5.10.15

Política provinciana

A pouco mais de um ano das eleições de 2016, a movimentação já é intensa. Tanto do lado governista, quanto do lado oposicionista. Todos armam, articulam e planejam seus movimentos. 

O tema das eleições ganha a pauta em todo canto. No noticiário e nas rodas de conversa. 

Do lado da situação a procura é por um novo candidato. O atual mandatário já foi reeleito e, como não pode mais se candidatar, deseja passar o bastão a um dos seus. 

Dizem que o vice, velho parceiro político do executivo atual, naturalmente seria um candidato. Ele foi escolhido para ser vice pelo próprio titular e tem fama de ser um cara com bom trânsito junto à oposição. No entanto, não sei se o partido terá preferência por ele. 

O nome dos sonhos da maioria no partido é aquela mulher. Ela seria candidata em 2008, quando o atual executivo foi eleito. Preterida na época, apoiou o atual chefe e logrou cargos de destaque nos dois mandatos dele. No cenário atual, ela possui maior peso político do que o seu marido. 

Enquanto isto, no lado oposicionista as definições estão ainda mais incertas. Já são dois mandatos fora do poder. A sede pela volta é grande. Os correligionários têm saudades da gestão daquele que, seguindo os passos do pai, também se tornou o governante. 

Coisas de política de província. Vejam que o pai foi governante, um filho também foi governante e agora outro filho está interessado. A democracia também cria oligarquias. 

Dizem que, naquela província, ganha eleição quem tem dinheiro. E a política de província é bem assim. No entanto, existem mecanismos para barrar a possibilidade algum “aventureiro”, com muito dinheiro no bolso, chegar ao poder pelas graças do povo. 

Lá, o poder sempre é disputado pela polarização entre duas forças. Azuis de um lado, vermelhos do outro, alternando-se no poder.

Em política, tudo pode ser o seu contrário. E, às vezes, pelas características, chamamos de “província” a maior potência política do planeta. Os Estados Unidos da América. 

Barack Obama, o atual mandatário, já foi reeleito. Hillary Clinton, preterida em 2008, ocupou funções de destaque no governo Obama e agora tenta uma candidatura. Ela é a que tem maior chance no partido Democrata. E hoje é mais representativa politicamente do que o marido, Bill Clinton.  

O vice de Obama, Joe Biden, foi colega dele de senado. No Governo Democrata, Joe se destacou por sua habilidade para negociar com congressistas Republicanos. 

A oposição tem muitos nomes como prováveis candidatos. Um deles é Jeb Bush. Jeb é filho de Jorge Bush e irmão de Jorge W. Bush. Os dois últimos já foram presidentes dos Estados Unidos. 

Nas eleições estadunidenses, pode até aparecer um milionário, como candidato independente, com intenções de investir para chegar à Casa Branca, mas a disputa sempre estará polarizada entre Democratas e Republicanos. 

A política é assim. Ela tem ares provincianos. Seja numa cidadezinha de interior ou no maior centro de poder do planeta.

3.10.15

Tentativas

Aqui começo um simples soneto, 
Nem sei mesmo se acerto ou consigo
Vou seguir, bem assim, destemido
Fina flor é meu prêmio, por direito 

Este, de certo, será (seria) o primeiro
E talvez nem haja, por ventura, um segundo
Pois, por desventura, no mundo vagabundo
Só tem vez o que é apressado e ligeiro 

Não espere métrica, pois não me preocupo medir
Vou na sorte e no rumo; firme na trilha do por vir 
Eis a rota do poema, do seu nascente à conclusão. 

E de tanto projeto sem destino certo 
Até sinto-me clamando no deserto
Mudo estratégias. Desistir? Posso não.  

Roberto Martins – Jul/2015
*Publicado no Facebook em 08/07/2015

29.9.15

Água em Marte? O que nós temos com isto?

Esta galinha "surtou" e resolveu saltar do quintal para o telhado... 
Será que um dia elas chegarão a Marte?

Dois baianos me fazem refletir sobre a pirotecnia e a empolgação com essa tal descoberta da NASA. 

Primeiro Raul, quando, para também reclamar, já nos lembrava: "gelo em Marte, diz a viking, mas, no entanto, não há galinha em meu quintal". 

Depois Gilberto Gil , quando diz que "queremos saber, o que vão fazer com as novas invenções". 

É Raul, por aqui, vejo muitos quintais de cinza. Por aqui, quintais cimentados, como sepulturas, enquanto celebram um indício de vida em Marte. 

É Gil... Eu também quero notícia mais séria... Isto servirá para emancipação do homem? Acabará a fome na terra? 

Pergunto também se isto fará o homem se reencontrar consigo próprio?... 

Então, me lembro de um mineiro notável, Carlos Drummond de Andrade, no seu clássico "O homem e as viagens"... 

Ah, o ser humano... Ah, os donos do dinheiro, querendo mais dinheiro... E suas cabeças de galinhas surtadas...






