28.5.07

Das festas e festas ou como eu também sou, um pouco, saudosista

enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br em 20 de maio de 2005.
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Uma festa para a qual, assim como Cazuza, não fui convidado relegou-me a algumas lembranças. Rememorei eventos festivos de alguns anos atrás acontecidos em terras iraraenses. Sendo mais especifico, recordei-me das festas bailes e consequentemente das bandas que as animavam, traçando um pequeno paralelo com os embalos atuais.
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Antes, as chamadas festas bailes reinavam no cenário festivo de Irará. Era o final dos anos oitenta, inicio dos noventa e o repertório daqueles grupos eram completos. Melhor dizendo, saiam do pop internacional, das baladas românticas, do sertanejo e do forró, passavam pelo axé e chegavam até mesmo ao reggae e ao rock and roll. Resumindo: Tocavam de tudo. E eram os ritmos que ditavam o momento do baile. Tema mais lento, "hora de se armar". Tema mais eletrizante, "hora de agitar". Por vezes rolava até confusão, mas nada que uma parada no som ou um apelo do vocalista não pudesse controlar.
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Fora dos imprevistos, o baile só era interrompido uma única vez para o intervalo da banda. Isto porque elas tocavam madrugada adentro e como ninguém é de ferro, mereciam um breve descanso. Longe do circuito massivo, embora demonstrassem interesse em adentrá-lo, aqueles grupos não tocavam no rádio e como era a época analógica, do vinil, eles não tinham facilidades de gravação. Assim o sucesso das bandas era feito de acordo com as suas performances. E desta forma, bandas como Extra, Flor de Cactos, Garganta Inflamada, RPB, entre outras, fizeram história em Irará.
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Hoje, as festas estão mais ligadas ao show bussines e apresentam as chamadas bandas show. Estes conjuntos são especialistas em tocar somente um estilo musical, dificilmente tocam mais que duas horas e certamente já tem o seu CD gravado, nem que seja através de um computador de amigo. A falta de variedade no gênero é evidenciada pela concentração em basicamente três vertentes. Quando não é arrocha ou é forró ou é pagode. E as festas mais parecem festivais com três, quatro, cinco... dez bandas! Cada uma toca cerca de uma hora, com mais uma de intervalo entre as atrações para trocar instrumentos, passar o som, etc (só ai já foi metade da festa).
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Tanta demora talvez seja aceita pela vontade de ver aquele grupo que toca no rádio ou é comentário geral. Entretanto, há ocasiões em que a banda pela qual se espera nem é "famosa", mas as pessoas acabam esperando, esperando, esperando, como naquela canção do Chico. Quanto a apresentação dos grupos, é melhor nem comentar. Alguns deles parecem que se preocupam mais em mostrar figurinos, fazer danças e encenações exaustivamente repetidas por centenas de outros conjuntos, do que mostrar qualidade musical. Coisas que causam arrependimento pelo ingresso pago. Este passaporte, pode ser uma camisa e por mais que a vaidade feminina tente reforma-las para se diferenciar, ainda estarão participando de um evento uniformizado.
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Na verdade, a festa de que falei no inicio não exigia convite algum. Bastava apenas comprar a camisa e eu estaria lá, com meu uniforme como todas as outras pessoas. Mas pensei melhor e decidi não ir. Fiquei em casa e aproveitei para ler alguma coisa. Como ultimamente têm saído um festival de textos saudosistas sobre os anos oitenta, suas culturas e comportamentos, acabei sendo influenciado. Afinal de contas, eu não iria ficar de fora desta festa.

18.5.07

V V V V – Vinhos, versos, velas e Vânia

Como estamos em tempos de lembranças. Vamos lembrar do Vinhos e Versos. Havia quatro texto sobre o assunto que ainda não tinha vindo aqui nesse blog. Foi difícil, mas escolhi esse. Por que ele foi, digamos, iluminado...

Texto escrito em dezembro de 2004.

Janela - trabalho de Vânia Medeiros, capa de uma das revistas Vinhos & Versos.

Na quinta feira a companhia de energia elétrica interrompeu o fornecimento de energia a alguns prédios públicos de Irará. O Sobrado dos Nogueiras (Casa da Cultura – Biblioteca Municipal) foi um deles. Diante do acontecido, o recital de Poesias Vinhos e Versos da Casa da Cultura de Irará (CCI), antes programado para acontecer no Sobrado, teria de ser transferido.
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A direção da Casa da Cultura agiu rápido e conseguiu o deslocamento do evento para o Arte Café (barracão em frente ao Banco do Brasil). Entretanto, a notícia da mudança não foi divulgada, pois o grupo diretor da entidade já se colocava diante de um novo dilema. Dúvida acionada pelo surgimento da idéia poética de fazer o recital sob a luz de candeeiro. Isto seria, como alguns já comentavam, o Vinhos, Versos e Velas. No entanto, realizar o recital com pouca iluminação, significava a quase que anulação da exposição artística, pensada para a mesma data e local.
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Exibir as gravuras de Vânia Medeiros no Vinhos e Versos era muito importante para a Casa Cultura. Primeiro pela beleza do trabalho da jovem estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Ela usa e abusa da técnica de colagens, desenhos a lápis de cor e giz de cera e pinturas com guache, para criar as suas imagens que depois de digitalizadas ganham colorido e textura especial. Depois, por Vânia ser uma grande incentivadora do trabalho da atual direção da instituição, diagramando com o seu talento todas as publicações da revista Vinhos e Versos.
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Entre o romantismo da iluminação a fifó e a exposição, o interessante mesmo era se tivesse uma maneira de ficar com os dois. Chegou-se a pensar na criação de dois ambientes: Exposição no Arte Café e Recital (a base de fifó) no Sobrado. Contudo, a idéia de separar a exposição do recital não era bem aceita e na sexta-feira, quando já se estava admitindo o esquecimento da “iluminação especial”, optando por fazer os dois acontecimentos no ambiente substituto, prefeitura e companhia elétrica chegaram a um acordo e a energia do Sobrado estava sendo religada.
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Com este acontecido, a possibilidade de ficar com o fifó e com a exposição foi concretizada. A direção da Casa da Cultura teve a feliz decisão de manter as luzes do Sobrado dos Nogueiras acessas durante um certo período, para que as pessoas vissem a exposição, enquanto tomavam o vinho. Depois, abruptamente a iluminação foi intencionalmente desligada, dando inicio ao recital, no ambiente que ficou iluminado apenas por dois candeeiros, previamente acessos. Agora era Vinhos, Versos, Velas e Vânia.
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Sob a luz dos candeeiros deu-se início o recital de poesias. Roberto Martins, Fábio Calisto, Sérgio Ramos, Jucilene Cruz, Marilda Ramos, alternaram-se em suas declamações. Derrepente, a luz elétrica foi religada para que Vânia Medeiros fosse apresentada ao público. Lágrimas aos olhos, ela agradeceu a todos e disse estar gostando do acontecimento. Após as palavras dela, Roberto conclama pela volta das poesias e alguém pede: “Apaga a luz!”. Incandescentes desligadas, fifós acessos e o recital continua. Kitute de Licinho, Edma Lopes, Tone Coelho, Adriana Santana, Gilmar professor, Geildes Sueli e José de Lima, conhecido como Zé Ceguinho completam o grupo dos recitadores.
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De posse da palavra, Zé Cego foi mais do que poético, foi revelador quando quis demonstrar o que sentia diante da arte de Vânia. Zé mencionou que não podia ver as imagens da artista, mas graças à ajuda e descrição de Edma (professora de portadores de necessidades especiais) ele podia sentir o que aquelas imagens transmitiam. Para demonstrar seus sentimentos, Zé relacionou os desenhos a uma poesia, recitando-a em seguida. “É preciso ver com os olhos do coração”, sentenciou Edma.
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Olhares apaixonados, olhares poéticos, olhares artísticos. É de se imaginar o que estaria por trás do olhar do artesão Zé Nogueira, finalmente presente ao recital, junto com Dagmar sua esposa/companheira/artesã, apesar do avançar da hora. Certamente várias idéias, viagens, conceitos... mas nenhuma vontade de fazer uma intervenção. Até que Roberto anunciou a presença de Zé para o posterior aplauso dos presentes. “Zé, por favor, leia a poesia do seu amigo Juracy Paixão, publicada aqui na quarta edição da revista Vinhos e Versos” pediu o “Sr. Presidente” da CCI. Ainda assim, Nogueira não sentiu-se à-vontade deixando para Roberto recitar o “DesVerso do Paladar”.
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Desta maneira se viu, se viveu e se verbalizou o quinto Recital Vinhos e Versos da Casa da Cultura de Irará. Um recital vivo. Pelos versos dos versejadores, pelo vinho vermelho, pela vinda de Vânia, pelo vislumbre da vela (diga-se candeeiros), pela vibração dos visitantes... Por tudo isto, um recital vigoroso. Mas do que nunca, marcado em “V”. Ironicamente, em romanos, representante do numeral “cinco”.
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Veja trabalhos de Vânia Medeiros através do Link indicado neste blog.

