26.8.07

A tarefa de mobilizar


A Secult (Secretaria de Cultura da Bahia) vai realizar a II Conferência Estadual de Cultura. O evento, que acontece em Feira de Santana de 25 a 28 de outubro, tem como uma de suas finalidades discutir idéias e elaborar propostas, no intuito de subsidiar a construção de um plano de cultura para o Estado.
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O desejo da Secretaria é que a Conferência possa contar com a participação efetiva de todos os municípios baianos. Para isto, abriram-se vagas para a contratação de 30 Mobilizadores Culturais, os quais serão responsáveis por mobilizar o poder público e a sociedade civil organizada de cada cidade, incentivando-os a participar do processo.
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Topei o desafio. Entrei no site da Secult e me candidatei à vaga para o Território Portal do Sertão, formado por Feira de Santana e outros 16 municípios à sua volta, Irará incluso – é claro. Análise de currículo, entrevista e prova discursiva, fui selecionado! Logo em seguida, estávamos em Salvador para uma semana de treinamento.
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Aulas com técnicas para reuniões, palestras e apresentação. Em sete dias, posso falar com precisão, conheci gente de vários jeitos e lugares da Bahia. Diferenciados olhares, modos e sotaques de um Estado que, como já foi dito, é singular e plural. Muitos empolgados, alguns inseguros e todos conscientes do seu papel de organizar encontros municipais e depois territoriais de cultura, elegendo representantes para a Conferência.
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“Mobilizar”, essa agora é a nossa tarefa. Organizar e chamar as pessoas para pensar e discutir a cultura em seus municípios, nos seus territórios e no nosso estado. O tempo é curtíssimo e o trabalho imenso. Que Deus seja por nós!
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23.8.07

As visitas de governadores e seus feitos.

texto enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br em 20 de maio de 2005.
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Estive em Irará no último final de semana e o assunto em questão era a visita do governador Paulo Souto ao município na sexta-feira, 13. Cheguei no sábado e, desta forma, não pude presenciar as palavras de sua excelência. Todavia, tive breve conversa com alguns conhecidos que me relataram o "script" do evento.
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Em meio a um comentário e outro, terminei passando batido e não questionei o que Souto fora fazer em Irará. Agora, desculpando-me pela falha, informo que a minha porção dedutiva, relacionada às noticias publicadas em jornais locais, levam-me a crer que o Sr. Governador foi anunciar a reparação da rodovia BA 084 (Berimbau – Água Fria). Sinal de que os governantes querem estar mais próximos do povo, pois, antigamente eles só visitavam as bases eleitorais quando iam inaugurar obras, agora também vão anuncia-las.
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Se o costume pegar, as populações interioranas já podem ir agendando, mais ou menos, as datas em que os governantes estarão presentes. Isto porque algumas obras, mais especificamente estradas, parecem feitas com prazo de validade definido. Ou seja, o asfaltamento colocado é de tão ruim qualidade que com poucos anos sob a chuva e o trafego a buraqueira está de volta. Em alguns casos as obra rodoviárias parecem ter, "coincidentemente", o período de quase quatro anos. E de quatro em quatro anos, todo mudo sabe, tem copa do mundo e mais alguma coisa que não me lembro agora.
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Como a memória no momento me trai, melhor apelar para a reflexão e lembrando dos comentários, fico pensando de como deveriam ser e de como são as tais visitas de governadores.
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De como deveriam ser.
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As cidades geralmente possuem muitos problemas. Sendo uma cidade interiorana, acrescenta-se um, que é justamente o distanciamento do governo e do governante. De tal maneira, seria interessante se quando o poder executivo estadual visitasse uma cidade interior – por vezes isso só acontece uma vez no ano ou nem isso -, as autoridades locais promovessem um grande debate de idéias entre o governador e a sociedade civil organizada. Assim, a comunidade poderia apresentar as suas queixas, evidenciando todos os problemas existentes sob a esfera estadual, como os da saúde, da educação, de segurança, entre outros.
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De como são.
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Os governantes já vão de helicóptero. Além de a viagem ser mais rápida eles ainda evitam o enduro da rodovia. As visitas são curtas, pois na agenda do executivo existem dezenas de outros lugares a serem visitados. Enquanto a estrutura que se monta na cidade para recebe-los é digna de um enredo cinematográfico. As crianças ficam sem aula, para poder ver tão imponente autoridade. Um palanque seguro é montado na praça, pois serão muitos a querer subir, desde os adversários locais até os vários deputados, cada um reclamando para si a autoria da indicação da obra. E faixas de agradecimento estarão por toda a cidade, parecendo que o governador já fez de um tudo pelo município.
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"Um Governo que fizer tudo,
mas não fizer estradas, não
fez nada; ao passo que
um Governo que não fizer quase
nada, mas fizer estradas, fez tudo."
(Coronel Andreazza, em entrevista a um matutino)
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Encontrei a declaração acima num livro do Stanislaw Ponte Preta, ela iniciava o capitulo intitulado "Na terra do crioulo doido", que junto com "A máquina de fazer doido" (a televisão) e "FEBEAPÁ 3 (Festival de Besteiras que Assolam o País), formam a publicação de 1968. Uma feliz coincidência ler esta passagem justamente nesta semana. É, pode crer. Coincidências acontecem, algumas sinceras, outras nem tanto. E as empreiteiras agradecem.

5.8.07

Na rede: A militância política e cultural de Aristeu Nogueira

Já está disponível para download no site do CULT (Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura) da Faculdade de Comunicação da UFBA (Universidade Federal da Bahia) a monografia Aristeu Nogueira: A militância política e cultural de um comunista.
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O texto é fruto da pesquisa sobre a atividade militante de Aristeu Nogueira nos campos da política e da cultura. Entre episódios da história do Brasil e da Bahia, o leitor pode conhecer a participação deste grande homem público iraraense, desde sua entrada no movimento estudantil em 1938, a sua atuação no Partido Comunista, até seu papel de liderança na elaboração da Lei Orgânica do Município de Irará. No segmento cultural, o trabalho evidencia as iniciativas de Aristeu na fundação do CDC (Centro de Diversões e Cultura – 1942) e da CCI (Casa da Cultura de Irará – 1983).
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A monografia foi apresentada como Trabalho de Conclusão do Curso de Comunicação Social com habilitação em Produção de Comunicação e Cultura da Universidade Federal da Bahia. O texto sofreu críticas pertinentes e, juntamente com a pesquisa, foi elogiado pela banca que incentivou a continuação da pesquisa num possível projeto de mestrado e, quem sabe, uma posterior publicação.
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Particularmente fiquei muito feliz pelos comentários e principalmente por poder dá essa contribuição para a história e memória de Irará, valorizando a figura ilustre de Aristeu Nogueira.
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Para ter acesso ao texto em PDF clique aqui e procure por:
Santos, Marcos Roberto Martins dos. Aristeu Nogueira: A militância política e cultural de um comunista.

23.7.07

Outra chance para MM

Por Fernando Conceição*
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Publicado na Coluna Opinião na edição de 17 de janeiro de 2007 do jornal A TARDE
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Fora a patacoada de querer vender o Teatro Castro Alves por 30 moedas na gestão Waldir/Nilo Coelho (1987-1990), nada consta contra Márcio Meirelles (MM), o novo titular da Secretária de Cultura da Bahia. Não é ironia.
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A cultura, em todo lugar, é área estratégica desde que perdeu a inocência com o desenvolvimento capitalista. Com novos contornos adquiridos a partir da virada do século XX, tornou-se objeto de investimento, virou mercadoria. Confundida por Arte, presta-se à manipulação político-ideológicas de toda ordem, despindo-se da “aura” dos tempos românticos e quejandos, como observou Walter Benjamin (1892-1940).
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Simploriamente dita “o amálgama” que liga ou distingue indivíduos na sociedade, levando-os a compartilhar gostos, crenças, tradições, isto é, definindo identidades, a cultura também é arma poderosa. De combate ou subserviência.
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Entregue às mãos de arrivistas (aqui não falo de Paulo Guadenzi e seu séquito anterior, ele que entendia tanto de cultura como eu de mecatrônica), seu papel tem sido fortalecer e manter o status quo.
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É o que em larga medida acontece na Bahia/Brasil. A gestão cultural, invariavelmente, se dá à revelia daqueles produtores que resistem ao cabresto. É um negócio, no sentido comercial do termo, que vem enriquecendo os afortunados de sempre ou àqueles - empresários e artistas - admitidos na corte por competência ou em sua submissão. O espetáculo do Carnaval é o palco do puxa-saquismo que mais uma vez se repetirá, ontem como hoje.
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MM precisa romper com este circulo. Seu ex-chefe, José Carlos Capinam, quando no comando, frustou as expectativas do “governo da mudança”, derrubando parte da tese de Platão, de que a sociedade deveria ser comandada por filósofos e poetas. Na época, nada mudou e até piorou, a exemplo do fechamento do TCA depois que o plano de sua venda a empreiteiras foi frustrado.
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Dirigir-se ao interior do Estado, não apenas o Recôncavo, deveria ser uma tendência. Não como ato de cooptação partidária de políticos e agentes culturais, porque desta taboada estamos fartos.
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Valeria a pena MM chamar para uma conversa gente dos rincões, pessoas como Roberto “Irará” e Zé d`Abel. O primeiro tenta realizar sério trabalho no município do qual empresta o nome. O segundo, autodidata lá do sertão brabo do Raso da Catarina, há anos tem sido, para o bem ou para o mal, o mais importante produtor de eventos da região do norte, nas duas margens do Rio São Francisco.
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MM tem sorte. Wagner deu-lhe a quarta chance, depois de sua melancólica passagem anterior pelo poder. A terceira foi oferecida pela associação gestora do Teatro Vila Velha, que Meirelles com hábeis alianças a torto e à direita, recuperou e transformou em referência. A segunda e mais importante, deve a João Jorge Rodrigues, o putativo presidente do então bloco afro Olodum. Foi este que resgatou-o do limbo no qual foi largado pelos waldiristas, permitindo-lhe que montasse uma companhia de teatro que se tornou revelação nacional.
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A marca fortemente identificada com o capital simbólico da “cultura negro-mestiça” do Olodum, faz com que MM tribute a esses negros o cargo que ora ocupa. Embora tais negros e todo aquele capital permanecem no mesmo lugar de sempre: com poder esvaziado e com o saldo bancário em vermelho.
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* Fernando Conceição é jornalista, Doutor em Ciências da Comunicação pela USP e Professor da Facom-UFBA. Tem história de militância no movimento negro e quando da escrita deste artigo estava como professor visitante da Universidade de Berlim / e-mail: ferconc@ufba.br