14.9.15

Reverência às referências do Cordel Baiano

Começo por Kitute Coelho
Um valoroso conterrâneo
Nele se inspira esse título
Seu cordel é espontâneo
Tem humor, realidade e ficção
Polêmicas, protestos, louvação...
É exemplo contemporâneo

Agora falo da forte lenda
Que o dito Cuíca se tornou
“Ele o tal de Santo Amaro”
Aos poderosos incomodou
E virou história de cinema 
Josias Pires trás o dilema
E documenta o trovador 

Histórico na Bahia também 
Rodolfo Coelho Cavalcante
Escrevia versos de cordel
E publicava aos montes 
Pesquisado na universidade
Conhecido em toda a cidade
É outro nome importante 

A grafia pela pronúncia no “X” 
Franklin Maxado Nordestino 
Levou o cordel pra São Paulo 
Barba branca, alma de menino  
Advogado na sua formação
Ex-diretor, “Casa do Sertão”
E fez do cordel o seu destino

Bule Bule grande mago
Dos versos de cordel
Vende ideias para agências 
É esplendoroso menestrel
Conhecido até no estrangeiro 
Um mestre popular brasileiro
Canta embolada, faz escarcéu 

Antônio Vieira, bate saudade  
É só deste vate se lembrar
Ele fez a peleja da ciência
Com a sabedoria popular
A verve do cordel remoçado
Virou show, CD bem gravado 
Bela história pra se contar 

Asa Filho é o prefeito
Da “Cidade da Cultura”
Lá o “Augustinho de Ziza”
Segue firme sua ventura
De quem vive pela crença
Que o saber é recompensa
Seu Espaço é beleza pura

Agora falo do mestre
Jotacê Freitas, o professor
Pelos macetes de sua oficina 
Muitos tomaram este labor 
Já no IL- UFBA* dava a pista 
E se firmou, grande cordelista
Pela estatura e pelo humor

Assinatura com nome cumprido 
Estatura mediana, que nem eu                           
Antônio Carlos de Oliveira Barreto
Cordeliza assim que o fato se deu 
Olho ligado no acontecimento 
Faz da educação o seu intento 
E tem no cordel, um orgulho seu

Conterrânea de Barreto 
É a lutadora Maria José
Vi poucos escritos por ela 
Mas aqui valorizo a mulher
Todas que escrevem cordel
A quem tiro meu chapéu 
Boas vindas a quem vier 

E o CRIA** fez escola
Fronte do saudoso Zeca              
Magalhães falou da rima
Segurou firme a peteca
Gutembergue, Bahialista
Gente esperta e artista 
Juventude ligada no ECA**

Lembremos de Jurivaldo
Com sua banca de cordel
Seja no Mercado de Arte
Na Feira-livre, sob o céu
Ensinou pra sua filha 
É exemplo pra família 
Essa luta merece troféu 

O A Tarde certa feita
Deu bandeira a esse mastro 
Narrou a Mudança do Garcia
Tendo o cordel como lastro
E para uma tarefa certeira 
Um jornalista de primeira
O faconiano Zezão Castro

Não falei de todos os baianos
Foquei só nos que conheço 
Amigos, colegas, inspirações
Gente de arte e de apreço 
Tem muitos outros por aí
Não daria pra citar aqui
Desde o fim até o começo

Resisto o momento da despedida 
Ora aqui preciso ainda contar 
Boa origem dessa gente baiana
E tem de Salvador, Sta Barbara, Irará
Rumo de Bomfim a Antônio Cardoso
Tem Santo Amaro e o povo valoroso
Originários de longe, de outro lugar 

Muito valor a essa turma 
Arretada na lida e na alegria 
Rima, verso e repente 
Tradição, respeito, harmonia
Interesse pela arte popular 
Nessa luta, vou proclamar: 
Salve os cordelistas da Bahia!

Roberto Martins
Salvador, Setembro/2015

* IL-UFBA : Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia
** CRIA: Centro de Referência para a Infância e Adolescência
*** ECA: Estatuto da Criança e do Adolescente


13.2.15

“Axé Músic”: Irônico, Marcelo Nova teria feito batismo

Entre as recordações da “Axé Music”, as elegias saudosas e as tantas abordagens e entrevistas em programas de rádio, surge uma versão até então desconhecida para muitos. 

O nome de batismo, para o que se comemora 30 anos neste carnaval, pode ter sido originado nas críticas e ironias de Marcelo Nova, então vocalista da banda Camisa de Vênus. 

A versão foi dita na quinta (12/02) no programa Band News Primeira Edição, da FM 99,1 – BN Salvador, pelo apresentador Evilásio Jr. De acordo com o jornalista, na época, o roqueiro se referia às músicas que faziam sucesso no carnaval baiano, pejorativamente e ironicamente, com o termo “axé músic”. 

Depois, publicitários e/ou locutores de rádio teriam se apropriado do nome e popularizado o batismo das músicas e danças de destaque naquele momento de tantos “fricotes” e “deboches”. 

O que era chacota, virou rótulo de sucesso... 

Em meados dos anos 1980, momento no qual surge a “Axé Music”, o Rock Brasileiro era forte nos corações e mentes da juventude no Brasil, inclusive na Bahia. 

Que cruzamentos e/ou enfrentamentos estes dois tipos de música podem ter sofrido em terras soteropolitanas naqueles tempos?

Estão aí indícios de um bom tema para pesquisa. Se é que alguém já não a tenha feito. 

A informação de Evilásio, me lembrou o vídeo abaixo. Nesta gravação, de 1988, Marcelo Nova, acompanhado de Raul Seixas, comenta sobre uma das músicas mais populares do nascedouro da “axé music”. 