11.5.07

Com Cidade de Deus, cinema volta a cidade nascida da luz*

Escrito na primavera de 2004, quando estávamos como presidente da Casa da Cultura de Irará.
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Quando Zé Pequeno gritou: “Pega a Galinha ai, ô rapaz!”, a sala já estava cheia. E cada vez chegava mais gente. Logo, as poucas cadeiras que estavam vazias foram sendo ocupadas, e quem chegou depois começou a assistir o filme de pé. Assim o domingo, 14 de novembro de 2004, ia noite adentro, na maior sala de aula da Escola Municipal São Judas Tadeu. Àquela altura, transformada em sala de projeção.
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Os cerca de noventa assentos disponíveis foram insuficientes, conforme era logo percebido por aqueles que ultrapassavam o portão da escola e viam alguns jovens, sobre suas bicicletas, observando através das vidraças. Na tela grande, Cidade de Deus, de Fernando Meireles, que já empolgou o Brasil e o mundo, conquistava os iraraenses, principalmente àqueles que ainda não o tinham visto. Alguns deles, talvez sequer tenham mesmo assistido qualquer outro filme na telona. Era o cinema de volta a Irará, como nos tempo de Sr. Olavo ou Zé Martins, o Zé do Rato. E se antes, a TV foi considerada a culpada pelo fim das salas de projeção nos pequenos centros urbanos, agora aqueles mais de cem espectadores pareciam se vingar da telinha. Eles preferiram sair de casa para apreciar um longa metragem num local público, junto a emoção e o calor humano dos seus conterrâneos.
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Assim é a sétima arte. Enquanto muitos acusam a TV de isolar as pessoas em seus pequenos mundos residências e até desfragmentar o dialogo familiar, o cinema é tido como agregador e possui o poder magnífico de fazer as pessoas “viajarem”. Isso sem contar a característica de gerar o debate, de suscitar comentários. Conforme aconteceu ao final da sessão, era impossível não perceber as alusões feitas à obra. Até mesmo durante a exibição, um espectador mais exaltado repetia o personagem, “Dadinho é o caralho!”. Close, primeiro plano, câmera tremendo em cena de perseguição, gira o foco, gira a imagem e... lá está o público, concentradissimo! Gira pro passado, gira pro presente e a roda do tempo também faz girar o pensamento dos diretores da Casa da Cultura de Irará (CCI), levam-nos há meses atrás, quando aquela exibição era somente um sonho. Como diria Glauber Rocha “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Equipamento e criatividade. A inventividade eles tinham de sobra, faltavam-lhes as condições.
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Naquela noite, a vontade de fazer foi saciada graças à colaboração de alguns parceiros. O Cestão Celulares, representante em Irará da operadora Claro, foi fundamental para se ter o equipamento. Agradecimentos mil ao amigo José Carlos (Kakal). E o diretor da escola, Marivaldo Francisco, concedeu o espaço com grande benevolência. A Casa da Cultura torce pela continuidade destas parcerias, até que, quem sabe um dia, seja possível ter os seus próprios equipamentos e sala de projeção. De tal maneira a arte cinematográfica será viabilizada a quem tem dificuldades de acesso à mesma. E será mais confortável responder ao público, quando perguntarem ao final da exibição: “Quando vai ser e qual será o próximo filme?”.

* Em Irará há um quase consenso de este nome em linguagem indígena quer dizer: nascido ou criado da luz do sol ou do dia. No entanto há dicionário de tupi que classificam Irará como animal mamífero que gosta de se alimentar de mel. Existem também outras versões populares para o significado deste nome.