16.7.07

A ética entre estéticas

Parece moda. Numa ou noutra temporada o noticiário vem carregado de fatos envolvendo fraudes e corrupção. Os telejornais começam como se fossem metralhadoras atirando aos quatro cantos uma carga de atrocidades. Da sua poltrona, o espectador, já acostumado a ouvir falar tanto de roubalheira, nem mais se assusta como deveria, ou ao menos, como seria esperado.
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É sintomático estarmos vivendo o efeito do que em jornalismo costuma-se chamar “Disfunção Narcótica”. Em outras palavras, diante um bombardeio de notícias de roubo, é como se o indivíduo ficasse sob efeito de algum narcótico e, assim “dopado”, não mais se indignasse com os atos arbitrários. De tal forma, o sentimento e a disposição com relação à boa conduta vão ficando em segundo plano.

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Rui Barbosa chegou a prever que de tanto ver triunfar as más ações o homem chegaria a rir da honrar e ter vergonha de ser honesto. A preocupação do jurista com o comportamento ético do ser humano parece alertar para um tempo de inversão de valores. As ações que antes seriam motivo de orgulho se transformariam em razão de vergonha. A ética então deixaria de ser uma prática e, ainda que fosse uma regra normativa por algum tempo, depois tenderia à completa desaparição.
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Sensações como orgulho ou vergonha, nós fazem perceber que a ética estar permeada de componentes estéticos. De tal modo, a prática ética é também um sentimento estético, do campo da sensibilidade do indivíduo. Entre outras assertivas, o receio da opinião pública ou a possibilidade de decepcionar pessoas do seu círculo de convivência é um dos principais motivos que impedem o “sujeito normal” de cometer uma atrocidade. É o popular “vergonha na cara” que, pelo visto, anda faltando a muita gente por aí.
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Herman Parret considera que: “justificamos o valor da prática humana, das relações intersubjetivas, da produção discursiva, apelando para categorias éticas que, por sua vez só podem ser legitimadas por categorias estéticas”
[1]. E mais adiante complementa: “É a categoria estética do sensu communis que nos serve de valoração legitimadora de toda a prática intersubjetiva da vida quotidiana”[2]. Este tal “sensu communis” aqui entendido, de acordo com a visão de Kant, como uma “capacidade de julgar que, em sua reflexão, considera (a priori) em nosso pensamento o modo como todas as outras pessoas representam uma determinada coisa”[3].
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Na busca pela “valoração legitimidadora” para os seus atos, o indivíduo tende a agir de forma similar aos outro sujeitos sociais, ou seja, priorizar “o modo como todas as outras pessoas representam”. Aí é que, para usar um termo do dito popular, a “porca torce o rabo”, pois, sendo um ser social, não é da natureza do homem viver isolado. E como ninguém quer “estar por fora”, tal o qual se diz na gíria, a intenção é fazer da mesma forma que todos os outros (sensu communis) fazem. Logo, o honesto se trans-forma no otário, aquele que “não soube aproveitar as oportunidades”.
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Assim, a inversão dos valores vai atuando desde a formação do pequeno cidadão. As crianças são estimuladas à competição, ao consumismo e ao uso de comportamentos dignos de reprovação. Não é difícil ver pais incentivando filhos a falarem palavrões para outras pessoas e depois rirem da sonoridade causada por um vocabulário em construção. Diante do riso coletivo, a criança sente aprovação geral (sensu comunnis) do ato e entende a sua fala como digna de elogio.
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Comportamento diferente teve a mãe que vangloriou um gesto nobre do filho. O fato da criança ter corrigido o troco errado de um caixa de supermercado foi motivo para que o menino tivesse ouvido sucessivos elogios da genitora entre as amigas dela. Em busca de novas “condecorações” diante de sua mãe (representação maior para uma criança) e do público (sensu communis), o garoto torcia pelo erro do troco toda vez que ia ao supermercado, somente para poder praticar a sua boa ação e ganhar elogios.
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Os casos descritos acima, são apenas exemplos simplórios de contribuições para a formação de valores pessoais. É correlato imaginar que a criança do segundo exemplo, diante de atitudes como a descrita, cresceria tendo a honestidade e a coerência como valores a serem perseguidos e admirados socialmente. Quando adulto teria por principio agir honestamente nas suas ações. Consequentemente teria dificuldades e sofreria muito para viver numa sociedade, onde os valores estão em processo de inversão.
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Entre outros, os valores estéticos apresentam-se com freqüência nesta rota invertida. Confundem-se entre o termo introduzido por Baumgarten para designar Estética como a “ciência (filosófica) da arte e do Belo”[4] e a nomenclatura com vista constante em letreiros anunciando centros de “beleza e estética”. O primeiro termo se apresenta como a “doutrina do conhecimento sensível”[5], estando ligado à sensibilidade apontada noutros pontos deste texto. O outro, diz respeito a beleza efêmera do mundo das aparências, do fugaz, da moda.
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É nesta segunda perspectiva estética que a ética têm aparecido no noticiário. Principalmente quando surgem com maior freqüência os casos sobre desvio de dinheiro público para beneficio particular. “Ética” passar a ser usada como a palavra da moda. Nos discursos políticos, nos programas de debates televisivos, no pátio da escola. De repente, todo mundo tem soluções mágicas e formulas prontas para o exercício da ética. No entanto, é na própria vivência do dia a dia que a mesma não é exercitada. O velho “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
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Se os indivíduos ainda pensam em solucionar problemas éticos, é preciso agir na própria sensibilidade. Para isso é importante o papel da família (como no exemplo descrito), da escola, do governo e da mídia, entre outros agentes sociais. É necessário ir na contra-mão da disfunção narcótica. Mostrar, valorizar e vangloriar práticas e comportamentos éticos. A intenção é que o indivíduo sinta prazer e orgulho de agir com responsabilidade para com outro. E que os “bons meninos” não tenha dificuldades para sobreviver.
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Pode até soar estranho falar em “Ética” neste momento em que as manchetes, diferente de outrora, estão um pouco escassas de escândalos políticos. Época em que o termo “Ética” não está na moda. Não obstante, a intenção é esta mesmo. Valer-se de um assunto “démode”, para ter possibilidade de falar ao sensível. Direto à sensibilidade e não a aparência efêmera.

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[1] PARRET, Herman. A estética da comunicação, p 187. Tradução de Roberto Pires de Oliveira. Ed: Unicamp. SP 1997.
[2] Idem
[3] Idem, p. 194, 195.
[4] ABBAGNANO, Nicola. 1901 - 2ed, pag. 348. Tradução coordenada e revisada por Alfredo Bosi. Ed. Mestre Jou - SP. 1982.
[5] Idem.
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Ilustração por Gabriel Ferreira

Escrevi este texto especialmente para o jornal FUXICO, uma publicação do Núcleo de Investigações Transdiciplinares - Departamento de Educação – UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana. O mesmo foi publicado na Edição Nº 9 – Ano V – Dezembro – Abril de 2007, pág. 5 e 6.

A escrita se deu num curto espaço de tempo sem escândalos de corrupção no Brasil. Logo em seguida, começou a aparecer os juizes que vendiam sentença, a Gautama, Renan, Roriz...

1.7.07

Defesa de Monografia


O coroamento de mais uma etapa. Avaliação final para concluir a graduação. Esta apresentação é uma prova motivadora, pelo significado da conclusão, pela própria monografia e pelo tema nela discutido. A militância política e cultural de Aristeu Nogueira, grande homem público do Irará.
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Apresentação de um trabalho que demandou boa dosagem de pesquisa, leituras, conversas, entrevistas, avaliação de material e redação. Esta última, desenvolvida em pouco mais de um mês de “confinamento”. Empolgação, ansiedade, preocupação. Por vezes, cheguei a pensar que não concluiria o trabalho a tempo. Enfim, conseguimos. Agora, cabe à banca avaliar.
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De antemão, acreditamos que o assunto poderia ser ainda mais explorado. Entretanto, as condições não possibilitaram um maior aprofundamento e pesquisa acerca dos quase setenta anos da atividade militante de Aristeu Nogueira. Quem sabe noutro momento.
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Aproveito para agradecer a todos que contribuíram para a realização desse trabalho, familiares de Aristeu, professores, colegas, amigos, entrevistados, familiares, e tantos outros. Espero que vocês possam estar presentes no dia da apresentação e que possa acontecer tudo da melhor maneira possível.
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Aos que desejam ir à apresentação, uma dica:
Na mesma sala, às duas horas da tarde, irá ocorrer a defesa da monografia da amiga Vânia Medeiros, formanda em Jornalismo. O trabalho de Vânia discute o CPC da UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes) da Bahia. O histórico desta entidade cultural, também é marcado pela influência de militantes do Partido Comunista.
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Como se percebe, será um dia de comunistas. Primeiro os “comunistinhas” do CPC, depois o comunistão Aristeu Nogueira. Se você for criança, cuidado para não ser comida... rsrsrsrrsr.