Raul Seixas & Marcelo Nova 
- Sobre a AXÉ Music - Salvador BA - 1988
Publicado em 3 de mar de 2012

Do canal de Rodrigo Titatelli no Youtube

12.2.15

Por que este anúncio “confuso”? “Porque sim!”

Era o episódio intitulado “O Rei e Eu”, de A Grande Família. Agustinho Carrara (Pedro Cardoso), comodoro do Paivence (Espaço de Eventos), programou um show cover de Roberto Carlos. O artista genérico era o Tuco (Lúcio Mauro Filho), cunhado do gestor do espaço. 

Para atrair público Augustinho aprontou uma das suas. O que, para ele, se traduzia numa “estratégia de marketing”.

 "Estratégia de Marketing" de Augustinho

Carrara mandou fazer um cartaz: “Tuco canta Roberto Carlos”. 

A informação “Tuco canta” tinha letras bem pequenas; enquanto “Roberto Carlos” e os outros elementos informativos eram grafados em tipologia gigantesca. 

Como era de se imaginar, deu confusão. 

Lembrei-me desse episódio, da saudosa série de TV, ao ver o cartaz reproduzido abaixo. O anúncio divulga um evento de camarote durante o Carnaval de Salvador.  


O show é de Lenadro Sapucai, com participação de Carlinhos Brown. Pela lógica, o anfitrião faz o show - na quase totalidade do tempo - e o convidado entra em algumas músicas. No entanto, a julgar pelo cartaz, não é isso o que aparenta. 

Na peça publicitária, Carlinhos Brown é o único a ter imagem e ainda tem o nome mais destacado. Fica com a maior pinta de atração principal. Seria uma “estratégia de marketing”?

Redações e layouts assim são até engraçadinhas, quando acontecem na ficção. Mas na vida real...

Eu questionaria aos produtores e divulgadores do evento, porque eles publicizam um tipo de anúncio “confuso” como este. E eles fatalmente me responderiam: “Por que sim!”. 

PS – O anuncio ainda deveria informar, além da data, o dia do evento. Tipo: “Domingo de Carnaval”. Desta forma comunicaria melhor para o folião.  

15.10.14

Até parece o "café com leite"

Nos primeiros anos do Brasil republicano, paulistas  e mineiros alternaram-se no poder.  

Era a chamada “República do Café com Leite”. A nação tinha um comando rotativo. Um presidente paulista (Café), depois um mineiro (Leite). E assim sucessivamente. Isto era a República Velha.

O gaúcho Vargas quebrou esse ciclo. De lá até os militares (1964) tivemos um mineiro na presidência, Juscelino Kubistchek.  

No entanto, após o período militar (1964-1985), ao que parece, voltamos a tomar café com leite. 

O primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar, ainda que de forma indireta, foi Tancredo Neves (mineiro). 

Morto antes da posse, Tancredo deixou a vaga ao vice Sarney. 

A eleição de 1989 elegeu o carioca, com base em Alagoas, Fernando Collor. 

Sofrido o impeachment, Collor saiu da presidência pra dá lugar a Itamar Franco (mineiro). 

Em 1994 e 1998, FHC foi eleito e reeleito. Ele é carioca de nascimento, mas oriundo da base política de São Paulo. 

No anos 2002 e 2006, o eleito e reeleito foi Lula da Silva. O ex-sindicalista, de origem pernambucana, também construiu sua vida política em São Paulo.

2010 foi o ano da primeira eleição de Dilma Roussef. Embora tenha feito carreira pública no Rio Grande do Sul, Dilma é mineira de nascença. Em Minhas Gerais, onde foi presa e torturada pela ditadura, a presidente iniciou sua militância política. 

Dilma volta a disputar a presidência agora em 2014. O seu oponente no segundo turno é o mineiro Aécio Neves (Neto do Trancredo). 

Dois candidatos mineiros, Dilma e Aécio, com dois paulistas como vices. Michel Temer e Aloysio Nunes, respectivamente. 

Se levarmos em consideração a base política ou local de nascimento dos presidentes pós golpe, teríamos o seguinte resumo. 

1985 - Trancredo Neves (Minas) 
1985 - Sarney (Maranhão) 
1989 - Collor de Mello (Rio de Janeiro/Alagoas) 
1992 - Itamar Franco (Minas) 
1994 - Fernando Henrique (Rio de Janeiro/São Paulo) 
1998 - Fernando Henrique (Rio de Janeiro/São Paulo) 
2002 - Lula da Silva (Pernambuco/São Paulo) 
2006 - Lula da Silva (Pernambuco/São Paulo) 
2010 - Dilma Roussef (Minas/Rio Grande do Sul). 

Um pouco parecido com o "café com leite", não é? 

7.10.14

SETARO King! Herói dos quadrinhos. E da Facom

Setaro King  
Reprodução do Zine Facoman 03


Primeira metade da primeira década do século XXI.  Tempos de produção efervescente de zines na Facom. Alguns memoráveis como o “Bundalelê”, o “Terno de Branco” e o “Muriçoca”, entre outros.  

Neste contexto foi criado o “Facoman”. Um Zine/HQ de tanto sucesso, no ambiente faconiano, que até ultrapassou as páginas impressas e ganhou uma versão em vídeo.

A criação foi de Lucas Mascarenhas, Thiago Alban e Lucas Esteves. A inspiração é nitidamente nas séries de TV com grupos de super-heróis japoneses, como “Changeman” e “Flahsman”, e o cotidiano da faculdade, vivenciado pelos autores, então estudantes. 