2.5.07

E lá se foi o Carecanto

enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br em 08 de fevereiro de 2006.
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Para muitos, talvez fosse apenas mais um bar da cidade. Para outros, um local memorável, onde devem ter acontecido muitos causos do Irará. A sua arquitetura não era exuberante, nem demonstrava grandes artifícios de beleza, mas conservava em si status de tempos de outrora, de saudades e recordações.
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Na minha infância, costuma passar em frente aquele bar, nas idas e vindas no trajeto casa/escola. Sim, dobrar a esquina do Carecanto esteve, e ainda esta, no meu roteiro pelas ruas de Irará. Só que agora, não há mais o Carecanto, tão somente a esquina, de teimosa, insiste em permanecer.
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Lembro-me de quão surpreso fiquei ao saber, por uma placa de sinalização, que ali no encontro entre Praça da Purificação dos Campos e beco de Sr. Elisio começa a rua Pompilio Santana. O beco é, portanto, um prolongamento da rua onde sempre morei, cujo itinerário passa pela a AABB e vai até o Loteamento José Barbosa Caribé. Tal Caetano em Sampa revela-me alguma emoção no encontro entre Pompilio Santana e Praça da Purificação.
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Noutro dia cheguei por ali e nada entendi. A dura poesia concreta do progresso havia levado ao chão um marco daquela esquina, o Carecanto. A quadra dedicada à padroeira da cidade, noutros tempos denominada Praça do Comércio, já é pequena para as atividades comerciais. O comércio então avança Rua Cel. Coronel Elpidio Nogueira (antiga rua direita) acima, transformando, aos poucos, o patrimônio arquitetônico do centro da cidade em portas de chapas metálicas.
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Na mesma semana foi derruba a antiga casa de Sr. Lúcio, próximo ao Banco do Brasil. Vale lembrar que onde hoje é a agência bancária, um dia funcionou, segundo relatos dos mais antigos, um belo prédio que abrigava a antiga prefeitura, namorada do jardim da Praça da Bandeira com seu coreto. Nesta mesma praça, na esquina de frente para o banco, onde um dia esteve a casa de Sr. Zé Freitas, com suas muitas janelas, surge uma nova Farmácia. A edificação já aponta o seu letreiro luminoso, disposto num enorme painel.
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Loja farmacêutica é também o empreendimento a ser erguido no terreno onde um dia funcionou o Carecanto. Farmácia, junto a supermercado e funerária, parecem mesmo ser os segmentos comerciais que mais prosperam em Irará. Diante da evidência, um leve toque de sociologia parece avaliar o nível de vida na comunidade. Comer, adoecer, morrer. Não prosperam novas alternativas para os jovens. Não prospera o nível social iraraense. Não há políticas de valoração e construção do patrimônio arquitetônico e nem mesmo cultural. Nada!
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Alguém tentou convencer o dono da Farmácia a não demolir a estrutura do antigo Carecanto. Mas foi em vão. O empresário foi reticente diante dos argumentos de que os traços da edificação dariam um charme a mais para o seu comércio, bastando apenas reforma-la. Argumentos rebatidos, o Carecanto foi ao chão. E assim foi desmanchado o cenário, escolhido pela TV para servir de fundo para a entrevista de Sr. Antônio Luiz, quando da produção do programa dedicado a Tom Zé, organizada pela afiliada soteropolitana da Rede Globo.
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O Vídeo Tape da TV contem as imagens e a lembrança retém o balcão, os banquinhos giratórios e as prateleiras com as diversas garrafas de bebidas. É certo que o Carecanto já não era mais o Carecanto. A nostalgia estava presente somente no prédio, o qual deveria ser preservado, pois ao longo dos tempos o bar foi trocando de dono e até mesmo de nome.
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A nomenclatura tradicional e já há algum tempo esquecida, foi resultado de um concurso. Uma disputa que na época empolgou a cidade e se revelou um evento sócio-cultural. Em meio a tantos nomes inusitados e até estrangeirismos, venceu o que homenageava o dono do bar ao traduzir a paragem como “o canto do careca”, daí “Carecanto”.
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E pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, o Irará a cada dia ver minimizadas suas características de cidade centenária. Já abordei esse tema num outro texto*. No entanto, acredito que sempre vale a pena lembrar. Ao menos enquanto ainda podemos e nossas mentes não forem alcançadas pela lógica do consumo, na qual, os valores éticos e estéticos estão sempre submissos aos financeiros.
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A questão do traço arquitetônico da cidade foi abordada em “Centenária tradição memória efêmera”, publicado na Gazeta de Irará em maio de 2004.


24.4.07

Fulano de Sicrano*

“Não sou de ninguém/ Eu sou de todo mundo / e todo mundo é meu também.”
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Os Tribalistas, na canção já sei namorar
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“É como Cronos comendo seus filhos, é normal! Em Irará, também se diz assim: “Você tá me chamando de veado ? Por que Bicho? Eu não sou homem mesmo, não. Meu pai ainda não morreu, como é que eu posso ser homem ?” Quer dizer, isso é mitologia grega, não sei de que maneira foi parar em Irará. Mas foi.”
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Tom Zé em entrevista a revista Caros Amigos -nº 31 de Outubro de 1999 pag. 29

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Zé Nogueira, digo Zé de Aristide, me disse que quando Valter, Titino de Cassinho, lhe falou sobre Roberto Martins que gostava de tomar licor na sua casa (de Zé), ele achou estranho. Pensativo Zé dizia matutar, matutar, mas não se lembrava de nenhum Roberto com aquele sobrenome. Curioso, Zé meditava consigo: “será que é parente de João Martins? ou de Marcílio, dos Martins de Joy e Virgílio?”. Mas mesmo assim Zé não se lembrava de nenhum Roberto nessas famílias. Até que por um lapso ele percebeu: “Ah! É Ró de Zé do Rádio.”
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Zé Carlos (Kakal dos Pinto) e eu, certa feita abordávamos sobre este fato de em Irará os nossos nomes estarem sempre ligadas aos nomes dos nossos pais e/ou familiares. Em hipótese alguma, era vergonha estar relacionado ao nome deles, porém ideal seria que fossemos reconhecidos pelas nossas ações. O que para Kakal, só aconteceria quando fossemos independentes financeiramente. Lembro-me que nessa conversa foi exemplificado o caso de Eloi, que quando tomava umas cervejas no Chalé, tinha a sua conta encabeçada pelo titulo: “Filho de Nôca”.
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Essa lista de discussão é aberta a todos os iraraenses e simpatizantes. E por este motivo aqui podem transitar diversas pessoas; os que saíram de Irará há muitos anos, os que moram lá, os que pouco conhecem a cidade, e até mesmo quem só foi lá uma única vez. Isto denota dizer que aqui na lista o “sobrenome” (nome do pai) tem pouca relevância, mas no mundo real, e ainda mais se for em Irará...
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Vânia Medeiros (não sei o nome do pai dela) ao descobrir que Alex Rolim, colega de hospício** aqui da FaCom, era natural de Irará, logo lhe perguntou: “e lá, você é Alex de quem? Ele respondeu: “Alex de Vanda”. Aliás não fosse essa identificação, talvez Rui de Berada, demorasse um pouco a recordar de seu primo Alex, quando contei-lhe ser este último meu colega de faculdade.
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Ser conhecido com o nome do pai por vezes marca tanto, que a identificação de cada herdeiro vai se tornando mais longa. Como podemos notar na família de Sr. Zé de Cândido, que agregou o nome do pai e isso continuou com seus filhos. Assim conhecemos Leo de Zé de Cândido. Imaginem como será conhecido o filho de Leo.
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As vezes penso como as pessoas devem comentar sobre este grupo: “É uma lista formada por: Leo de Maica, Luciano de Rege, Vítor de Raimundo, Tais de Dilson, Bruno de Zé Mamão, Ró de Zé do Carneiro, Débora de Jarinho, Matilde de Mário Costa, e muitos outros de alguém”. Portanto em Irará, é difícil ser de ninguém, mas isso não implica dizer que a pessoa também não seja alguém enquanto os seus pais ainda se fazem presentes.
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* Escrito no verão 2002-2003 e enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br
** Colega de Hospício é uma expressão usada por Milton Severiano na sua coluna “Enfermaria” da Revista Caros Amigos, para designar jornalistas e outros pensadores.