29.6.07

Brevitas Bravatas - São João 2007

Curtindo num curto São João
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O período joanino este ano foi curto. Curtíssimo. A festa foi limitada a um fim de semana comum. Sexta, Sábado e Domingo, sem feriadão. Junto com este fato, a condição pessoal de estar, de alguma forma, participando da produção do Bloco Jeguerê, limitou ainda mais o tempo para curtir a festa. Fiquei com pouco espaço para se divertir e para observar. Porém, de qualquer sorte, sempre aparece algumas resenhas e informações para a gente prolongar os assuntos.
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Arrasta Pé da J.E. o São João de Irará começava lá
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Na expectativa de aumentar o tempo dos festejos, sair já na quinta-feira à noite pensando em ir até o Arrasta Pé da J. E.. Entretanto, este forró ficou só no pensamento mesmo. Na cidade ninguém dava notícia da Festa da Rua José Epaminondas, que nos últimos anos têm sido uma espécie de abertura extra-oficial do São João de Irará. Fiquei sem informações até que um “e-mail” me comunicou a suposta razão pela inviabilização do Arrasta Pé. Segundo o informante, a Prefeitura não teria cumprido a promessa de fornecer palco e sonorização para o evento. Entretanto, antes que começassem os rumores dos oposicionistas, soube que o apóio houvera sido transferido para a data de São Pedro. Da próxima vez, a transferência pode ser para a data de São Tomé.
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A viúva. Sempre “erlas”
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Ê viúva que gosta de ser comentada viu-ô! No Orkut o povo danou a protestar sobre a programação da festa pública. Assim fica difícil deixar de falar na viúva que como canta Bem Jor, “tem um dote físico-financeiro invejável”. Para cuidar de todo esse patrimônio e assumir a responsabilidade é preciso ter equipe. Contudo, na república da farinha a palavra decisiva só poder vir do namorado da viúva. Então fomos saber do Excelentíssimo Senhor Prefeito, se a Praça da Purificação poderia ou não receber o encerramento do Bloco Jeguerê.
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Conversando a gente se entende
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Enquanto isso no gabinete do prefeito... A conversa foi amistosa. Bate papo quase que informal. Impasse resolvido. Diante do retrato de Paulo Souto, que ainda se encontra por lá (??) a autorização foi dada. O Bloco teve liberação verbal para entrar na Praça pela Rua Campos Martins, desde que não quebrasse nenhuma bandeirola da ornamentação pública. Para o Jeguerê foi fácil, com alguma manobra no mine-trio, chegaria à Praça, difícil ficou para o Pé de Mula. Mesmo tendo, mais uma vez, na sua programação o maior nome artístico do São João de Irará (Adelmario Coelho), o bloco não teve acesso à praça principal.
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São João da Bandeirola
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Não tem Jeguerê, nem Adelmário Coelho certo, após a conversa com o chefe do executivo do município, fiquei com a ligeira impressão de que a atração principal do São João de Irará são as bandeirolas. É, a moral da bandeirola anda mesmo alta, percebi isso diante da preocupação do prefeito e da explanação do fato de que, em 2006, o Jeguerê quando entrou na praça quebrou algumas fileiras de bandeirolas. Ele fez questão de pedir que o fato não se repetisse de maneira alguma. Por isso, se fez de tudo para que as bandeirolas continuassem reinando imponente, sobre os postes enferrujados que, ao que parece, foram retirados do canteiro central da Av. Elisio Sant’ana, para serem camuflados com tecido decorativo na praça. Como se percebe, essa administração dedica atenção especial para o item ornamentação, parece que a festa funciona em função do ornamento e não o contrário.
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A cereja sem bolo
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O item decoração é importante em qualquer festa. É como o próprio nome já sugere, seja falando “de coração” ou “de coroação”, a decoração dá toque final para abrilhantar o evento. É como se fosse a chamada “cereja do bolo”. Nesse setor, a organização das festas públicas de Irará tem demonstrado interesse. Seja na lavagem, com a montagem de uma boneca vestida de baiana derramando água, na grata homenagem a personagens iraraenses ilustrados nas suas caricaturas; ou no São João, através dos “pórticos” e representações de elementos como fogueiras e cisternas. Todavia, parece que se preocupam tanto com a ornamentação que esquecem de outras partes da festa e da estrutura da cidade para a mesma. Não dá só pra comer a cereja, sem o bolo.
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E por falar em estrutura...
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Irará, com suas praças, comporta tranqüilamente o desfile simultâneo dos blocos Jeguerê e Pé de Mula. Bastaria organizar os serviços de segurança, saúde e, claro, a estrutura da festa. Todavia, com a instalação de “pórticos”, impedindo a passagem de blocos, e a não sinalização e regularização do trânsito, fica difícil. Na reunião com o prefeito foi garantido que não seria liberado o estacionamento nos trechos do circuito do Bloco Jeguerê. Só que na hora do desfile o bicho pegou. Quem acompanhou o arrastão viu a atrapalhação que foi o bloco tendo de parar, de pedir para retirar carro, de decidir se desviava rota ou não, de... “Um absurdo” – como diria risadinha do “seu Valela”. Ainda bem que sem chuva, não tinha carro atolado, já pensou?
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Atoleiro artístico
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Se carro não atolou a mesma sorte não teve a programação artística do palco principal. A deste ano foi muito criticada e parece refletir a idéia de que o São João de Irará não tem merecido o devido planejamento. Entre os ilustres grupos desconhecidos, chamou atenção da cidade a banda Vaca Atolada. O ônibus da banda, trazendo seus integrantes, chegou com uma semana de antecedência. Depois permaneceu, porque dia 02 de Julho se apresentam em Ouriçangas. Um popular logo bradou, “uma banda que numa época dessas não tem onde fazer show, ficando esses dias todos em Irará, é porque não presta”.
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Sem ver o show, mas sabendo das conseqüências do atoleiro
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O cansaço e os compromissos me impediram de acompanhar os shows na praça. Malmente assistir à consulta do Dr. Xote na sexta. Não conseguir averiguar se o Bondy da Loirinha era uma banda de forró ou de Funk, como desconfiou nosso amigo Vitor Oliveira. E, consequentemente, não assistir apresentação de nenhum senhor beltrano e muitos menos da Dona Fulana. Houve quem me dissesse que a banda Vaca Atolada é ruim, que tinha um repertório desconhecido e usava de muita baixaria. Como eu não vi, não sei e também não posso julgar. Só sei que no dia seguinte, a distribuição de leite numa Padaria da cidade foi comprometida. Os clientes chegavam e a entrega do produto estava atrasada. Acho que teve vaca atolada na fazenda também.
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Na roça e na cidade
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Os tradicionalistas que me desculpem, mas não tem jeito. A cultura não é imobilista, nem estanque. É também o que se inventa e o que permanece. Nessa misturada toda, a onda de arrastão pegou. Em Irará, seja na roça ou na cidade eles pipocam em todo lugar. Vi as imagens de um arrastão na zona rural, cuja música nem era basicamente forró. Tendo como fundo musical um som carnavalesco, o arrastão seguia levando a multidão. Embora não se usasse cordas, a cena lembrava o desfile dos blocos de carnaval em Salvador. A estrada tomada pelas pessoas, era como se as cercas de arame farpado fossem as cordas e o mato verde em volta, os foliões pipoca.
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“Traga uma corda irmão. Irmão acorda!”
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É como canta Cazuza, mas é melhor ser “cobaia de Deus” do que prova de teste para o imprevisto. Tudo pronto para o Jeguerê sair e não apareceu sequer a metade dos cordeiros contratados. O que fazer? Nessas horas busca-se um plano B, C, D, E... Existe alguma alternativa para uma situação como essa? Difícil. Aí surge todo tipo de especulação. Propina, suborno, etc e tal. Não sabemos, não vimos. Serve de lição para acordar, não confiar cegamente até mesmo nos velhos parceiros. O jeito que teve foi colocar a mão na massa. Nós mesmos ajudamos a desembaraçar, esticar e segurar corda. Afinal o cliente é que manda. E pelo visto a grande maioria queria mesmo garantir o seu espaço privado, dentro das cordas.
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Festa pública ou privada?
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A internet representa um grande espaço comum. Tá na rede, é mais que peixe, é público. Seja blog, site ou Orkut. E foi justamente no Orkut que fiquei sabendo sobre um evento chamado Sexta do Cabeça Junina. Inclusive com comunidade relacionada a outras comunidades de grande aceitação. Depois a cobertura fotográfica do evento estava num sitio de internet. Entretanto, como a atividade era numa residência particular, fiquei sem entender se o evento era público ou privado. Na dúvida preferi não entrar. Parece que a festa tem pretensões de crescimento, acontecendo novamente no próximo ano, mas ainda continuo na dúvida. Talvez seja preciso que os organizadores do evento decidam qual caráter ele deve tomar. Se for público, que seja público. E se for privado, que se conceda ao menos uma credencial para a “imprensa” blogueira. Se o repórter não se atrasar, o convite pode até valer uma nota na “coluna social”. (Brincadeirinha viu? – não temos o perfil Renato Mendes - rsrsrs)
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Antecipação, atraso e descompasso com a hora do reggae
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Assim como aconteceu a Sexta do Cabeça Junina, também foi realizada a Sexta para “fazer a cabeça junina” na Casa da Cultura, ao som do reggae e de forró. A festa com Nação Karirí e Camarada Z estava marcada para começar às 16h. Cheguei lá por volta das 17h e ainda não tinha começado. Aproveitei o tempo para ir cuidar de outras coisas, adiantar algumas tarefas etc e tal. Eram quase 22h quando retornei e pra minha surpresa, os shows já tinham acabado. Fiquei o São João sem ouvir o som dos guerreiros Karirís. Há quem diga que ao final da festa houve uma troca de socos entre dois amigos. Porém, no outro dia avistei os dois brothers conversando. Daí pensei, das duas uma: ou tudo foi boato, ou os caras já havia acendido o cachimbo da paz.
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Um panfleto com mais do mesmo
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No sábado, véspera de São João, circulou um panfleto pela cidade, mas não era pedindo paz. Subscrito com o nome do Prefeito, a carta trazia um título clichê do clichê (Nunca se fez tanto em tão pouco tempo) e tentava abordar “obras” da gestão municipal. O texto parece ser de campanha eleitoral ou de um governo recém iniciado e não de uma gestão em seu penúltimo ano de mandato como é o caso. O verso da folha trazia a repetição de várias fotos de “obras”, que já apareceram em outro panfleto, no Natal do ano passado. Se a idéia é transmitir uma boa imagem do governo aos visitantes, o tiro pode sair pela culatra, porque a repetição deixa uma idéia de que a gestão nada fez do Natal ao São João. Fez? Se a impressão é o que fica...
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O que vai ficar.
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Paz, amor e boas lembranças é o que desejo que fique como lição e memória deste São João. No mais, ficará o sucesso e satisfação do público para a grande festa que fez o Jeguerê. A lembrança da casinha de taipa, tentando mostrar um caráter típico, com trio de sanfoneiro tocando, mas nada funcional e super mal localizada. E, principalmente, dentre tantas outras lembranças, o encanto e satisfação cada vez mais vibrante dos visitantes com Irará. Apesar dos pesares, terra de gente hospitaleira e irreverente.
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28.5.07