Os Facomans (ou Facomen?) foram alunos selecionados pelo “MasterCat” para se tornarem super-heróis. A grande missão deles era salvar a Facom, e o mundo, do “Império Boçalis”. Esta “organização maligna”, liderada pelo grande “Satan Gomes”, tinha a missão de transformar todos em “intelectuais boçais”. 

Na terceira HQ da série foi anunciado desde a capa, ainda improvisada como as duas anteriores, “a triunfal aparição de Setaro King”. 

Inspirado no professor André Setaro, como o próprio nome já indica, o “Setaro King” era um robô gigante. Ele apareceu na série para salvar os heróis faconianos do “Monstro Coxinha de Tia Del”. 

“Setaro é a única unanimidade da Facom”, disse alguém naquela época. Talvez por isso foi o professor escolhido para ser o herói dos super-heróis faconianos. O artefato decisivo para salvar “os Facoman” na hora do perigo.  

Para combater boçalidades nada melhor do que a irreverência, o humor fino, a contemplação preguiçosa e criativa, a informalidade e a crítica ácida e certeira, entre tantas armas setarianas para a sobrevivência em um mundo hostil. 

Muitos o consideravam “o herói da Facom”. Mirdad disse que, depois da ausência dele, a Faculdade de Comunicação da UFBA poderia até trocar de nome, porque jamais será “a Facom”. 


Acesse abaixo a integra do Facom 03 - Terceiro, mas não derradeiro
#SETRO64 – Homenagem ao professor André Setaro, em 12 de outubro, às 16h, na Sala Walter da Silveira – Biblioteca dos Barris. 

3.10.14

O chiclete da Dilma faz “ploc”, o do Aécio faz “bum”

O debate de ontem na Globo não teve muitas diferenças dos outros realizados anteriormente.

No confronto Dilma X Aécio, o que se viu foi mais do mesmo.

E esta repetição vai além dos debates anteriores. Capítulo repetido de uma novela re-make que o Brasil assiste periodicamente há cerca de 20 anos. A gincana PT x PSDB.

Um aponta que o outro privatizou quase tudo. O outro responde que o adversário privatizou estradas e aeroportos.

Então se um diz que o oponente está inundado em corrupções. Seja privatizações, votos da reeleição, metrô de SP, aeroporto do tio... A resposta? “Petrobrás!”, “Correios!”, “mensalão!”...

Quando um diz ser responsável pela criação de grandes programas sociais. Outro diz ter criado antes.

E se um sinaliza ter transformado o país numa potência econômica. Logo o outro diz ter nocauteado a inflação.

Luciana Genro, ontem no debate, em fala dirigida a Aécio Neves, disse que “é o sujo falando do mal lavado”.

Às vezes nos parece ser briga besta de menino birrento.

“O meu chiclete faz ‘ploc’, o seu chiclete faz ‘bum’”. Bum bum bundão.

Ainda com o soar de barulhos diferentes, as bolhas se mostram parecidas.

Isso pode fazer bem pra “seu” Mané do bar; mas pra nossa dentadura não.

* Inspirado na canção “O chiclete” do Ultraje a Rigor

1.10.14

Os cãesdidatos


Depois de um olhar ligeiro, a gente pode pensar que o cachorro também é candidato.

Corre o risco da rapidez na visualização pregar uma peça. 

Imagine um cão, como um político importante, dando apoio ao seu coligado. 

A cidade está infestada de placas com fotos de políticos. Outro dia vi uma com um candidato a deputado, um candidato a senador, um candidato a governador e um cachorro. 

Rapidamente, me perguntei: “O cachorro é candidato a que mesmo?”. 

Parece a moda da estação. Percebe-se um aumento no número de candidatos a pousar ao lado de fotos caninas. 

É a onda pela defesa dos animais. 

Dizem que isso dá voto. E, provavelmente, quem vota, quem pede e quem defende este tipo de voto deve relevar maior importância aos direitos animais. Os humanos e os sociais ficam em segundo plano. Se é que figuram em alguma posição... 

Sabedoria popular diz ser melhor um cachorro amigo do que um amigo cachorro. 

O cachorro é visto como símbolo de “amizade” e “fidelidade”. Já “cachorrada” remete a “falsidade” ou “safadeza”. 

Desconheço qual simbologia precede a outra. Apenas observo os usos e os frutos nas representações daquelas palavras em suas contradições.

Minha mãe me contou que, em tempos eleitorais, quando a humilde residência da família na zona rural era visitada por políticos, após a saída de cada um deles, meu avô materno alertava: “É tudo uns cachorro minhas fia, só muda a coleira”. 

A “coleira” seriam os partidos. 

Hoje é difícil identificar a qual linhagem pertence um político profissional. Temos visto muitos deles mudando de “coleira” ou até mesmo de “canil” a todo instante. 

Neste ambiente, é raro encontrar “cães fieis” a princípios. Existem muitos “cães de guarda” ferozes. Eles defendem, com garras e dentes, os seus empregos, salários, vantagens e/ou mordomias.

Ainda que possamos separar o joio do trigo, o eleitor se perde no meio de tantos “cãesdidatos” a latir no horário político eleitoral.

“Quanto mais eu conheço os homens, mais admiro os cachorros”. 