16.4.07

Um ano de Blog

Esse blog está completando um ano. Durante estas últimas quatro estações, ele alternou entre períodos com maior movimentação e alguns com certo marasmo. A exemplo desses últimos 30 dias.
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No mais, são 70 posts (mais q um por semana como foi pensado), com a quase totalidade deles (exceção de dois ou três) de autoria própria. Aqui teve notícias, crônicas, ficção (não tão ficcional assim, rs, rs, rs), relatos... enfim. Textos que esboçam uma visão pessoal sobre diversos assuntos.
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Por isso o Blog tem nome próprio. Aqui vai ao ar a opinião de quem o mantém. É colunismo. E não jornalismo. Embora às vezes, pareça ser mais do que alguns veículos que se pretendem jornalísticos.
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Houveram textos aqui postados para os quais a receptividade parece ter sido maior. Entre eles, “Muito peido pra pouca obra”, “Jeguerê: um arrastão campeão” e as “Brevitas bravatas” – eleições e São João. Isso mensurado pelas conversas e elogios feitos pessoalmente e também pelos comentários.
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Sim! Isso. Os comentários. Teve post que chegou a ter até 6 (seis) comentários... Bob Fernandes, Noblat e Fernando Rodrigues que me esperem, estou a caminho de chegar às centenas como no blog deles!
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Flash-back pra comemorar
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É justamente essa marca de um ano que dá fôlego e esperanças para perspectivas futuras. Tal longevidade não estava prevista quando essa brincadeira começou, mas já que ela tá boa, a intenção é continuá-la. Infelizmente só não vai dá pra ser agora.
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Obrigações e mais obrigações, impediram a postagem de conteúdos novos por aqui. E pelo visto, vão continuar atravancando a pauta por mais um tempinho... Porém, para não deixar o caro leitor desamparado, vou lançar mão de uma idéia, para a qual Patrícia e Leone me alertaram.
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Vai rolar aqui uns tempos de “flash-backs”. Ou seja, enquanto não estiver disponível para novos conteúdos, vou postar textos antigos. “Erles” foram escritos e enviados para uma velha lista de e-mails chamada de “iraraense” (iraraense@yahoogrupos.com.br). Veículo ainda existente, entretanto mais movimentado nos tempos em que não existia o Orkut e nem esse blog.
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Em homenagem à irmã e ao amigo, citados acima, e para comemorar um ano do Blog, “Fulano de Sicrano” deve ser o primeiro texto a aparecer daqui a uns dias. Aguardem e obrigado a todos!!!
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11.3.07

Alô câmbio! Olha o cambista

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No ingresso vendido na bilheteria estava escrito: “ATENÇÃO: Evite a ação dos cambistas. Venda Proibida”. Outros, nas mãos dos próprios cambistas, além desta informação, continham um carimbo: “CONVITE: Proibida a venda”.
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Em meio a advertências e proibições os cambistas seguiam livremente fazendo seu trabalho, nas proximidades do Teatro Castro Alves (TCA) em Salvador, num dado fim de semana de dezembro passado.
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“Ingresso, ingresso, Vander Lee, Cordel do Fogo Encantado”. Esse era o grito que mais se ouvia, naquela tarde de sábado. Um chamado feito a qualquer um transeunte em direção à Concha Acústica do TCA.
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Mal se descia do ônibus e eles já estavam lá. Ladainha exaustivamente repetida para chamar a atenção dos potenciais fregueses.
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Como se percebe, apesar de verbalmente proibidos ou indesejados pelos produtores de eventos, os cambistas, em bom número, transitam com desenvoltura na Praça do Campo Grande. Um leve descuido e pode-se tropeçar num deles quando se vai entrar no hall das bilheterias do Teatro.
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Tênis, calça tec-tell e camisa xadrez, usada por fora, um dos cambistas está em busca de consumidores. Abaixo do boné e por trás dos óculos redondos, figura uma aparência de pouco mais de 50 anos.
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Olhos de águia, em busca de possíveis freqüentadores de shows, lá vai Crispim (nome fictício - no meu entender o mais adequado para o cidadão). Chego próximo e pergunto o valor do ingresso.
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- É dez reais.
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- Você está vendendo pelo mesmo preço da bilheteria - Comento.
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- É, - responde Crispim, para complementar depois – mas comprando em minha mão, você não vai precisar comprar o livro, que o cara tá ali vendendo por três. Ele pode até te fazer dois, mas aí o ingresso vai ficar por doze.
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O cambista se referia há um vendedor de livros usados e antigos módulos de pré-vestibular, comercializados na entrada das bilheterias do Teatro. Como é um show em benefício de uma causa social, pede-se que as pessoas doem livros ao comprarem seus ingressos no guichê.
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Neste tipo de evento, o ritual começa em casa. Procura-se por aquele velho modulo, o livro didático da quarta série, ou qualquer outro que julguemos sem serventia.
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Assim apreendemos e assim continuamos. Damos o que já não nos serve mais. O lixo. Campanhas de troca de ingressos por livros são fantásticas, além de fazer sobrar espaço na nossa lixeira, nos deixa com o “sentimento de culpa aliviado”.
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Calma. Não condeno de todo as campanhas de doação de livro. Não é por aí. Os livros realmente hão de ser útil a alguém. E, claro, melhor livro na mão de pessoas do que servindo de entulho. Ademais, os que não forem de muita serventia para uso, espero ao menos que sigam para a reciclagem e um dia se transformem em livros novos, com custo menor do que o habitual.
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Mas, voltemos ao Crispim e a sua labuta. Passa o freguês e ele faz o chamado:
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- Ingresso, Vander Lee!
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- Quanto é mermão!? – Indaga o rapaz.
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- Lá você vai pagar trinta, eu te vendo por vinte e cinco (abaixo da bilheteria! Isso que é promoção).
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O cidadão com gel no cabelo e camisa “mamãe quero ser forte” se interessa pela proposta. Faz uma cara de surpresa, olha para um lado, para o outro, dá uma choradinha...
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- Faço vinte! Pra você nem ir lá. – fala Crispim, como quem dá a última palavra, para depois se referir à bilheteria.
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- Esse ingresso é verdadeiro mesmo? – questiona o freguês.
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- Ohhhhh! Que é isso!? Aí é qualidade. Eu trabalho é com ingresso! – Sentencia o cambista, com ênfase no “ingresso” tentando demonstrar experiência na atividade.
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- O problema não é ser falso. O problema é você me enganar. Se você me enganar... aí é que vai ser problema...
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Chorou, balançou, mas acabou comprando o ingresso na mão do cambista. Pelo dialogo pensei ser o “playboy”, um policial a paisana. Têm muitos deles que gostam de arrumar uma confusãosinha para depois demonstrar sua autoridade. Mais um pouquinho e, quem sabe, teríamos ouvido o clássico: “sabe com quem está falando?”.
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O cidadão vai embora e a vida do cambista continua. Anuncia o seu produto. Vem de lá duas sirigaitas bem vestidas. Queixo empinado, passam e fazem de conta que não é com elas. Vai ver, pensam que cambista não é gente.
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Pois é. Tem gente que nutre um ódio mortal aos cambistas. Considera-os aproveitadores e culpados por esgotar os ingressos da bilheteria para especular preços depois.
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Já vi gente que chegou ao espetáculo após o encerramento do guichê e pouco antes do inicio da peça teatral achou uma excelente oferta pelo ingresso, mas acabou recusando. Motivo? O bilhete era vendido por um cambista. Só por isso.
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“Uns aproveitadores. Isso é que eles são. Tem show que eles botam o preço lá em cima”. Não adianta nem afirmar que agindo assim o cambista está obedecendo a Lei da Oferta e da Procura. A antipatia está formada.
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"Show de Solidariedade"
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Pode ser ilegal. Pode ter muita gente que deteste. Entretanto, seria difícil a vida do freqüentador dos eventos do Projeto Sua Nota é um Show se não fossem os cambistas.
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O Projeto do Governo da Bahia visa criar incentivo para que as pessoas peçam notas fiscais nas suas compras e serviços (combatendo a sonegação de impostos) para depois troca-las por ingressos de shows ou partidas de futebol.
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Até ai tudo lindo e maravilhoso. O problema é na hora que o consumidor (já nem chamam mais de cidadão) vai trocar as notas.
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Para falar disso, peço ajuda aos universitários:
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“No dia de troca para o show de Maria Bethânia, cheguei por volta das seis e meia da manhã. Sequer conseguir entrar nas dependências da Fonte Nova: o portão já estava fechado e já haviam sido distribuídas 2.200 senhas, segundo responsável da Sefaz. Um caracol de candidatos à troca. Formara-se outra fila do lado de fora do portão... No lado de dentro, muitos relataram ter chegado na noite anterior e, como em todas as vezes que participei da troca, os cambistas estavam entre estes.”
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O trecho acima é oriundo da Monografia de Conclusão da Graduação em Ciência Sociais de Cibele Nunes da Silva Santos (UFBA: 2004). No texto de “A nota do Show” aparecem também problemas como as pessoas entrando na fila várias vezes depois de pegar ingresso e outros sentados em papelões, “guardando” lugar na fila.
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“É como se algumas hordas de moradores de rua, por ocasião da troca, encontrassem uma forma de se inserir, episodicamente, no mercado de prestação de serviços.” Diz o trabalho de Cibele.
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Agora, vamos agradecer a “intervenção” da menina de CiSo e retomemos a nossa discussão. Se conseguir ingresso para os shows do Projeto do Governo tem lá suas dificuldades, então podemos deduzir que os cambistas dão um “show de solidariedade”.
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Sim. Porque são eles que vão lá buscar os ingressos para vender “aos bacanas” na hora e na porta do show. Mas, aí cabe um porém. É só lembrar da argumentação de que a venda destes ingressos é proibida.
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Alguém me relatou conhecer uma pessoa que foi abordada por um policial quando comprava ingresso do Sua Nota é um Show na mão de um cambista. A julgar pelo movimento na frente da Concha nos dias de show, penso que este ser deveria jogar na loteria de vez em quando...
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A troca de ingressos e o acesso aos mesmos para o Projeto Sua Nota é um Show é um dos problemas que o novo Governo da Bahia vai precisar resolver. Será que alguém já pensou na idéia de colocar postos de troca em pontos como colégios, shoppings, praças ou até mesmo nas casas de espetáculos?
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Mas deixa isso para depois. Voltemos aos cambistas. Agora eles estão brigando por um cliente. “Eu já falei com ele”. Grita um dos dois. “Se saia meu irmão!” Responde o outro. Na disputa, parece leilão, os lances de ofertas começam a aparecer. O movimento na porta do Teatro é animador.
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Dias de lucro. Dias de prejuízo. Vai que chove e perde todos os ingressos? Vai que o show bomba e vende pelo olho da cara? Riscos como em muitas profissões. E cambista é profissão?
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Mesmo proibido nos bilhetes e, “ao que parece”, na lei, eles seguem trabalhando, como uma espécie de promotores do câmbio negro dos ingressos. Câmbio flutuante entre a oferta e a procura.
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Trabalham assim. Sem carteira assinada, sendo eles mesmos o documento comprobatório de que algumas coisas no Brasil, apesar de proibidas, funcionam tranquilamente. Acho que amanhã vai dá macaco. O chefe da policia avisa pelo rádio. Câmbio e desligo!