Das festas e festas ou como eu também sou, um pouco, saudosista

enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br em 20 de maio de 2005.
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Uma festa para a qual, assim como Cazuza, não fui convidado relegou-me a algumas lembranças. Rememorei eventos festivos de alguns anos atrás acontecidos em terras iraraenses. Sendo mais especifico, recordei-me das festas bailes e consequentemente das bandas que as animavam, traçando um pequeno paralelo com os embalos atuais.
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Antes, as chamadas festas bailes reinavam no cenário festivo de Irará. Era o final dos anos oitenta, inicio dos noventa e o repertório daqueles grupos eram completos. Melhor dizendo, saiam do pop internacional, das baladas românticas, do sertanejo e do forró, passavam pelo axé e chegavam até mesmo ao reggae e ao rock and roll. Resumindo: Tocavam de tudo. E eram os ritmos que ditavam o momento do baile. Tema mais lento, "hora de se armar". Tema mais eletrizante, "hora de agitar". Por vezes rolava até confusão, mas nada que uma parada no som ou um apelo do vocalista não pudesse controlar.
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Fora dos imprevistos, o baile só era interrompido uma única vez para o intervalo da banda. Isto porque elas tocavam madrugada adentro e como ninguém é de ferro, mereciam um breve descanso. Longe do circuito massivo, embora demonstrassem interesse em adentrá-lo, aqueles grupos não tocavam no rádio e como era a época analógica, do vinil, eles não tinham facilidades de gravação. Assim o sucesso das bandas era feito de acordo com as suas performances. E desta forma, bandas como Extra, Flor de Cactos, Garganta Inflamada, RPB, entre outras, fizeram história em Irará.
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Hoje, as festas estão mais ligadas ao show bussines e apresentam as chamadas bandas show. Estes conjuntos são especialistas em tocar somente um estilo musical, dificilmente tocam mais que duas horas e certamente já tem o seu CD gravado, nem que seja através de um computador de amigo. A falta de variedade no gênero é evidenciada pela concentração em basicamente três vertentes. Quando não é arrocha ou é forró ou é pagode. E as festas mais parecem festivais com três, quatro, cinco... dez bandas! Cada uma toca cerca de uma hora, com mais uma de intervalo entre as atrações para trocar instrumentos, passar o som, etc (só ai já foi metade da festa).
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Tanta demora talvez seja aceita pela vontade de ver aquele grupo que toca no rádio ou é comentário geral. Entretanto, há ocasiões em que a banda pela qual se espera nem é "famosa", mas as pessoas acabam esperando, esperando, esperando, como naquela canção do Chico. Quanto a apresentação dos grupos, é melhor nem comentar. Alguns deles parecem que se preocupam mais em mostrar figurinos, fazer danças e encenações exaustivamente repetidas por centenas de outros conjuntos, do que mostrar qualidade musical. Coisas que causam arrependimento pelo ingresso pago. Este passaporte, pode ser uma camisa e por mais que a vaidade feminina tente reforma-las para se diferenciar, ainda estarão participando de um evento uniformizado.
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Na verdade, a festa de que falei no inicio não exigia convite algum. Bastava apenas comprar a camisa e eu estaria lá, com meu uniforme como todas as outras pessoas. Mas pensei melhor e decidi não ir. Fiquei em casa e aproveitei para ler alguma coisa. Como ultimamente têm saído um festival de textos saudosistas sobre os anos oitenta, suas culturas e comportamentos, acabei sendo influenciado. Afinal de contas, eu não iria ficar de fora desta festa.

18.5.07

V V V V – Vinhos, versos, velas e Vânia

Como estamos em tempos de lembranças. Vamos lembrar do Vinhos e Versos. Havia quatro texto sobre o assunto que ainda não tinha vindo aqui nesse blog. Foi difícil, mas escolhi esse. Por que ele foi, digamos, iluminado...

Texto escrito em dezembro de 2004.

Janela - trabalho de Vânia Medeiros, capa de uma das revistas Vinhos & Versos.

Na quinta feira a companhia de energia elétrica interrompeu o fornecimento de energia a alguns prédios públicos de Irará. O Sobrado dos Nogueiras (Casa da Cultura – Biblioteca Municipal) foi um deles. Diante do acontecido, o recital de Poesias Vinhos e Versos da Casa da Cultura de Irará (CCI), antes programado para acontecer no Sobrado, teria de ser transferido.
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A direção da Casa da Cultura agiu rápido e conseguiu o deslocamento do evento para o Arte Café (barracão em frente ao Banco do Brasil). Entretanto, a notícia da mudança não foi divulgada, pois o grupo diretor da entidade já se colocava diante de um novo dilema. Dúvida acionada pelo surgimento da idéia poética de fazer o recital sob a luz de candeeiro. Isto seria, como alguns já comentavam, o Vinhos, Versos e Velas. No entanto, realizar o recital com pouca iluminação, significava a quase que anulação da exposição artística, pensada para a mesma data e local.
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Exibir as gravuras de Vânia Medeiros no Vinhos e Versos era muito importante para a Casa Cultura. Primeiro pela beleza do trabalho da jovem estudante de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Ela usa e abusa da técnica de colagens, desenhos a lápis de cor e giz de cera e pinturas com guache, para criar as suas imagens que depois de digitalizadas ganham colorido e textura especial. Depois, por Vânia ser uma grande incentivadora do trabalho da atual direção da instituição, diagramando com o seu talento todas as publicações da revista Vinhos e Versos.
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Entre o romantismo da iluminação a fifó e a exposição, o interessante mesmo era se tivesse uma maneira de ficar com os dois. Chegou-se a pensar na criação de dois ambientes: Exposição no Arte Café e Recital (a base de fifó) no Sobrado. Contudo, a idéia de separar a exposição do recital não era bem aceita e na sexta-feira, quando já se estava admitindo o esquecimento da “iluminação especial”, optando por fazer os dois acontecimentos no ambiente substituto, prefeitura e companhia elétrica chegaram a um acordo e a energia do Sobrado estava sendo religada.
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Com este acontecido, a possibilidade de ficar com o fifó e com a exposição foi concretizada. A direção da Casa da Cultura teve a feliz decisão de manter as luzes do Sobrado dos Nogueiras acessas durante um certo período, para que as pessoas vissem a exposição, enquanto tomavam o vinho. Depois, abruptamente a iluminação foi intencionalmente desligada, dando inicio ao recital, no ambiente que ficou iluminado apenas por dois candeeiros, previamente acessos. Agora era Vinhos, Versos, Velas e Vânia.
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Sob a luz dos candeeiros deu-se início o recital de poesias. Roberto Martins, Fábio Calisto, Sérgio Ramos, Jucilene Cruz, Marilda Ramos, alternaram-se em suas declamações. Derrepente, a luz elétrica foi religada para que Vânia Medeiros fosse apresentada ao público. Lágrimas aos olhos, ela agradeceu a todos e disse estar gostando do acontecimento. Após as palavras dela, Roberto conclama pela volta das poesias e alguém pede: “Apaga a luz!”. Incandescentes desligadas, fifós acessos e o recital continua. Kitute de Licinho, Edma Lopes, Tone Coelho, Adriana Santana, Gilmar professor, Geildes Sueli e José de Lima, conhecido como Zé Ceguinho completam o grupo dos recitadores.
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De posse da palavra, Zé Cego foi mais do que poético, foi revelador quando quis demonstrar o que sentia diante da arte de Vânia. Zé mencionou que não podia ver as imagens da artista, mas graças à ajuda e descrição de Edma (professora de portadores de necessidades especiais) ele podia sentir o que aquelas imagens transmitiam. Para demonstrar seus sentimentos, Zé relacionou os desenhos a uma poesia, recitando-a em seguida. “É preciso ver com os olhos do coração”, sentenciou Edma.
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Olhares apaixonados, olhares poéticos, olhares artísticos. É de se imaginar o que estaria por trás do olhar do artesão Zé Nogueira, finalmente presente ao recital, junto com Dagmar sua esposa/companheira/artesã, apesar do avançar da hora. Certamente várias idéias, viagens, conceitos... mas nenhuma vontade de fazer uma intervenção. Até que Roberto anunciou a presença de Zé para o posterior aplauso dos presentes. “Zé, por favor, leia a poesia do seu amigo Juracy Paixão, publicada aqui na quarta edição da revista Vinhos e Versos” pediu o “Sr. Presidente” da CCI. Ainda assim, Nogueira não sentiu-se à-vontade deixando para Roberto recitar o “DesVerso do Paladar”.
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Desta maneira se viu, se viveu e se verbalizou o quinto Recital Vinhos e Versos da Casa da Cultura de Irará. Um recital vivo. Pelos versos dos versejadores, pelo vinho vermelho, pela vinda de Vânia, pelo vislumbre da vela (diga-se candeeiros), pela vibração dos visitantes... Por tudo isto, um recital vigoroso. Mas do que nunca, marcado em “V”. Ironicamente, em romanos, representante do numeral “cinco”.
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Veja trabalhos de Vânia Medeiros através do Link indicado neste blog.