Quem costuma repetir a famosa frase acima deve acreditar mais nos cães do que nos homens. E, certamente, ficaria feliz se os cães estivessem denotativamente na política. Porque, conotativamente, a cachorrada já faz parte do meio político há muito tempo. 

Será que um dia os cães estarão na urna eletrônica? 

Bem, nos cartazes e no horário eleitoral da TV eles já estão aparecendo de montão. “Au, au!”. 

30.7.14

Construção de Mersinho faz Jilú permanecer

Sentimos dor, quando perdemos as pessoas para a existência. 

Conforta lembrar que a memória fica. No entanto, ela é uma espécie de existência com prazo de validade. 

A memória é passível de falhas. E, qualquer dia destes, também há de ir junto conosco... 

Carrego dores. Angústias por pessoas para as quais não fiz registros. E, me sinto pequeno, para grafar memórias tardias. Medo enorme de falhar. 

Principalmente para com os meus. Assusta-me ainda a possibilidade de parecer presunçoso. Um tipo de coruja gabando o toco. Receio de criar um produto não merecedor de crença analítica por quem leia. 

Hoje diante da notícia da morte de Jilú, pensei um pouco nisto. Pensei o quanto Mersinho foi apaixonado e corajoso com o seu: “A Construção – Histórias do Mestre Januário”. 

Lembrei da época em que Mersinho labutava na construção do seu livro. Da empolgação dele de, não só contar sobre a obra e as histórias do avô, mas como também de levar pessoas até a casa se Jilú. 


Ao lado do Mestre Januário em visita à casa dele

Tive a sorte de ser um destes privilegiados visitantes. Na casa de Jilú além de histórias, como a curiosa passagem de Luis Gonzaga num circo em Irará, ainda descobrir engenhocas. 

Estava lá um complicado “quebra-cabeça” que, feito pelo próprio Jilú com alguns pedaços de gravetos, para mim, foi impossível desarmar.

Quando o livro de Merso ficou pronto, tivemos a honra de lançá-lo durante o Colóquio de Literatura Popular de 2008. Evento produzido pela Casa da Cultura, quando estávamos por lá. 

Para felicidade de todos, o velho Jilú se fez presente. Foi vestido a caráter, para a noite de autógrafos do neto, no lançamento da obra na qual ele era o personagem de centro. 

Jilú, ao centro, em noite de autógrafos de "A construção..."

Recentemente pude ler e ouvir relatos da dedicação constante de Mersinho a Jilú. Fosse para “chamar o doutor” ou para dá banhos. Mãos à obra. 

Se a canção perguntar, talvez a resposta seja rápida. Ao merecer tanto carinho daquele neto, Jilú, como mestre de obras que foi, deixou muito mais do que tijolos no muro.

No dia de ontem Jilú passou. Um dia, pode ser daqui a cem anos, Mersinho também passará. Mas em algum canto, algum dia, alguém pode encontrar um exemplar daquele livro. E quem ler saberá das histórias do Mestre Jilú, graças a seu neto dedicado e atencioso. 

Mersinho e seu livro "A Construção - Histórias de Mestre Januário"




Imagens: 
Roberto e Januário por Emerson Nogueira
Januário e convidados e Mersinho com Livro por Katiene Suzart

7.12.13

O teatro e o faz-de-conta

Durante muito tempo desejei e imaginei que as situações e acontecimentos fossem vistos e descritos como são. Ledo engano. As pessoas gostam mais do que “parece ser”. Fogem do que “é”. 

Agora eu sei um dos motivos do meu fascínio pelo teatro. O teatro, para usar um termo dito por Cazuza em uma canção, é uma “mentira sincera”. E as “mentiras sinceras” também me interessam. 

O teatro não falseia, falseando. Ele se apresenta, logo de cara, como uma “encenação”. Fica implícito, como em um acordo tácito com o espectador, que ali não está o que é real. 

No entanto, através da verossimilhança, o teatro nos mostra uma realidade óbvia. E que, por tão, mais tão, visível, estava oculta. 

A arte teatral denuncia a hipocrisia humana. Desmascara os jogos de cena. 

Muitos costumam ir ao teatro para rir ou chorar da própria miséria. Outros tantos o freqüentam porque desejam apurar o olhar crítico para com a realidade. 

O teatro do qual falei até aqui é o artístico. Ele é bem diferente do teatro do dia-a-dia. 

O teatro do cotidiano é o faz-de-conta. Pessoas simulam situações, se fazem de personagens, vestem fantasias hipotéticas, entre tantos outros artifícios, na intenção de “parecer ser”.

Vale de tudo. O desejo é não ficar de fora do grupo social. Não parecer em desvantagem, com relação ao outro. Se apresentar como superior.  Torna-se uma pessoa a ser invejada, copiada, admirada. 

E neste contexto, as redes sociais, principalmente o Facebook (a mais usada entre os brasileiros) são o paraíso na terra. 

Com isto, potencializa-se uma sociedade doente pelo consumismo e as aparências. Vive-se um ciclo vicioso. Tal e qual é apresentado no filme “Beleza Americana”, cujo desfecho mostra justamente a condenação de quem quis se rebelar contra esse mal. 

Precisamos de mais reflexão e menos fantasia. Mais teatro e menos faz-de-conta. 

Triste do local, onde não se faz e nem se assisti teatro.

2.12.13

CHAMA O DR.