6.3.07

Chuvas Esquecidas

A água jorrando das nuvens. Belo. Magnífico espetáculo da natureza. Às vezes a chuva chateia. Às vezes, fico contemplando...
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Chuva! Tão esperada no sertão. Tão temida nas encostas das cidades. Lembrada em alguns momentos, esquecida noutros.
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Não sei se essa “veborragia” tem a ver com a exposição de Ingrid Klinkby, mas pelo que conheço do trabalho da moça acho que vale a pena conferir. Ainda mais quando as “Chuvas Esquecidas” vão “cair” em Cachoeira.
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Veja o trabalho de Ingrid na Internet

2.3.07

Nepotismo: será o fim da novela?

Publicado no último dia 24 de Fevereiro de 2007, O Decreto de Nº 2101, “exonera a partir de 28 de fevereiro” os cargos que “configurem nepotismo” na Prefeitura Municipal de Irará. Irmãos e esposa do Prefeito são algumas das pessoas afastadas com a medida.
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A prática do nepotismo foi assunto recorrente em Irará. O fato teve direito a idas e vindas de projetos na Câmara Municipal. Quem acompanha este Blog já leu aqui alguns outros capítulos dessa novela. Será este mais um ou o último?
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Veja o Decreto abaixo. Para ler o texto e conferir a relação das pessoas afastadas é só clicar na imagem.


25.2.07

O Zeca de Magalhães que eu conheci

Foi assim rápido e inesperado. O primeiro e-mail informava que Zeca de Magalhães tentava consertar uma goteira no telhado de sua casa. Caiu, bateu a cabeça, deu traumatismo craniano, estava no hospital em coma. Dias depois, o segundo e-mail fez acabar as nossas esperanças. Zeca não mais habita o mundo dos mortais.

Zeca: "Pensador"


Conheci Kzé, como também era chamado, no Colóquio de Literatura Popular, no mês de novembro do ano passado. Durante a pré-produção do evento, eu procurava um palestrante que falasse de poesia sem academicismos, na linguagem do povo.
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Gustavo Felicíssimo me mandou uma lista de poetas, os quais poderiam falar da Poesia Marginal. Vi o nome de Zeca lá. Lembrei que Vânia Medeiros trabalhava com ele no CRIA (Centro de Referencia da Infância e Adolescência) e fiz contato com ela.
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“Ró, Zeca é maravilhoso. É o cara que você tá procurando”, disse Medeiros. Confesso que achei que Vânia exagerava, mas mesmo assim liguei para o Zeca.
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Tivemos um contato rápido e ele demonstrou bastante interesse em se fazer presente ao evento. Não fez nenhuma exigência, depois me enviou cordéis do CRIA. Fui até a sede da ONG conversar com ele. Lá, fui recebido com bastante cordialidade. Zeca quis saber do Colóquio, deu idéias e ainda sugeriu nomes para ocupar a vaga de outro companheiro que, de última hora, não poderia estar presente. “Quero participar do evento todo, não só no dia da palestra”, me disse ele.

Recitando poema no Vinhos & Versos

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Em Irará, gostou muito do Vinhos & Versos. Observou e recitou poesias de sua autoria. No sábado, chegou cedo na feira-livre, trazia uma banquinha de cordéis. Mais do que assistir a apresentação dos repentistas, como havia combinado, queria “participar do evento”. A tarde não foi diferente. Assistiu a oficina de cordel de Gutenberg e observou a xilogravura sendo ensinada por Gabriel Arcanjo.

