo, entre 2003 e 2006, e achado na minha memória. Concha Acústica do Teatro Castro Alves, Salvador Bahia.
Era um show do Cordel do Fogo Encantado. Convidaram um conhecido deles, então desconhecido meu, para fazer uma participação especial.

Aquele homem chegou à frente do palco e foi segmentando a plateia. “Aqui desse lado, aquele outro, quem tá lá em cima...” Eu, meio impaciente, pensava comigo: “Que besteira”.
Ele deu um som pra cada parte fazer. E depois saiu orquestrando a plateia. Entra o pessoal do “uuuuu”, agora o “chuaaaaa”... e seguia chamando sons, comandando o tempo de cada um deles, em cada parte da plateia, entrar.
Quando ele juntou tudo, não estávamos na Concha. Estávamos na floresta, em plena noite, diante de um rio. Era puro som de natureza. Rio, vento em árvores... Mais de 5 mil pessoas nesse frisson. Pensei sozinho: “Que de fuder!!!”
Esperava viver esta emoção estética novamente. Hoje, recebi a notícia de que não mais a vivenciarei. Ao menos sob a regência do maestro Naná Vasconcelos, não.
Ele se foi. Quem acredita, vai dizer que toda noite ele estará lá de cima, sinalizando pras bandas de cá, com o seu celular...

"O celular de Naná" - Dê o play e ouça a música de Otto


7.12.15

Seja "Feira da Mandioca", seja "Festival de Beijú", vale a afirmação das pessoas e da produção local


Cartaz de Divulgação do Festival do Beijú - 
a acontecer nos dias 12 e 13 de Dezembro


Irará ficou órfão da Feira da Mandioca. Agora anuncia-se o Festival Itinerante do Beiju. 

Não sei dizer se esta itinerância pretende passear por outros municípios ou pelas diversas comunidades rurais iraraenses. 

De antemão, sei que Irará precisa deste tipo de evento. E é bom que ele fique por lá. Que mantenha periodicidade. Seja semestral, anual ou bi-anual. O importante é ganhar solidez e não deixar de ser realizado. 

O município precisa ter em seu calendário sociocultural um evento para celebrar, reafirmar e divulgar os produtos e a produção agrícola familiar de suas localidades. 

Eventos como Feira da Mandioca, Festival de Galinha Caipira e Festival do Beijú são bons para isto. Eles costumam dar visibilidade aos produtos, aos produtores e ainda podem gerar boas perspectivas de negócios e autoestima. 

Segundo fui informado por uma renomada beijuzeira do Irará, numa das Feiras da Mandioca, um pesquisador conheceu o “beiju colorido”, incrementou seus estudos no produto e depois o difundiu pelo Brasil a fora. 

Ainda de acordo com aquela beijuzeira, quando questionado sobre a origem, o pesquisador apenas dizia: “vi numa Feira”. “Sequer se dava ao trabalho de dizer onde foi a Feira”, me disse a senhora, indignada.

Talvez, se o “beijú colorido do Irará” estivesse patenteado, o pesquisador não teria como “esquecer” o nome da cidade. 

Profissionalizados, organizados e feito em parecerias solidas, sejam Feiras ou Festivais, este tipo de evento direcionado à agricultura familiar tem tudo para crescer em solo iraraense.

Desta maneira, é simbólica a homenagem a ser feita ao saudoso Jarinho da EBDA neste Festival do Beijú. Tomara que a vontade e o trabalho dele pela evolução dos movimentos sociais agrícolas de Irará sirvam de inspiração.

E que estes momentos de celebração sirvam, de fato, para celebrar as colheitas, as produções, as manifestações da cultura rural e a prosperidade do município. Para afirmar as pessoas e a produção agrícola das famílias iraraenses.

9.11.15

Arte de rua, mídia e mendicância




Lembro Machado de Assis: 

“Ela era bonita, mas era coxa. Por que coxa, se bonita? Por que bonita, se coxa?” 

Pulo das lembranças do celebre Memórias Póstumas de Brás Cubas para a página A7 do A TARDE de sexta, 30/10/2015. 

A notícia “Jovem toca sax na rua para pagar a faculdade” apresenta uma aspa atribuída ao administrador Gustavo Correia, 44 anos. 

“É curioso, porque a gente, que reside aqui de Salvador, não está habituado a conviver com pessoas se apresentando nos espaços públicos. O rapaz é, de fato, corajoso. Ele está de parabéns”.

É totalmente possível ao administrador, “residente em” ou “residindo de”, falar de uma Salvador diferente da vista por mim. Ao contrário dele, na soterópolis por onde trânsito, vejo pessoas “se apresentando nos espaços públicos”. 

Malabaristas nos sinais; músicos, atores, palhaços e poetas nos ônibus; estátuas vivas nas praças... Muitos que talvez nunca tenham merecido sequer uma nota, quanto mais ter foto estampada na capa do jornal, como o rapaz do sax. 

Lembro-me agora de um senhor. Cabelos alorados, sotaque arrastado num tipo meio confuso de portunhol. Ele já entrou algumas vezes em ônibus nos quais eu era passageiro. 

Com um sax meio desbotado, certamente pela ação do tempo, toca músicas internacionais conhecidas e manda o seu recado.  Certa feita, o vi se apresentando na Cantina da Lua, de Clarindo Silva, lá no Pelô. Nunca o vi na capa do jornal. E, quem sabe, talvez nunca tenha sido citado por qualquer um diário...  



De cara, penso que A Tarde perdeu uma oportunidade de contextualizar sobre arte de rua em Salvador. E, ainda por cima, pareceu se resumir e assumir para si o discurso de uma única fonte. 

Diante do quadro fiquei a me perguntar se, ao produzir esta notícia, o jornal não se valeu do critério “mendigata” ou “mendigato” de noticiabilidade. 