Texto escrito por  EMERSON NOGUEIRA - MERSINHO 

Mestre Januário no seu cantinho habitual  

Nos altos dos seus 92 o velho Januário precisou de um reparo. Foi quando Juvam da Pisadinha gritou: chama o Dr rapaz.  

- Já o levei duas vezes essa semana no hospital e passaram medicamentos. 

- Que nada, esses médico novo, hum..humm...

Era final da tarde de domingo 27/10/2013. Chegando ao antigo casarão bati algumas palmas.... Logo o Dr. abriu a porta, então apresentei-me e fiz questão de desculpar-me pelo incômodo. Fui tão cauteloso que não deixava nem o Dr. falar. Foi quando respondeu sorrindo: 

- Para, para, para não precisa de discurso, eu não to mais fazendo esse tipo de atendimento, mais como é Mestre Januário vou abrir uma exceção”.

Naquele momento percebi a conhecida irreverência do grande cidadão Iraraense. Mandou-me esperar enquanto preparava a maleta. Eu não estava sozinho, os amigos Roberto Aranha e Emerson estavam de prontidão para dar aquele necessário tombo.

Chegando a roça lembrei-o dos tempos de chegança naquele terreiro. O velho deu um breve sorriso. Fomos até o quarto onde os amigos se reencontraram. Tiveram uma pequena prosa, daí fiquei a observar o andamento da consulta.


Encontro entre Dr. Deraldo e Mestre Januário 

Foram muitas perguntas, até que Mestre Jilú disse ao Dr. que achava que tava era de “olhado”.  O Dr. pensou alguns segundos e revelou mais uma nota do seu rico repertório. Disse que sabia rezar olhado e perguntou se ele tinha fé. Logo pediu umas folhas de vassourinha e começou a rezar. Ao lado botei a mão no bolso e vi que também tinha um bom instrumento para orquestrar. Foram alguns minutos inesquecíveis. 

Dr. Deraldo reza Mestre Januario 

No outro dia o velho levantou. Já sentado em seu habitual cantinho, perguntei como ele estava. Respondeu: “ tô aqui teimando”. Neste momento observei uma cena que refletia a continuação. Muitas vezes há de haver um fim, mas haverá sempre um recomeço. O velho e o novo estavam em movimentos parecidos. Que estejamos preparados para um novo amanhecer, e que jamais há de esquecermos o mais velho dos doutores, o Deus da vida.


O velho e o novo, Januario e seu bisneto Cauã


Veja o Vídeo de Dr. Deraldo rezando o Mestre Januário 





Mercinho, 02/12/2013

6.11.13

Dia D Drummond...

Carlos Drummond de Andrade, “poeta que cantou o amor, denunciou a miséria, chorou a crueldade humana. Ao mesmo tempo realista, moderno e lírico”. Conforme noticia do Blog “Bula Revista”, do Portal R7, Drummond “ganhou o Dia D, inspirado no Bloomsday, o dia dedicado ao escritor irlandês James Joyce. A data, 31 de outubro, aniversário do poeta [nascido em 31/10/1902 – falecido em 17/08/1987], é comemorado no Brasil e em Portugal. 

Abaixo dois poemas de Drummond:         

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

10.10.13

Deixai vir a criancinha de dentro de ti

Já ouvi dizer que toda criança é egocêntrica.  Por isso, ela pensa ser o centro do universo, imaginando-se a razão do existir de tudo à sua volta. 

Não sei se de fato toda criança pensa assim. Só lembro que no meu tempo de infância, pensava que ao menos uma coisa nós tínhamos para chamar de nossa. Um feriado. 

Depois, antes mesmo de ficar adulto, ainda pré-adolescente, descobri que o descanso do  “12 de Outubro” não era por razão das crianças, mas sim por uma santa. Era mais um feriado católico. 

A proximidade da data me trouxe esta lembrança e uma reflexão: Que importância tem crianças em um mundo governado por adultos? 

Elas são cada vez mais tratadas como “adultos em miniaturas”. “Bota a maquiagem”; “diz quem é a tua namoradinha”; “pinta e bota roupinha sexy”. Em geral, acham-se tudo muito lindo. Tendemos a gostar de miniaturas; tem gente que coleciona. 

Até mesmo como público reduziu-se os espaços para as crianças. Minguaram os programas de TV direcionados para os infantis. Já não ouvimos mais grupos musicais de meninos e/ou meninas como no passado. 

Restam-lhes os programas e as músicas “adultas”. E como o HD dos pequeninos tem bastante espaço livre, “aprendem rapidinho”. Há quem ache graça.

Estamos “adulterando” as crianças, quando deveríamos “infantilizar” um pouco mais os adultos.
E “infantilizar” não quer dizer “abobá-los”. Longe disso. É torná-los mais infantis, para serem mais sinceros, puros, alegres, irreverentes, generosos...

Gonzaguinha nos disse que “fica com a pureza das respostas das crianças”, porque é bonita, e é bonita, é bonita. Cazuza nos perguntou se já tínhamos reparado “na inocência cruel das criancinhas”, porque elas “advinham tudo” e “sabem que a vida é bela”. E lá nos fins dos anos 1970, Roberto Ribeiro cantava que “todo menino é um Rei”. 

E menino é Rei que desafia Rei. Lembrem-se da fábula. O menino não teve pudores de anunciar que o rei estava nú. Antes, todos já tinham percebido, mas ninguém tivera coragem de denunciar o despimento da majestade. 