Vendendo cordeis na Feira-Livre

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Ao final das oficinas na Casa da Cultura, tivemos um pequeno bate-papo na descida até a sede da Filarmônica. Zeca queria saber onde seria a palestra da noite. Neste pequeno caminho ele contou a mim e a Marcílio um pouco das peripécias da sua vida.
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Foi muito interessante ouvir o relato daquele carioca que devido a uma desilusão amorosa, viveu literalmente o que tem naquela canção do Barão Vermelho. Ou seja, viajou a pé do Rio a Salvador.
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“Comprei uma lata de “Grand Prix” e encerava caminhões nos postos de combustíveis”. Relatou Zeca para demonstrar como conseguia dinheiro para se alimentar, nos vários dias da viagem em que, por algumas vezes, pernoitou no mato, debaixo da chuva, no seu saco de dormir.
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À noite, no horário combinado, Zeca estava na sede da Filarmônica 25 de Dezembro para a palestra. Gustavo Felicíssimo era o outro conferencista.
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Gustavo falou primeiro e abordou uma espécie de conhecimento para poder se trabalhar com poesia. Zeca olhava para Gustavo e fazia suas anotações. Chegou sua vez de falar. Foi de encontro a algumas das considerações de Felicíssimo. Falou simples, na linguagem do povo. Se fez entendível para aquele pequeno público presente. Abordou não só a poesia, mas a cultura, a vida e os sentidos da mesma.

Um bom debate com Felicíssimo (de amarelo)
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Ouviu muitos comentários positivos com relação às suas falas. Lembrando do momento em que Zeca discorreu sobre os vícios da academia, Edma Oliveira aproveitou para fazer uma constatação: “Zeca você é muito inteligente, se você tivesse o curso universitário, nem sei onde você estaria”, disse a professora para frisar que alguns só valorizam quem tem o diploma.
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Vendo todos empolgados com Zeca, eu já não achava que Vânia tinha super-valorizado o seu amigo. Pelo contrário, acreditava agora que minha colega havia sido modesta, porque a satisfação do público para com o palestrante foi muito maior do que eu poderia prever.
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No domingo, encontrei Zeca de Magalhães pela manhã, lá na Pousada de Dona Emília. Ele havia acordado há pouco tempo. Depois foi à Casa da Cultura e gravou entrevista para o vídeo do evento com Daniel Cortês, Mateus Damasceno e Bruno Buke. Deu aula abordando a resistência da cultura popular perante a cultura massiva. Na seqüência, tentei levar Zeca até a casa do amigo Zé Nogueira, mas fomos impossibilitados pelo avançar da hora.
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“Não se preocupe Robertinho; gostei de Irará. Achei muito interessante a cidade, as pessoas, a feira-livre daqui. Um final de semana desses, eu volto e trago minha esposa. Ela está precisando sair para espairecer. Perdemos um filho há pouco tempo em um acidente automobilístico, ela está muito deprimida”, me relatou Zeca de Magalhães preocupado com sua companheira. Ele ainda avaliou que seria bom ela trocar idéias com Nogueira, pois, assim como ela, Zé trabalha com artesanato e faz oratórios em miniaturas.
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À tarde, na hora da despedida Zeca me sugeriu uma idéia. “Vamos colocar Irará no projeto Ser-tão Brasil!”. Gostei da sugestão. Ele me falou que poderíamos criar uma representação através da Casa da Cultura. E já em 2007 entraríamos como cidade convidada. Uma excelente proposta para os iraraenses se integrarem a este movimento que a cada ano une, numa cidade sede diferente, a arte e a poesia de onze municípios do interior baiano, escolas e representações de mais de vinte bairros de Salvador e da RMS.
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Outro dia, vou subindo a ladeira em direção a Biblioteca Central do Estado, nos Barris, quando ouço um chamado. “Robertinho Irará!”. Era Zeca visual um pouco modificado devido a barba, mais crescida com relação ao dia do Colóquio. Parei para falar com ele. Brevemente me contou seus planos de mudança para Cachoeira, de montar uma livraria lá. Sua filha passou no vestibular para a Federal do Recôncavo e ele pensava em fixar residência no interior.
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Conversa prazerosa. Lembramos de projetos a serem feitos. Fiquei de procurá-lo para ver a idéia do Ser-tão. Idéias, planos, vivencias... Tudo abruptamente interrompido. Por uma goteira. Uma queda. Uma morte estúpida. Fatalidade humana, cujo sentido relutamos em compreender, sobretudo quando se parte ainda jovem de modo totalmente inesperado.
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Daquele último bate-papo, fica a lembrança do sorriso e do sotaque de alguém que acreditava na vida. Foram poucos encontros, poucas conversas, mas, ainda assim foi possível aprender algo com aquele poeta.
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José Narciso de Magalhães Carvalho de Moraes Filho era mais do que um dos poetas na praça, agitadores da Praça da Piedade nos anos 1970/80. Mais do que um nome da Poesia Marginal. Mais do que um produtor cultural. Zeca, pelo que pude perceber, foi um guerreiro em prol da cultura. Um humanista. Captei essa mensagem no Zeca que conheci. O “tempo” nos tirou a oportunidade de conhecê-lo mais.
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Fotos:

Vinhos & Versos - Emerson Nogueira

Outras - Daniel Cortês, Bruno Buke, Mateus Damasceno - não necessáriamente nessa ordem, ou nessa composição.

20.2.07

Era uma vez...

...duas grandes árvores na Praça da Bandeira (Jardim do Coreto) em Irará.









* Cliques feitos em 25 de janeiro de 2007.



16.2.07

Salvador Negroamor: imagens do verão

A exposição Salvador Negroamor com certeza está entre as imagens marcantes do verão soteropolitano. São 1.501 painéis expostos ao ar livre por toda parte da capital baiana. O destaque das imagens são pessoas do dia a dia da cidade de Salvador e de Angola.