11.5.07

Com Cidade de Deus, cinema volta a cidade nascida da luz*

Escrito na primavera de 2004, quando estávamos como presidente da Casa da Cultura de Irará.
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Quando Zé Pequeno gritou: “Pega a Galinha ai, ô rapaz!”, a sala já estava cheia. E cada vez chegava mais gente. Logo, as poucas cadeiras que estavam vazias foram sendo ocupadas, e quem chegou depois começou a assistir o filme de pé. Assim o domingo, 14 de novembro de 2004, ia noite adentro, na maior sala de aula da Escola Municipal São Judas Tadeu. Àquela altura, transformada em sala de projeção.
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Os cerca de noventa assentos disponíveis foram insuficientes, conforme era logo percebido por aqueles que ultrapassavam o portão da escola e viam alguns jovens, sobre suas bicicletas, observando através das vidraças. Na tela grande, Cidade de Deus, de Fernando Meireles, que já empolgou o Brasil e o mundo, conquistava os iraraenses, principalmente àqueles que ainda não o tinham visto. Alguns deles, talvez sequer tenham mesmo assistido qualquer outro filme na telona. Era o cinema de volta a Irará, como nos tempo de Sr. Olavo ou Zé Martins, o Zé do Rato. E se antes, a TV foi considerada a culpada pelo fim das salas de projeção nos pequenos centros urbanos, agora aqueles mais de cem espectadores pareciam se vingar da telinha. Eles preferiram sair de casa para apreciar um longa metragem num local público, junto a emoção e o calor humano dos seus conterrâneos.
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Assim é a sétima arte. Enquanto muitos acusam a TV de isolar as pessoas em seus pequenos mundos residências e até desfragmentar o dialogo familiar, o cinema é tido como agregador e possui o poder magnífico de fazer as pessoas “viajarem”. Isso sem contar a característica de gerar o debate, de suscitar comentários. Conforme aconteceu ao final da sessão, era impossível não perceber as alusões feitas à obra. Até mesmo durante a exibição, um espectador mais exaltado repetia o personagem, “Dadinho é o caralho!”. Close, primeiro plano, câmera tremendo em cena de perseguição, gira o foco, gira a imagem e... lá está o público, concentradissimo! Gira pro passado, gira pro presente e a roda do tempo também faz girar o pensamento dos diretores da Casa da Cultura de Irará (CCI), levam-nos há meses atrás, quando aquela exibição era somente um sonho. Como diria Glauber Rocha “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Equipamento e criatividade. A inventividade eles tinham de sobra, faltavam-lhes as condições.
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Naquela noite, a vontade de fazer foi saciada graças à colaboração de alguns parceiros. O Cestão Celulares, representante em Irará da operadora Claro, foi fundamental para se ter o equipamento. Agradecimentos mil ao amigo José Carlos (Kakal). E o diretor da escola, Marivaldo Francisco, concedeu o espaço com grande benevolência. A Casa da Cultura torce pela continuidade destas parcerias, até que, quem sabe um dia, seja possível ter os seus próprios equipamentos e sala de projeção. De tal maneira a arte cinematográfica será viabilizada a quem tem dificuldades de acesso à mesma. E será mais confortável responder ao público, quando perguntarem ao final da exibição: “Quando vai ser e qual será o próximo filme?”.

* Em Irará há um quase consenso de este nome em linguagem indígena quer dizer: nascido ou criado da luz do sol ou do dia. No entanto há dicionário de tupi que classificam Irará como animal mamífero que gosta de se alimentar de mel. Existem também outras versões populares para o significado deste nome.

2.5.07

E lá se foi o Carecanto

enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br em 08 de fevereiro de 2006.
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Para muitos, talvez fosse apenas mais um bar da cidade. Para outros, um local memorável, onde devem ter acontecido muitos causos do Irará. A sua arquitetura não era exuberante, nem demonstrava grandes artifícios de beleza, mas conservava em si status de tempos de outrora, de saudades e recordações.
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Na minha infância, costuma passar em frente aquele bar, nas idas e vindas no trajeto casa/escola. Sim, dobrar a esquina do Carecanto esteve, e ainda esta, no meu roteiro pelas ruas de Irará. Só que agora, não há mais o Carecanto, tão somente a esquina, de teimosa, insiste em permanecer.
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Lembro-me de quão surpreso fiquei ao saber, por uma placa de sinalização, que ali no encontro entre Praça da Purificação dos Campos e beco de Sr. Elisio começa a rua Pompilio Santana. O beco é, portanto, um prolongamento da rua onde sempre morei, cujo itinerário passa pela a AABB e vai até o Loteamento José Barbosa Caribé. Tal Caetano em Sampa revela-me alguma emoção no encontro entre Pompilio Santana e Praça da Purificação.
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Noutro dia cheguei por ali e nada entendi. A dura poesia concreta do progresso havia levado ao chão um marco daquela esquina, o Carecanto. A quadra dedicada à padroeira da cidade, noutros tempos denominada Praça do Comércio, já é pequena para as atividades comerciais. O comércio então avança Rua Cel. Coronel Elpidio Nogueira (antiga rua direita) acima, transformando, aos poucos, o patrimônio arquitetônico do centro da cidade em portas de chapas metálicas.
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Na mesma semana foi derruba a antiga casa de Sr. Lúcio, próximo ao Banco do Brasil. Vale lembrar que onde hoje é a agência bancária, um dia funcionou, segundo relatos dos mais antigos, um belo prédio que abrigava a antiga prefeitura, namorada do jardim da Praça da Bandeira com seu coreto. Nesta mesma praça, na esquina de frente para o banco, onde um dia esteve a casa de Sr. Zé Freitas, com suas muitas janelas, surge uma nova Farmácia. A edificação já aponta o seu letreiro luminoso, disposto num enorme painel.
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Loja farmacêutica é também o empreendimento a ser erguido no terreno onde um dia funcionou o Carecanto. Farmácia, junto a supermercado e funerária, parecem mesmo ser os segmentos comerciais que mais prosperam em Irará. Diante da evidência, um leve toque de sociologia parece avaliar o nível de vida na comunidade. Comer, adoecer, morrer. Não prosperam novas alternativas para os jovens. Não prospera o nível social iraraense. Não há políticas de valoração e construção do patrimônio arquitetônico e nem mesmo cultural. Nada!
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Alguém tentou convencer o dono da Farmácia a não demolir a estrutura do antigo Carecanto. Mas foi em vão. O empresário foi reticente diante dos argumentos de que os traços da edificação dariam um charme a mais para o seu comércio, bastando apenas reforma-la. Argumentos rebatidos, o Carecanto foi ao chão. E assim foi desmanchado o cenário, escolhido pela TV para servir de fundo para a entrevista de Sr. Antônio Luiz, quando da produção do programa dedicado a Tom Zé, organizada pela afiliada soteropolitana da Rede Globo.
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O Vídeo Tape da TV contem as imagens e a lembrança retém o balcão, os banquinhos giratórios e as prateleiras com as diversas garrafas de bebidas. É certo que o Carecanto já não era mais o Carecanto. A nostalgia estava presente somente no prédio, o qual deveria ser preservado, pois ao longo dos tempos o bar foi trocando de dono e até mesmo de nome.
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A nomenclatura tradicional e já há algum tempo esquecida, foi resultado de um concurso. Uma disputa que na época empolgou a cidade e se revelou um evento sócio-cultural. Em meio a tantos nomes inusitados e até estrangeirismos, venceu o que homenageava o dono do bar ao traduzir a paragem como “o canto do careca”, daí “Carecanto”.
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E pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, o Irará a cada dia ver minimizadas suas características de cidade centenária. Já abordei esse tema num outro texto*. No entanto, acredito que sempre vale a pena lembrar. Ao menos enquanto ainda podemos e nossas mentes não forem alcançadas pela lógica do consumo, na qual, os valores éticos e estéticos estão sempre submissos aos financeiros.
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A questão do traço arquitetônico da cidade foi abordada em “Centenária tradição memória efêmera”, publicado na Gazeta de Irará em maio de 2004.