Seria este rapaz do sax, estudante universitário, com formação em filarmônica, tocando música clássica e boa aparência, “um artista”, enquanto os outros seriam apenas “pedintes”? 

"E porque ele se apresenta na rua, se bem afeiçoado? Porque bem afeiçoado, se apresenta na rua?" 

De repente é o que se perguntam os passantes daquela avenida em frente à sede do jornal. Transeuntes e prováveis fonte única de opinião a ser considerada pelo periódico. 

PS 1 - Emissoras de rádio reproduziram a notícia da mesma forma deslumbrada e descontextualizada do jornal.

PS 2 – Já escrevi aqui nesse blog sobre um sanfoneiro que se apresenta no ônibus e vendia seus CDs – Artista de Atitude no Buzu


5.10.15

Política provinciana

A pouco mais de um ano das eleições de 2016, a movimentação já é intensa. Tanto do lado governista, quanto do lado oposicionista. Todos armam, articulam e planejam seus movimentos. 

O tema das eleições ganha a pauta em todo canto. No noticiário e nas rodas de conversa. 

Do lado da situação a procura é por um novo candidato. O atual mandatário já foi reeleito e, como não pode mais se candidatar, deseja passar o bastão a um dos seus. 

Dizem que o vice, velho parceiro político do executivo atual, naturalmente seria um candidato. Ele foi escolhido para ser vice pelo próprio titular e tem fama de ser um cara com bom trânsito junto à oposição. No entanto, não sei se o partido terá preferência por ele. 

O nome dos sonhos da maioria no partido é aquela mulher. Ela seria candidata em 2008, quando o atual executivo foi eleito. Preterida na época, apoiou o atual chefe e logrou cargos de destaque nos dois mandatos dele. No cenário atual, ela possui maior peso político do que o seu marido. 

Enquanto isto, no lado oposicionista as definições estão ainda mais incertas. Já são dois mandatos fora do poder. A sede pela volta é grande. Os correligionários têm saudades da gestão daquele que, seguindo os passos do pai, também se tornou o governante. 

Coisas de política de província. Vejam que o pai foi governante, um filho também foi governante e agora outro filho está interessado. A democracia também cria oligarquias. 

Dizem que, naquela província, ganha eleição quem tem dinheiro. E a política de província é bem assim. No entanto, existem mecanismos para barrar a possibilidade algum “aventureiro”, com muito dinheiro no bolso, chegar ao poder pelas graças do povo. 

Lá, o poder sempre é disputado pela polarização entre duas forças. Azuis de um lado, vermelhos do outro, alternando-se no poder.

Em política, tudo pode ser o seu contrário. E, às vezes, pelas características, chamamos de “província” a maior potência política do planeta. Os Estados Unidos da América. 

Barack Obama, o atual mandatário, já foi reeleito. Hillary Clinton, preterida em 2008, ocupou funções de destaque no governo Obama e agora tenta uma candidatura. Ela é a que tem maior chance no partido Democrata. E hoje é mais representativa politicamente do que o marido, Bill Clinton.  

O vice de Obama, Joe Biden, foi colega dele de senado. No Governo Democrata, Joe se destacou por sua habilidade para negociar com congressistas Republicanos. 

A oposição tem muitos nomes como prováveis candidatos. Um deles é Jeb Bush. Jeb é filho de Jorge Bush e irmão de Jorge W. Bush. Os dois últimos já foram presidentes dos Estados Unidos. 

Nas eleições estadunidenses, pode até aparecer um milionário, como candidato independente, com intenções de investir para chegar à Casa Branca, mas a disputa sempre estará polarizada entre Democratas e Republicanos. 

A política é assim. Ela tem ares provincianos. Seja numa cidadezinha de interior ou no maior centro de poder do planeta.

3.10.15

Tentativas

Aqui começo um simples soneto, 
Nem sei mesmo se acerto ou consigo
Vou seguir, bem assim, destemido
Fina flor é meu prêmio, por direito 

Este, de certo, será (seria) o primeiro
E talvez nem haja, por ventura, um segundo
Pois, por desventura, no mundo vagabundo
Só tem vez o que é apressado e ligeiro 

Não espere métrica, pois não me preocupo medir
Vou na sorte e no rumo; firme na trilha do por vir 
Eis a rota do poema, do seu nascente à conclusão. 

E de tanto projeto sem destino certo 
Até sinto-me clamando no deserto
Mudo estratégias. Desistir? Posso não.  

Roberto Martins – Jul/2015
*Publicado no Facebook em 08/07/2015

29.9.15

Água em Marte? O que nós temos com isto?

Esta galinha "surtou" e resolveu saltar do quintal para o telhado... 
Será que um dia elas chegarão a Marte?

Dois baianos me fazem refletir sobre a pirotecnia e a empolgação com essa tal descoberta da NASA. 

Primeiro Raul, quando, para também reclamar, já nos lembrava: "gelo em Marte, diz a viking, mas, no entanto, não há galinha em meu quintal". 

Depois Gilberto Gil , quando diz que "queremos saber, o que vão fazer com as novas invenções". 

É Raul, por aqui, vejo muitos quintais de cinza. Por aqui, quintais cimentados, como sepulturas, enquanto celebram um indício de vida em Marte. 

É Gil... Eu também quero notícia mais séria... Isto servirá para emancipação do homem? Acabará a fome na terra? 

Pergunto também se isto fará o homem se reencontrar consigo próprio?... 

Então, me lembro de um mineiro notável, Carlos Drummond de Andrade, no seu clássico "O homem e as viagens"... 

Ah, o ser humano... Ah, os donos do dinheiro, querendo mais dinheiro... E suas cabeças de galinhas surtadas...