Neste ano de 2013, o livro O Pequeno Príncipe, do francês Saint-Exupéry, completa 70 anos de lançamento. Este Best Seller da literatura mundial traz uma reflexão, através dos sonhos e questionamentos de uma criança, nos mostrando a valorosa importância de coisas simples, as quais deixamos de lado quando nos tornamos adultos. 

Jesus Cristo pediu que deixasse ir até ele as criancinhas. E é isto que todos devem fazer. Ao invés de sufocar, deixai vir à tona a criança que há dentro de si. 

19.8.13

Torcedores organizam “selinhozaço” em apoio a Emerson Sheik – “Quem apóia e elogia, participa!”*

Enquanto muitos torcedores do Corinthians protestam contra o jogador Emerson Sheik, por ter postado uma fotodando um selinho em um amigo, cresce também o número dos que apóiam a atitude do corinthiano. De acordo informou um líder de torcida, que pediu para não ser identificado, o gesto de apoio será massivo e virá de torcedores de vários clubes do país. Segundo o referido líder, em apoio ao Sheik, os torcedores já organizam um grande “selinhozaço” nas redes sociais. A ação, prevista para acontecer no próximo sábado, 24, consiste na postagem de fotos de homens dando selinhos em amigos e/ou namorados. “Não importa se você é homo, não importa se você é hetero, quem apóia e elogia a atitude do Sheik, participa. Porque apoio se mostra com atitude e não só com palavras”, declarou o torcedor, convicto de que agora, as redes sociais vão “pipocar” de homens dando selinho.  


*Isso é quase um Piauí Herald 

16.7.13

Confere! Conferência.

Confere, Confere, Confere... Conferência! Lembra bingo. Um monte de gente acompanhando, marcando e conferindo, sob o sol, no chão da praça. De cima do palanque, alguns conduzem o evento, para apenas uns poucos ganharem os prêmios. Conferências seriam mais válidas se fossem “deliberativas”. Quando o que lá é decidido tem força de Lei. E a gestão pública é obrigada a cumprir sob a vigilância da justiça. Enquanto a Conferência for apenas “Consultiva” não é de maior valia o seu significado. É colheita de opiniões. Às quais serão executadas, ou não, a bel prazer do gestor em exercício. Há muitos exemplos. E o povão segue na praça fazendo número, marcando a pedra cantada por quem tem o microfone e a situação nas mãos. E ainda por cima, validando o sistema, balançando a cabeça e repetindo: “confere, confere, confere!”.

10.7.13

Quase sempre, quase nada muda. E o vislumbre de esperança: Mais 02 de julho e menos 07 de setembro

02 Julho de 1823. Nasce o sol, “com brilho maior que no primeiro”. Finalmente, os portugueses foram expulsos. Os bravos braços do povo baiano foram decisivos para concretizar a independência do Brasil.

A emancipação brasileira havia sido declarada no ano anterior, ao 07 de setembro, com um “único grito”. Os historiadores e suas pesquisas nos ensinam. Um arranjo. E a soberania do Brasil nascia (sic) pagando indenização ao colonizador.

Do alto de seu trono bonachão, D. João, certamente orientado por assessores, teria sentido os ares da mudança e profetizou. “Se tem de ser alguém, que sejas tu meu filho”.

De tal sorte, D. Pedro I assumiu o império brasileiro e o país continuou sendo 
governado pela mesma família real que aqui mandava durante a monarquia. Mudança pouca.

Os ventos libertários, ocorridos em outras partes do globo e percebidos pelo clã de Orleans e Bragança, tiveram como inspiração a consagrada Revolução Francesa. Lá, a história demonstra uma situação um pouco mais diferenciada. O rei caiu e cabeças rolaram.

No entanto, não demorou muito e a “revolução” pareceu se adequar ao status quo. O revolucionário Robespierre guilhotinou companheiros. Eram os reflexos de outra classe social no comando. Ao invés da realeza, a burguesia.

E assim seguiu-se a história no mesmo ritmo anterior. Dominantes e dominados. Quase “tudo como dantes, no quartel de Abrantes”.

Exemplos, não faltam na trajetória humana e brasileira. O povo pediu para crucificar Cristo e libertar Barrabás.  Foi um “Marechal” quem proclamou a República do Brasil. Trosky foi assassinado no México, a mando do companheiro Stalin. E Júlio César perguntou: “até tu Brutus?”.

No Brasil pós Regime Militar (1964-1985), o mesmo modus operandi. Ainda com a Ditadura na UTI, os arranjos políticos já sinalizavam. Evidenciou-se depois, diante da morte de Tancredo e ascensão de Sarney à presidência.

O Tancredo eleito indiretamente era o mesmo que personificou o “parlamentarismo arranjado” em 1963, para evitar a posse integral de Jango. 

Já o Sarney, hoje no PMDB (partido que desde 1985 é base de apoio ao governo federal seja ele de que lado for), assim como muitos dos seus, era recém oriundo da ARENA (Aliança Revolucionária Nacional).

A expressão “Revolucionária” da sigla testifica que aquela agremiação política, de laços tão próximos com o primeiro presidente civil pós golpe de 1964, tinha sido o partido de apoio aos governos militares. Esta era a cara da Nova República que já nascia velha.