24.4.07

Fulano de Sicrano*

“Não sou de ninguém/ Eu sou de todo mundo / e todo mundo é meu também.”
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Os Tribalistas, na canção já sei namorar
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“É como Cronos comendo seus filhos, é normal! Em Irará, também se diz assim: “Você tá me chamando de veado ? Por que Bicho? Eu não sou homem mesmo, não. Meu pai ainda não morreu, como é que eu posso ser homem ?” Quer dizer, isso é mitologia grega, não sei de que maneira foi parar em Irará. Mas foi.”
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Tom Zé em entrevista a revista Caros Amigos -nº 31 de Outubro de 1999 pag. 29

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Zé Nogueira, digo Zé de Aristide, me disse que quando Valter, Titino de Cassinho, lhe falou sobre Roberto Martins que gostava de tomar licor na sua casa (de Zé), ele achou estranho. Pensativo Zé dizia matutar, matutar, mas não se lembrava de nenhum Roberto com aquele sobrenome. Curioso, Zé meditava consigo: “será que é parente de João Martins? ou de Marcílio, dos Martins de Joy e Virgílio?”. Mas mesmo assim Zé não se lembrava de nenhum Roberto nessas famílias. Até que por um lapso ele percebeu: “Ah! É Ró de Zé do Rádio.”
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Zé Carlos (Kakal dos Pinto) e eu, certa feita abordávamos sobre este fato de em Irará os nossos nomes estarem sempre ligadas aos nomes dos nossos pais e/ou familiares. Em hipótese alguma, era vergonha estar relacionado ao nome deles, porém ideal seria que fossemos reconhecidos pelas nossas ações. O que para Kakal, só aconteceria quando fossemos independentes financeiramente. Lembro-me que nessa conversa foi exemplificado o caso de Eloi, que quando tomava umas cervejas no Chalé, tinha a sua conta encabeçada pelo titulo: “Filho de Nôca”.
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Essa lista de discussão é aberta a todos os iraraenses e simpatizantes. E por este motivo aqui podem transitar diversas pessoas; os que saíram de Irará há muitos anos, os que moram lá, os que pouco conhecem a cidade, e até mesmo quem só foi lá uma única vez. Isto denota dizer que aqui na lista o “sobrenome” (nome do pai) tem pouca relevância, mas no mundo real, e ainda mais se for em Irará...
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Vânia Medeiros (não sei o nome do pai dela) ao descobrir que Alex Rolim, colega de hospício** aqui da FaCom, era natural de Irará, logo lhe perguntou: “e lá, você é Alex de quem? Ele respondeu: “Alex de Vanda”. Aliás não fosse essa identificação, talvez Rui de Berada, demorasse um pouco a recordar de seu primo Alex, quando contei-lhe ser este último meu colega de faculdade.
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Ser conhecido com o nome do pai por vezes marca tanto, que a identificação de cada herdeiro vai se tornando mais longa. Como podemos notar na família de Sr. Zé de Cândido, que agregou o nome do pai e isso continuou com seus filhos. Assim conhecemos Leo de Zé de Cândido. Imaginem como será conhecido o filho de Leo.
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As vezes penso como as pessoas devem comentar sobre este grupo: “É uma lista formada por: Leo de Maica, Luciano de Rege, Vítor de Raimundo, Tais de Dilson, Bruno de Zé Mamão, Ró de Zé do Carneiro, Débora de Jarinho, Matilde de Mário Costa, e muitos outros de alguém”. Portanto em Irará, é difícil ser de ninguém, mas isso não implica dizer que a pessoa também não seja alguém enquanto os seus pais ainda se fazem presentes.
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* Escrito no verão 2002-2003 e enviado para iraraense@yahoogrupos.com.br
** Colega de Hospício é uma expressão usada por Milton Severiano na sua coluna “Enfermaria” da Revista Caros Amigos, para designar jornalistas e outros pensadores.

16.4.07

Um ano de Blog

Esse blog está completando um ano. Durante estas últimas quatro estações, ele alternou entre períodos com maior movimentação e alguns com certo marasmo. A exemplo desses últimos 30 dias.
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No mais, são 70 posts (mais q um por semana como foi pensado), com a quase totalidade deles (exceção de dois ou três) de autoria própria. Aqui teve notícias, crônicas, ficção (não tão ficcional assim, rs, rs, rs), relatos... enfim. Textos que esboçam uma visão pessoal sobre diversos assuntos.
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Por isso o Blog tem nome próprio. Aqui vai ao ar a opinião de quem o mantém. É colunismo. E não jornalismo. Embora às vezes, pareça ser mais do que alguns veículos que se pretendem jornalísticos.
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Houveram textos aqui postados para os quais a receptividade parece ter sido maior. Entre eles, “Muito peido pra pouca obra”, “Jeguerê: um arrastão campeão” e as “Brevitas bravatas” – eleições e São João. Isso mensurado pelas conversas e elogios feitos pessoalmente e também pelos comentários.
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Sim! Isso. Os comentários. Teve post que chegou a ter até 6 (seis) comentários... Bob Fernandes, Noblat e Fernando Rodrigues que me esperem, estou a caminho de chegar às centenas como no blog deles!
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Flash-back pra comemorar
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É justamente essa marca de um ano que dá fôlego e esperanças para perspectivas futuras. Tal longevidade não estava prevista quando essa brincadeira começou, mas já que ela tá boa, a intenção é continuá-la. Infelizmente só não vai dá pra ser agora.
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Obrigações e mais obrigações, impediram a postagem de conteúdos novos por aqui. E pelo visto, vão continuar atravancando a pauta por mais um tempinho... Porém, para não deixar o caro leitor desamparado, vou lançar mão de uma idéia, para a qual Patrícia e Leone me alertaram.
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Vai rolar aqui uns tempos de “flash-backs”. Ou seja, enquanto não estiver disponível para novos conteúdos, vou postar textos antigos. “Erles” foram escritos e enviados para uma velha lista de e-mails chamada de “iraraense” (iraraense@yahoogrupos.com.br). Veículo ainda existente, entretanto mais movimentado nos tempos em que não existia o Orkut e nem esse blog.
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Em homenagem à irmã e ao amigo, citados acima, e para comemorar um ano do Blog, “Fulano de Sicrano” deve ser o primeiro texto a aparecer daqui a uns dias. Aguardem e obrigado a todos!!!
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11.3.07

Alô câmbio! Olha o cambista

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No ingresso vendido na bilheteria estava escrito: “ATENÇÃO: Evite a ação dos cambistas. Venda Proibida”. Outros, nas mãos dos próprios cambistas, além desta informação, continham um carimbo: “CONVITE: Proibida a venda”.
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Em meio a advertências e proibições os cambistas seguiam livremente fazendo seu trabalho, nas proximidades do Teatro Castro Alves (TCA) em Salvador, num dado fim de semana de dezembro passado.
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“Ingresso, ingresso, Vander Lee, Cordel do Fogo Encantado”. Esse era o grito que mais se ouvia, naquela tarde de sábado. Um chamado feito a qualquer um transeunte em direção à Concha Acústica do TCA.
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Mal se descia do ônibus e eles já estavam lá. Ladainha exaustivamente repetida para chamar a atenção dos potenciais fregueses.
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Como se percebe, apesar de verbalmente proibidos ou indesejados pelos produtores de eventos, os cambistas, em bom número, transitam com desenvoltura na Praça do Campo Grande. Um leve descuido e pode-se tropeçar num deles quando se vai entrar no hall das bilheterias do Teatro.
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Tênis, calça tec-tell e camisa xadrez, usada por fora, um dos cambistas está em busca de consumidores. Abaixo do boné e por trás dos óculos redondos, figura uma aparência de pouco mais de 50 anos.
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Olhos de águia, em busca de possíveis freqüentadores de shows, lá vai Crispim (nome fictício - no meu entender o mais adequado para o cidadão). Chego próximo e pergunto o valor do ingresso.
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- É dez reais.
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- Você está vendendo pelo mesmo preço da bilheteria - Comento.
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- É, - responde Crispim, para complementar depois – mas comprando em minha mão, você não vai precisar comprar o livro, que o cara tá ali vendendo por três. Ele pode até te fazer dois, mas aí o ingresso vai ficar por doze.
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O cambista se referia há um vendedor de livros usados e antigos módulos de pré-vestibular, comercializados na entrada das bilheterias do Teatro. Como é um show em benefício de uma causa social, pede-se que as pessoas doem livros ao comprarem seus ingressos no guichê.
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Neste tipo de evento, o ritual começa em casa. Procura-se por aquele velho modulo, o livro didático da quarta série, ou qualquer outro que julguemos sem serventia.
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Assim apreendemos e assim continuamos. Damos o que já não nos serve mais. O lixo. Campanhas de troca de ingressos por livros são fantásticas, além de fazer sobrar espaço na nossa lixeira, nos deixa com o “sentimento de culpa aliviado”.
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Calma. Não condeno de todo as campanhas de doação de livro. Não é por aí. Os livros realmente hão de ser útil a alguém. E, claro, melhor livro na mão de pessoas do que servindo de entulho. Ademais, os que não forem de muita serventia para uso, espero ao menos que sigam para a reciclagem e um dia se transformem em livros novos, com custo menor do que o habitual.
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Mas, voltemos ao Crispim e a sua labuta. Passa o freguês e ele faz o chamado:
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- Ingresso, Vander Lee!
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- Quanto é mermão!? – Indaga o rapaz.
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- Lá você vai pagar trinta, eu te vendo por vinte e cinco (abaixo da bilheteria! Isso que é promoção).
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O cidadão com gel no cabelo e camisa “mamãe quero ser forte” se interessa pela proposta. Faz uma cara de surpresa, olha para um lado, para o outro, dá uma choradinha...
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- Faço vinte! Pra você nem ir lá. – fala Crispim, como quem dá a última palavra, para depois se referir à bilheteria.
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- Esse ingresso é verdadeiro mesmo? – questiona o freguês.
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- Ohhhhh! Que é isso!? Aí é qualidade. Eu trabalho é com ingresso! – Sentencia o cambista, com ênfase no “ingresso” tentando demonstrar experiência na atividade.
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- O problema não é ser falso. O problema é você me enganar. Se você me enganar... aí é que vai ser problema...
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Chorou, balançou, mas acabou comprando o ingresso na mão do cambista. Pelo dialogo pensei ser o “playboy”, um policial a paisana. Têm muitos deles que gostam de arrumar uma confusãosinha para depois demonstrar sua autoridade. Mais um pouquinho e, quem sabe, teríamos ouvido o clássico: “sabe com quem está falando?”.
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O cidadão vai embora e a vida do cambista continua. Anuncia o seu produto. Vem de lá duas sirigaitas bem vestidas. Queixo empinado, passam e fazem de conta que não é com elas. Vai ver, pensam que cambista não é gente.
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Pois é. Tem gente que nutre um ódio mortal aos cambistas. Considera-os aproveitadores e culpados por esgotar os ingressos da bilheteria para especular preços depois.
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Já vi gente que chegou ao espetáculo após o encerramento do guichê e pouco antes do inicio da peça teatral achou uma excelente oferta pelo ingresso, mas acabou recusando. Motivo? O bilhete era vendido por um cambista. Só por isso.
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“Uns aproveitadores. Isso é que eles são. Tem show que eles botam o preço lá em cima”. Não adianta nem afirmar que agindo assim o cambista está obedecendo a Lei da Oferta e da Procura. A antipatia está formada.
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"Show de Solidariedade"
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Pode ser ilegal. Pode ter muita gente que deteste. Entretanto, seria difícil a vida do freqüentador dos eventos do Projeto Sua Nota é um Show se não fossem os cambistas.
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O Projeto do Governo da Bahia visa criar incentivo para que as pessoas peçam notas fiscais nas suas compras e serviços (combatendo a sonegação de impostos) para depois troca-las por ingressos de shows ou partidas de futebol.
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Até ai tudo lindo e maravilhoso. O problema é na hora que o consumidor (já nem chamam mais de cidadão) vai trocar as notas.
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Para falar disso, peço ajuda aos universitários:
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“No dia de troca para o show de Maria Bethânia, cheguei por volta das seis e meia da manhã. Sequer conseguir entrar nas dependências da Fonte Nova: o portão já estava fechado e já haviam sido distribuídas 2.200 senhas, segundo responsável da Sefaz. Um caracol de candidatos à troca. Formara-se outra fila do lado de fora do portão... No lado de dentro, muitos relataram ter chegado na noite anterior e, como em todas as vezes que participei da troca, os cambistas estavam entre estes.”
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O trecho acima é oriundo da Monografia de Conclusão da Graduação em Ciência Sociais de Cibele Nunes da Silva Santos (UFBA: 2004). No texto de “A nota do Show” aparecem também problemas como as pessoas entrando na fila várias vezes depois de pegar ingresso e outros sentados em papelões, “guardando” lugar na fila.
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“É como se algumas hordas de moradores de rua, por ocasião da troca, encontrassem uma forma de se inserir, episodicamente, no mercado de prestação de serviços.” Diz o trabalho de Cibele.
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Agora, vamos agradecer a “intervenção” da menina de CiSo e retomemos a nossa discussão. Se conseguir ingresso para os shows do Projeto do Governo tem lá suas dificuldades, então podemos deduzir que os cambistas dão um “show de solidariedade”.
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Sim. Porque são eles que vão lá buscar os ingressos para vender “aos bacanas” na hora e na porta do show. Mas, aí cabe um porém. É só lembrar da argumentação de que a venda destes ingressos é proibida.
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Alguém me relatou conhecer uma pessoa que foi abordada por um policial quando comprava ingresso do Sua Nota é um Show na mão de um cambista. A julgar pelo movimento na frente da Concha nos dias de show, penso que este ser deveria jogar na loteria de vez em quando...
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A troca de ingressos e o acesso aos mesmos para o Projeto Sua Nota é um Show é um dos problemas que o novo Governo da Bahia vai precisar resolver. Será que alguém já pensou na idéia de colocar postos de troca em pontos como colégios, shoppings, praças ou até mesmo nas casas de espetáculos?
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Mas deixa isso para depois. Voltemos aos cambistas. Agora eles estão brigando por um cliente. “Eu já falei com ele”. Grita um dos dois. “Se saia meu irmão!” Responde o outro. Na disputa, parece leilão, os lances de ofertas começam a aparecer. O movimento na porta do Teatro é animador.
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Dias de lucro. Dias de prejuízo. Vai que chove e perde todos os ingressos? Vai que o show bomba e vende pelo olho da cara? Riscos como em muitas profissões. E cambista é profissão?
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Mesmo proibido nos bilhetes e, “ao que parece”, na lei, eles seguem trabalhando, como uma espécie de promotores do câmbio negro dos ingressos. Câmbio flutuante entre a oferta e a procura.
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Trabalham assim. Sem carteira assinada, sendo eles mesmos o documento comprobatório de que algumas coisas no Brasil, apesar de proibidas, funcionam tranquilamente. Acho que amanhã vai dá macaco. O chefe da policia avisa pelo rádio. Câmbio e desligo!