Painel na esquina da Av. Ademar de Barros com Av. Oceânica

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Vendedores ambulantes, cobradores de ônibus, transeuntes do cotidiano da cidade, entre outros, configuram os “anônimos” apresentados na mostra. Claro, pessoas com nome e identidade, apesar da mídia parecer não considerar assim. Daí, as aspas.
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É notório que para se fazer a exposição e seus painéis gigantescos nos prédios, outdoors, fotografias em postes, entre outros mídias, gasta-se muito dinheiro. O projeto captou cerca de R$ 2 milhões via Lei Rouanet. Fato que tem gerado questionamentos e algumas polêmicas em torno da mostra.
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Discussões à parte, a repercussão da exposição também encontra espaço para comentários sobre o seu sentido e impacto social. Entre eles, os dos próprios fotografados. "Quando fui ver a foto da minha filha, na Linha Verde, fiquei parada, muda, sabe por quê? Estamos vendo a revolução dos humilhados", diz a dona de casa Hilda Almeida dos Santos, 48 anos, em entrevista para a reportagem do A Tarde On–line.
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Postes foram usados como suporte em quase toda a cidade
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Elevar a auto-estima destas pessoas é outro ponto defendido na exposição. Em entrevista ao programa Soteropolis, que vai ao ar pela TVE-Bahia, Sérgio Guerra, fotografo e produtor da exposição, também defendeu esta idéia.
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Numa outra entrevista para o jornal Correio da Bahia, Guerra vai além: “Quando olho para Salvador, vejo uma cidade dividida, preconceituosa e muitas vezes racista. O conceito de cidade alta e cidade baixa aqui é literal”, desabafa.
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É bom lembrar que Salvador Negroamor não se resume à mostra fotográfica. O projeto também compreende a produção de um CD, o edição de um livro e a fundação de uma ONG, a qual já criou uma escola para alfabetizar adultos na Feira de São Joaquim.
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“A Riqueza” - prima pobre
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De todos os argumentos, contra ou a favor, da exposição Salvador Negroamor, um me incomoda. Especificamente o comentário de alguns analistas sobre o “ineditismo da idéia de evidenciar pessoas “anônimas”” – olhe as aspar de novo.
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A mesma abordagem foi feita pela exposição a “Riqueza de Irará”, realizada pela Casa da Cultura de Irará em janeiro de 2005, dois anos antes de Salvador Negroamor. E, quem sabe, neste imenso Brasil, outros já tenham tentado fazer o mesmo sem sucesso.
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O diferencial é que na mostra realizada em Irará, não houve leis e, quase, nenhum outro tipo de incentivo. E, sem a magnitude da prima soteropolitana, a exposição iraraense não atingiu o grande público ou mobilizou a cidade.
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No entanto, o pouco destaque atingido pela mostra iraraense fez cumprir o seu objetivo. Ou seja, mostrar que pessoas são o maior patrimônio. E a maior riqueza de um lugar são as pessoas que o compõe. Prerrogativa que também marca Salvador Negroamor ao chamar atenção para a riqueza da capital baiana e de Angola.
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- visite portal do projeto Salvador Negroamor: www.salvadornegroamor.org
- leia abaixo texto publicado na época sobre a exposição “A Riqueza de Irará”.
Fotos de Shirley Stolze "tomadas de empréstimo" no site do Salvador Negroamor

Reconhecimento da própria fortuna

Mostra fotográfica surpreende fotografados
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- texto escrito e enviado para grupo iraraense (iraraense@yahoogrupos.com.br ) em fevereiro de 2005 -
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A Casa da Cultura de Irará realizou no sábado, dia 29 de janeiro, a segunda mostra fotográfica do mandato atual. Com imagens captadas por Zé Falcón, estudante de jornalismo na Universidade Federal da Bahia – UFBA, a mostra pretendia chamar a atenção da população iraraense para a beleza que existe “escondida” no dia a dia da comunidade.


Cartaz da Exposição mostra foto de transeunte da Feira Livre

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O titulo, “A Riqueza de Irará”, foi inspirado no pensamento de Edimário Duplat. Estudante do curso de Produção em Comunicação e Cultura da mesma Universidade. Edimário, quando conheceu Irará em julho de 2003, afirmou que “o maior patrimônio de Irará são as pessoas” e diante da própria afirmação se questionava: “O que faz essa gente ser assim? É a água?”. Seja pela água ou pelo fogo abrasador de quem é “nascido da luz do sol” (1), o certo é que a revelação reflete a riqueza de um de povo que parecia estar se descobrindo.

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Açougueiro admirado com própria imagem

Fotos expostas nas paredes, olhos brilhando nas faces. Para alguns, era difícil se imaginar retratados em reproduções, digamos... artísticas. D. Andreza, vendedora da barraca de sandálias na feira de Irará, confessou: “Eu já tirei muitas fotos rindo, mas nunca com um sorriso assim”. Emoção mesmo sentiu o açougueiro, apontando em estado de contemplação para sua imagem. Saiu, voltou, trouxe amigos para ver. O mesmo se deu com a senhora que vende mangaba.
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A jovem grávida exclamou, “aqui!”. Na foto, o policial alisava o seu ventre aguardando um próximo rico iraranese. A menina do caldo de cana e sua mãe concederam entrevista para a TV Subaé. Depois de se reconhecerem em fotografias, identificar-se-iam no vídeo, via jornalismo televisivo de Feira de Santana. A TV reportou, cartazes, “mosquitinhos”, “boca a boca”, ainda assim, nem todos ficaram sabendo do evento. Talvez por isso, não foram se ver retratados. Outros, como o moço que teve sua imagem publicada no cartaz, ouviram dizer por terceiros. “Ele é meu sobrinho, vou contar pra ele”, disse a tia do “modelo”. Teve quem saísse sem nada comentar. E para alguns, aquilo tudo era estranho.
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“Eles tiraram fotos até dos feirantes”. Pobre senhora, nem percebeu na sua afirmação a discriminação arraigada na sociedade brasileira há séculos. Aquela de que gente só são os nobres, políticos, celebridades, os VIPs (do inglês, very important person). Pessoas importantes mesmo, são eles. Os construtores do município, aqueles que fazem o dia a dia e movem a economia e a vida local. Quem sabe já com esta percepção, a funcionária da limpeza pública municipal questionou: “Por que não faz uma com os garis também?”. “Boa idéia”, respondeu Roberto Martins, presidente da Casa da Cultura, certificando seu pensamento de que uma verdadeira política cultural deve mexer ai, na auto-estima das pessoas. Assim eles se sentirão gente, povo, nação, edificando a sua identidade.
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Noção de política pública não pura e simplesmente apaixonada, mas já com a sua dose de racionalismo. Admitindo a não rejeição do pensamento vigente, mas pensando em maneiras de como usufruí-lo para depois nega-lo. Sendo assim, nada de mais estando em pleno circuito festivo, colocar um bar na exposição. Isso permitiu o seu parcial funcionamento durante a noite, visto que as fotos maiores permaneceram nas paredes e possibilitou sua visão até para aqueles que não se importavam em ver a Mostra Fotográfica. “Isso aqui não é exposição não. Isso aqui é um bar. Só que botaram esse negocio ai”. Explicou um popular em plena festa, não percebendo a riqueza de Irará e ficando um pouco mais pobre.
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Com uma exposição que mostrava as pessoas de Irará em meio à maior festa popular do município, a festa da padroeira, a Casa da Cultura realizou mais uma etapa de sua atividade. Gratos a todos que contribuíram. Sr. Raimundo Ribeiro pelo espaço, Viva Irará pelas esteiras, Casa do Artesão pelos potes e especialmente ao camarada Zé Falcón. Ele é desses que, como diria o conterrâneo Tom Zé, nasceu com defeito de fabricação e acredita que se apresentarmos a este povo a sua própria fortuna, pode começar a “nascer Jesus Cristo e Fidel Castro pra todo lado”.
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(1) Existe um quase consenso popular de que “Irará” em linguagem indígena quer dizer: nascido ou criado da luz do sol ou do dia. No entanto há dicionários de línguas indígenas a classificar “Irará” como animal mamífero que gosta de se alimentar de mel. Existem outras versões populares para o significado do nome da cidade.

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Texto do Cartaz:

"É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana"*

As pessoas. O povo. Na feira, nas ruas, no seu trabalho diário. Os indivíduos que constroem o Irará de cada dia. Alguns deles, sempre vemos, mas não sabemos nome, ou mesmo onde moram. Estas personalidades, e todas as outras não captadas pela lente de Zé Falcón, cada uma a seu modo, fazem este município ser o que é. Elas são o nosso maior patrimônio. A riqueza de Irará.

* Aspas de Carlos Drummond de Andrade.