Aqui no nosso Irará a história não é lá muito diferente. Uma geração inteira assistiu a alternância dos mesmos no poder. A ponto de uma campanha eleitoral derrotada na época usar como slogan uma espécie de desabafo: “Chega de Repeteco!”.

Enquanto isso, outros gritavam “Renova Irará!”. Parecia um desejo novo, uma vontade diferente. Ao invés de uma única família, um único grupo, sobre as ordens de um único chefe, a proposta de um governo de parceria com o povo. Experiência frustrada e a volta dos mesmos.  

No Irará de agora, os três “mosqueteiros”, que propagavam o “renovar”, junto de outros que se proclamavam diferentes dos “renovadores” e dos “conservadores”, são a linha de frente do governo da cidade.

“E o que temos pra hoje?”. Titulares de cargos de confiança daquela época, para a qual se pedia renovação, ocupam os mesmos cargos estratégicos na gestão de agora. E até mesmo “o chefe” de antes, contra o qual os “renovadores” pregavam, faz parte do governo de hoje e se diz apoio político ao executivo. É mais do mesmo.

Em um grupo no Facebook, criado para discutir política de Irará, o qual conta com mais 2,5 mil pessoas cadastradas, Danilo Pires nos lembrou o dito do final do filme “Tropa de Elite 02 - O inimigo agora é outro”:

“O sistema entrega a mão pra salvar o braço. O sistema se reorganiza, articula novos interesses, cria novas lideranças. Enquanto as condições de existência do sistema estiverem aí, ele vai existir”.

E vem existindo há muito tempo. Na Roma antiga, na França pós-revolucionária, no Brasil Independente, em Irará, em todo lugar. “Eles têm vencido e o sinal tem ficado fechado para nós que somos jovens”.   

Ao longo da história, têm sido assim. Quase sempre, quase nada muda. O surpreendente é que, mesmo com este histórico, mesmo diante de tantas experiências, toda vez que assistimos o povo tomar as ruas, as esperanças renascem. E mesmo sendo “Cowboy Fora da Lei” vislumbramos perspectivas de que seremos mais 02 de julho e menos 07 de setembro.  

7.6.13

Alô juventude! O conhecimento os levará à verdade e “a verdade os libertará”

Por algumas oportunidades professores me convidaram para fazer falas motivacionais em escolas públicas. A intenção é sempre a mesma. Levar uma palavra de esperança aos jovens, quase sempre descrentes no futuro. 

Hoje, embora o país tenha notoriamente mais oportunidades do que em um passado não muito distante, grande parcela da juventude segue sem motivação. Talvez por desesperança, quem sabe por falta de perspectivas, ou ainda possivelmente, por pressa. 

É notório que a rapaziada de hoje não vive o tempo dos jovens de outrora. A hora continua tendo sessenta minutos. Os minutos, por sua vez, sessenta segundos. No entanto, observamos que “o tempo de hoje corre mais rápido”.

Se a juventude de outras épocas esperavam cartas de amor. Daquelas que demorariam horas intermináveis para chegar através um colega de escola, ou então em dias ou em semanas, via correios. A molecada de hoje se corresponde em instantes. Estão aí os celulares e as redes sociais da internet. 

Por isso, para muitos destes jovens, é difícil vislumbrar o “distante” tempo do futuro. É “tudo ao mesmo tempo, agora”, como na canção dos Titãs. Para eles, mesmo que o amanhã possa está ali no virar da esquina, demora muito pensar ou esperar por ele. Vale viver o agora. 

De tal maneira, para mim, conversar com estes jovens de hoje, dizendo que o estudo é importante porque lhes trará benefícios amanhã, não é a maneira mais eficiente de seduzi-los. 

O propalado e batido “estude para um dia ser alguém na vida”, já “não cola” mais. Tão pouco, o incentivo ao estudo para se conseguir bens materiais no futuro. Como já dito, eles tem pressa. São do mundo do instantâneo. Nem todos pensam ou imaginam o futuro. 

Penso que a melhor maneira então, seria mostrar-lhes os benefícios que o estudo pode lhes proporcionar no presente. E, para mim, o maior deles é deixá-los “ispertos”. 

Parafraseando Raul Seixas, não posso entender como, em um mundo de tão fácil acesso ao conhecimento e a informação, exista muitas pessoas “aceitando a mentira”, sem esboçar qualquer dúvida ou questionamento. 

Milhares de pessoas vão a uma fila, criando tumulto, sacar um “bônus”, sem qualquer confirmação oficial da fonte pagadora de que o mesmo seria dado, só porque “ouviram falar”. 

Outros tantos retransmitem notícias falsas na internet, muitas delas sem cabimento algum, porque não possuem condições mínimas de analisar ou diferenciar um fato de um boato.

“Quem lhes garante de que vocês não estão sendo enganados?”. Pergunto aos jovens estudantes. Enganados pelas marcas, pela publicidade, pelas notícias, pelos políticos, pelas situações... 

Digo-lhes que o estudo é a proteção que eles têm de melhor. Um escudo, para lhes deixarem menos vulneráveis a tantas enganações do cotidiano de nossa vida social. E este benefício, eles já podem começar a usufruir imediatamente. Os outros, certamente, virão como conseqüência.

Importante lembrar, que não há nada de novo no que estou falando. Já é dito há muito tempo. Está, inclusive, na Bíblia! João 8:32: “e conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”.