6.3.07

Chuvas Esquecidas

A água jorrando das nuvens. Belo. Magnífico espetáculo da natureza. Às vezes a chuva chateia. Às vezes, fico contemplando...
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Chuva! Tão esperada no sertão. Tão temida nas encostas das cidades. Lembrada em alguns momentos, esquecida noutros.
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Não sei se essa “veborragia” tem a ver com a exposição de Ingrid Klinkby, mas pelo que conheço do trabalho da moça acho que vale a pena conferir. Ainda mais quando as “Chuvas Esquecidas” vão “cair” em Cachoeira.
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Veja o trabalho de Ingrid na Internet

2.3.07

Nepotismo: será o fim da novela?

Publicado no último dia 24 de Fevereiro de 2007, O Decreto de Nº 2101, “exonera a partir de 28 de fevereiro” os cargos que “configurem nepotismo” na Prefeitura Municipal de Irará. Irmãos e esposa do Prefeito são algumas das pessoas afastadas com a medida.
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A prática do nepotismo foi assunto recorrente em Irará. O fato teve direito a idas e vindas de projetos na Câmara Municipal. Quem acompanha este Blog já leu aqui alguns outros capítulos dessa novela. Será este mais um ou o último?
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Veja o Decreto abaixo. Para ler o texto e conferir a relação das pessoas afastadas é só clicar na imagem.


25.2.07

O Zeca de Magalhães que eu conheci

Foi assim rápido e inesperado. O primeiro e-mail informava que Zeca de Magalhães tentava consertar uma goteira no telhado de sua casa. Caiu, bateu a cabeça, deu traumatismo craniano, estava no hospital em coma. Dias depois, o segundo e-mail fez acabar as nossas esperanças. Zeca não mais habita o mundo dos mortais.

Zeca: "Pensador"


Conheci Kzé, como também era chamado, no Colóquio de Literatura Popular, no mês de novembro do ano passado. Durante a pré-produção do evento, eu procurava um palestrante que falasse de poesia sem academicismos, na linguagem do povo.
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Gustavo Felicíssimo me mandou uma lista de poetas, os quais poderiam falar da Poesia Marginal. Vi o nome de Zeca lá. Lembrei que Vânia Medeiros trabalhava com ele no CRIA (Centro de Referencia da Infância e Adolescência) e fiz contato com ela.
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“Ró, Zeca é maravilhoso. É o cara que você tá procurando”, disse Medeiros. Confesso que achei que Vânia exagerava, mas mesmo assim liguei para o Zeca.
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Tivemos um contato rápido e ele demonstrou bastante interesse em se fazer presente ao evento. Não fez nenhuma exigência, depois me enviou cordéis do CRIA. Fui até a sede da ONG conversar com ele. Lá, fui recebido com bastante cordialidade. Zeca quis saber do Colóquio, deu idéias e ainda sugeriu nomes para ocupar a vaga de outro companheiro que, de última hora, não poderia estar presente. “Quero participar do evento todo, não só no dia da palestra”, me disse ele.

Recitando poema no Vinhos & Versos

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Em Irará, gostou muito do Vinhos & Versos. Observou e recitou poesias de sua autoria. No sábado, chegou cedo na feira-livre, trazia uma banquinha de cordéis. Mais do que assistir a apresentação dos repentistas, como havia combinado, queria “participar do evento”. A tarde não foi diferente. Assistiu a oficina de cordel de Gutenberg e observou a xilogravura sendo ensinada por Gabriel Arcanjo.

Vendendo cordeis na Feira-Livre

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Ao final das oficinas na Casa da Cultura, tivemos um pequeno bate-papo na descida até a sede da Filarmônica. Zeca queria saber onde seria a palestra da noite. Neste pequeno caminho ele contou a mim e a Marcílio um pouco das peripécias da sua vida.
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Foi muito interessante ouvir o relato daquele carioca que devido a uma desilusão amorosa, viveu literalmente o que tem naquela canção do Barão Vermelho. Ou seja, viajou a pé do Rio a Salvador.
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“Comprei uma lata de “Grand Prix” e encerava caminhões nos postos de combustíveis”. Relatou Zeca para demonstrar como conseguia dinheiro para se alimentar, nos vários dias da viagem em que, por algumas vezes, pernoitou no mato, debaixo da chuva, no seu saco de dormir.
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À noite, no horário combinado, Zeca estava na sede da Filarmônica 25 de Dezembro para a palestra. Gustavo Felicíssimo era o outro conferencista.
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Gustavo falou primeiro e abordou uma espécie de conhecimento para poder se trabalhar com poesia. Zeca olhava para Gustavo e fazia suas anotações. Chegou sua vez de falar. Foi de encontro a algumas das considerações de Felicíssimo. Falou simples, na linguagem do povo. Se fez entendível para aquele pequeno público presente. Abordou não só a poesia, mas a cultura, a vida e os sentidos da mesma.