19.1.07

Uma onda pra bater além da praia

Clima de verão na capital da Bahia. Salvador é sol e mar. E por falar em mar, é bom lembrar que as “ondas vêm e vão com o tempo”, como diria a canção. No noticiário, a moda do momento volta a ser o nepotismo.
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O assunto foi destaque nas edições do A TARDE de quarta 17/01 e de quinta 18/01. As reportagens publicadas pelo diário informam sobre dois inquéritos civis instaurados pelo Ministério Público para averiguar a prática de nepotismo na Prefeitura e na Câmara Municipal de Salvador.
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Se a onda pega, podem começar a investigar nepotismos em todo o canto. Em tempos de marés revoltosas, a ondas podem ir além da praia. Será que chegam ao interior?
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16.1.07

O bom, o mau, o feio e a fotografia digital

Há filosofias defensoras de que os contrários sustentam o mundo. A dialética, a disputa entre forças opostas, a necessidade do conflito. O equilíbrio seria a chave para o viver melhor. Imagine um mundo sem contrários. Sem oposição entre bom e mau, entre feio e bonito, por exemplo.
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Até para poder servir de referência o contrário deve existir. “O que seria do azul se não existisse o amarelo?”, pergunta a velha frase. Sem o ruim, diante do que iríamos comparar o bom para saber se é bom mesmo? Estava pensando no uso da fotografia digital e acabei esbarrando nessas idéias...
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Sim. Porque na fotografia de hoje, corremos o risco de acabar com o feio, o inesperado, e também o “pêgo de surpresa”. Até mesmo naqueles aniversários familiares, regados a cerveja e carne na brasa, onde a fotografia sempre flagrava um com a boca toda suja de farinha.
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Agora é diferente. “Tira a foto!”. Logo o “fotógrafo” diz: “Ficou bom não. Vou deletar e fazer de novo. Perái! Agora sim, ficou legal!”. O “legal” quer dizer sem falhas, sem erros. E os “erros” que conseguirem passar na hora do clique, com certeza não escaparão a impressão. E se tiver photoshop, aí que eles não passam mesmo.
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Que fotos teremos para a posteridade? Tudo certo, sem erros? Não sei. Só sei que as fotografias documentais não podem perder a graça de alguns dos seus equívocos. Principalmente as falhas imperceptíveis no momento, mas que no futuro estarão lá, para, quem sabe, re-afirmar as dualidades, possíveis motores da vida.

13.1.07

Devolução já!

Alguns carros circulam pelas ruas de Salvador com o adesivo da campanha: “Devolva meu Bahia”. A iniciativa tem sido incentivada por Mário Kertézs, ex-prefeito de Salvador e âncora da rádio Metrópole FM.
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Toda vez que vejo esta propaganda só me lembro de um jornalista amigo nosso. Ele fez a cobertura jornalística da prefeitura quando, o hoje “radialista”, Kertézs era prefeito. O cara, ao que parece, não conseguiu pegar o “Mário atrás do armário”, mas não perde a oportunidade de pegar no pé do rapaz.
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Quando pode, ele não deixa de dizer que na gestão de Mário a prefeitura da Capital baiana teria sofrido grandes desfalques. Certa feita, num seminário cujo objetivo era discutir mídia independente e credibilidade em veículos de comunicação, ele chegou a questionar a moral do Sr. Kertézs para dirigir programas jornalísticos.
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Não quero entrar no mérito da questão. No entanto, toda vez que vejo a propaganda pela “devolução do Bahia”, lembro do jornalista e penso num outro apelo publicitário, com necessidade de lançamento urgente.
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Afinal, já passou da hora de ser criada uma campanha para que políticos corruptos devolvam dinheiro aos cofres públicos. Sugiro até um slogan: “Devolva meu dinheiro, vagabundo, trambiqueiro. Já!”

Uma questão de fé coletiva

“É só juntar a minha fé com as fezes de vocês”. Assim disse um vereador, com relação as suas perspectivas, após ter sido eleito presidente da Câmara Legislativa de seu município.
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O fato, que me foi contado por uma fonte segura, aconteceu numa dada cidade do interior baiano. O relator do caso, por sua vez, não foi capaz de se lembrar o nome da cidade. Será que alguém pode nos ajudar?
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A percepção do observador/eleitor é que, no calor do seu discurso o vereador não lembrou que a palavra “fé” não flexiona, muito menos observou o trocadilho que esse aparente plural faz.
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Para alguns, está tudo em casa, já que “há políticos que só falam merda mesmo”. Só com a fé de todos para mudar isso.

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Veja uma explicação na net sobre o plural fé.

2.1.07

"Irará nada!" Na virada.

Virada de ano. Teve festa na roça, mas no centro da cidade, nada. Os foguetes, de particulares, que brindaram a chegada do ano foram bem tímidos.
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Uma senhora me disse que: “uma prefeitura tá de luto; a outra tá falida...”. Hei! Cidade com duas prefeituras??? Nunca vi. Mas, mesmo sem “cascata de fogos”, Irará “nada” na virada do ano.
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É melhor não ter foguetório. Porque é bom não desperdiçar dinheiro com fogos. Preferível gastar com água. Ainda mais nesse verão que promete ser de arrasar.
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Mas bem que podiam arranjar uma coisinha para o povo fazer na virada. Esperar até os primeiros acordes da charanga já próximo do sol nascer, é dose. E bota dose e copo nisso.
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Como costumava dizer um cidadão num certo palanque. “Tal lugar tem isso; não sei onde tem aquilo outro; e Irará... Nada!” Agora nada de braçada nesse mar-asmo. Eitha. Isso é que uma cidade onde a vida cultural “vai bem”. A lavagem vem aí, lá, lá, lá!

"Novo" presidente

O vereador Juarez (PFL) tomou posse no dia de ontem (01/01/2007), como presidente da Câmara de Vereadores de Irará, para o biênio 2007-2008. Ele assume o cargo após três mandatos consecutivos da vereadora Maria Bacelar (PRP).

Juarez chega a presidência da Casa, após vencer as eleições como candidato único. Antes, os nomes de Maria Barcelar e Josafá Ferreira (PT) haviam sido anunciados pela mídia local como prováveis postulantes ao cargo.

O “nome do consenso”, Juarez, está longe de ser um novato, pois, agora em seu quarto ou quinto mandato de vereador já teve a oportunidade ter ocupado o posto mais alto do legislativo na década passada.

Faces da mesma moeda?

As falas foram altamente cordiais. Tantos o ex-governador Paulo Souto (PFL), quanto o – agora – atual, Jaques Wagner (PT) rasgaram seda. Falaram do trabalho da transição. Da consciência democrática no processo, etc, etc.

Tudo como manda o figurino. Ou talvez o protocolo da posse. Discursos pontuados em nome da respeitabilidade democrática. Um pouco (só um pouco) diferente da campanha eleitoral.

Dentro deste mar de cordialidade, chamou atenção uma frase de Jaques Wagner: “Governo e oposição são duas faces de uma moeda chamada democracia”.

Lembrei então que este ditado também é usado pela “patuleia”, bem verdade que sem o adendo “democracia”, para dizer que político é tudo igual, com “poquinha” diferença. Torço para que os governos não sejam tão parecidos assim.