Um bom debate com Felicíssimo (de amarelo)
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Ouviu muitos comentários positivos com relação às suas falas. Lembrando do momento em que Zeca discorreu sobre os vícios da academia, Edma Oliveira aproveitou para fazer uma constatação: “Zeca você é muito inteligente, se você tivesse o curso universitário, nem sei onde você estaria”, disse a professora para frisar que alguns só valorizam quem tem o diploma.
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Vendo todos empolgados com Zeca, eu já não achava que Vânia tinha super-valorizado o seu amigo. Pelo contrário, acreditava agora que minha colega havia sido modesta, porque a satisfação do público para com o palestrante foi muito maior do que eu poderia prever.
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No domingo, encontrei Zeca de Magalhães pela manhã, lá na Pousada de Dona Emília. Ele havia acordado há pouco tempo. Depois foi à Casa da Cultura e gravou entrevista para o vídeo do evento com Daniel Cortês, Mateus Damasceno e Bruno Buke. Deu aula abordando a resistência da cultura popular perante a cultura massiva. Na seqüência, tentei levar Zeca até a casa do amigo Zé Nogueira, mas fomos impossibilitados pelo avançar da hora.
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“Não se preocupe Robertinho; gostei de Irará. Achei muito interessante a cidade, as pessoas, a feira-livre daqui. Um final de semana desses, eu volto e trago minha esposa. Ela está precisando sair para espairecer. Perdemos um filho há pouco tempo em um acidente automobilístico, ela está muito deprimida”, me relatou Zeca de Magalhães preocupado com sua companheira. Ele ainda avaliou que seria bom ela trocar idéias com Nogueira, pois, assim como ela, Zé trabalha com artesanato e faz oratórios em miniaturas.
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À tarde, na hora da despedida Zeca me sugeriu uma idéia. “Vamos colocar Irará no projeto Ser-tão Brasil!”. Gostei da sugestão. Ele me falou que poderíamos criar uma representação através da Casa da Cultura. E já em 2007 entraríamos como cidade convidada. Uma excelente proposta para os iraraenses se integrarem a este movimento que a cada ano une, numa cidade sede diferente, a arte e a poesia de onze municípios do interior baiano, escolas e representações de mais de vinte bairros de Salvador e da RMS.
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Outro dia, vou subindo a ladeira em direção a Biblioteca Central do Estado, nos Barris, quando ouço um chamado. “Robertinho Irará!”. Era Zeca visual um pouco modificado devido a barba, mais crescida com relação ao dia do Colóquio. Parei para falar com ele. Brevemente me contou seus planos de mudança para Cachoeira, de montar uma livraria lá. Sua filha passou no vestibular para a Federal do Recôncavo e ele pensava em fixar residência no interior.
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Conversa prazerosa. Lembramos de projetos a serem feitos. Fiquei de procurá-lo para ver a idéia do Ser-tão. Idéias, planos, vivencias... Tudo abruptamente interrompido. Por uma goteira. Uma queda. Uma morte estúpida. Fatalidade humana, cujo sentido relutamos em compreender, sobretudo quando se parte ainda jovem de modo totalmente inesperado.
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Daquele último bate-papo, fica a lembrança do sorriso e do sotaque de alguém que acreditava na vida. Foram poucos encontros, poucas conversas, mas, ainda assim foi possível aprender algo com aquele poeta.
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José Narciso de Magalhães Carvalho de Moraes Filho era mais do que um dos poetas na praça, agitadores da Praça da Piedade nos anos 1970/80. Mais do que um nome da Poesia Marginal. Mais do que um produtor cultural. Zeca, pelo que pude perceber, foi um guerreiro em prol da cultura. Um humanista. Captei essa mensagem no Zeca que conheci. O “tempo” nos tirou a oportunidade de conhecê-lo mais.
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Fotos:

Vinhos & Versos - Emerson Nogueira

Outras - Daniel Cortês, Bruno Buke, Mateus Damasceno - não necessáriamente nessa ordem, ou nessa composição.

20.2.07

Era uma vez...

...duas grandes árvores na Praça da Bandeira (Jardim do Coreto) em Irará.









* Cliques feitos em 25 de janeiro de 2007.



16.2.07

Salvador Negroamor: imagens do verão

A exposição Salvador Negroamor com certeza está entre as imagens marcantes do verão soteropolitano. São 1.501 painéis expostos ao ar livre por toda parte da capital baiana. O destaque das imagens são pessoas do dia a dia da cidade de Salvador e de Angola.


Painel na esquina da Av. Ademar de Barros com Av. Oceânica

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Vendedores ambulantes, cobradores de ônibus, transeuntes do cotidiano da cidade, entre outros, configuram os “anônimos” apresentados na mostra. Claro, pessoas com nome e identidade, apesar da mídia parecer não considerar assim. Daí, as aspas.
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É notório que para se fazer a exposição e seus painéis gigantescos nos prédios, outdoors, fotografias em postes, entre outros mídias, gasta-se muito dinheiro. O projeto captou cerca de R$ 2 milhões via Lei Rouanet. Fato que tem gerado questionamentos e algumas polêmicas em torno da mostra.
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Discussões à parte, a repercussão da exposição também encontra espaço para comentários sobre o seu sentido e impacto social. Entre eles, os dos próprios fotografados. "Quando fui ver a foto da minha filha, na Linha Verde, fiquei parada, muda, sabe por quê? Estamos vendo a revolução dos humilhados", diz a dona de casa Hilda Almeida dos Santos, 48 anos, em entrevista para a reportagem do A Tarde On–line.
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Postes foram usados como suporte em quase toda a cidade
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Elevar a auto-estima destas pessoas é outro ponto defendido na exposição. Em entrevista ao programa Soteropolis, que vai ao ar pela TVE-Bahia, Sérgio Guerra, fotografo e produtor da exposição, também defendeu esta idéia.
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Numa outra entrevista para o jornal Correio da Bahia, Guerra vai além: “Quando olho para Salvador, vejo uma cidade dividida, preconceituosa e muitas vezes racista. O conceito de cidade alta e cidade baixa aqui é literal”, desabafa.
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É bom lembrar que Salvador Negroamor não se resume à mostra fotográfica. O projeto também compreende a produção de um CD, o edição de um livro e a fundação de uma ONG, a qual já criou uma escola para alfabetizar adultos na Feira de São Joaquim.
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“A Riqueza” - prima pobre
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De todos os argumentos, contra ou a favor, da exposição Salvador Negroamor, um me incomoda. Especificamente o comentário de alguns analistas sobre o “ineditismo da idéia de evidenciar pessoas “anônimas”” – olhe as aspar de novo.
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A mesma abordagem foi feita pela exposição a “Riqueza de Irará”, realizada pela Casa da Cultura de Irará em janeiro de 2005, dois anos antes de Salvador Negroamor. E, quem sabe, neste imenso Brasil, outros já tenham tentado fazer o mesmo sem sucesso.
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O diferencial é que na mostra realizada em Irará, não houve leis e, quase, nenhum outro tipo de incentivo. E, sem a magnitude da prima soteropolitana, a exposição iraraense não atingiu o grande público ou mobilizou a cidade.
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No entanto, o pouco destaque atingido pela mostra iraraense fez cumprir o seu objetivo. Ou seja, mostrar que pessoas são o maior patrimônio. E a maior riqueza de um lugar são as pessoas que o compõe. Prerrogativa que também marca Salvador Negroamor ao chamar atenção para a riqueza da capital baiana e de Angola.
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- visite portal do projeto Salvador Negroamor: www.salvadornegroamor.org
- leia abaixo texto publicado na época sobre a exposição “A Riqueza de Irará”.
Fotos de Shirley Stolze "tomadas de empréstimo" no site do Salvador Negroamor

Reconhecimento da própria fortuna

Mostra fotográfica surpreende fotografados
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- texto escrito e enviado para grupo iraraense (iraraense@yahoogrupos.com.br ) em fevereiro de 2005 -
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A Casa da Cultura de Irará realizou no sábado, dia 29 de janeiro, a segunda mostra fotográfica do mandato atual. Com imagens captadas por Zé Falcón, estudante de jornalismo na Universidade Federal da Bahia – UFBA, a mostra pretendia chamar a atenção da população iraraense para a beleza que existe “escondida” no dia a dia da comunidade.


Cartaz da Exposição mostra foto de transeunte da Feira Livre

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O titulo, “A Riqueza de Irará”, foi inspirado no pensamento de Edimário Duplat. Estudante do curso de Produção em Comunicação e Cultura da mesma Universidade. Edimário, quando conheceu Irará em julho de 2003, afirmou que “o maior patrimônio de Irará são as pessoas” e diante da própria afirmação se questionava: “O que faz essa gente ser assim? É a água?”. Seja pela água ou pelo fogo abrasador de quem é “nascido da luz do sol” (1), o certo é que a revelação reflete a riqueza de um de povo que parecia estar se descobrindo.

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Açougueiro admirado com própria imagem

Fotos expostas nas paredes, olhos brilhando nas faces. Para alguns, era difícil se imaginar retratados em reproduções, digamos... artísticas. D. Andreza, vendedora da barraca de sandálias na feira de Irará, confessou: “Eu já tirei muitas fotos rindo, mas nunca com um sorriso assim”. Emoção mesmo sentiu o açougueiro, apontando em estado de contemplação para sua imagem. Saiu, voltou, trouxe amigos para ver. O mesmo se deu com a senhora que vende mangaba.
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A jovem grávida exclamou, “aqui!”. Na foto, o policial alisava o seu ventre aguardando um próximo rico iraranese. A menina do caldo de cana e sua mãe concederam entrevista para a TV Subaé. Depois de se reconhecerem em fotografias, identificar-se-iam no vídeo, via jornalismo televisivo de Feira de Santana. A TV reportou, cartazes, “mosquitinhos”, “boca a boca”, ainda assim, nem todos ficaram sabendo do evento. Talvez por isso, não foram se ver retratados. Outros, como o moço que teve sua imagem publicada no cartaz, ouviram dizer por terceiros. “Ele é meu sobrinho, vou contar pra ele”, disse a tia do “modelo”. Teve quem saísse sem nada comentar. E para alguns, aquilo tudo era estranho.
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“Eles tiraram fotos até dos feirantes”. Pobre senhora, nem percebeu na sua afirmação a discriminação arraigada na sociedade brasileira há séculos. Aquela de que gente só são os nobres, políticos, celebridades, os VIPs (do inglês, very important person). Pessoas importantes mesmo, são eles. Os construtores do município, aqueles que fazem o dia a dia e movem a economia e a vida local. Quem sabe já com esta percepção, a funcionária da limpeza pública municipal questionou: “Por que não faz uma com os garis também?”. “Boa idéia”, respondeu Roberto Martins, presidente da Casa da Cultura, certificando seu pensamento de que uma verdadeira política cultural deve mexer ai, na auto-estima das pessoas. Assim eles se sentirão gente, povo, nação, edificando a sua identidade.
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Noção de política pública não pura e simplesmente apaixonada, mas já com a sua dose de racionalismo. Admitindo a não rejeição do pensamento vigente, mas pensando em maneiras de como usufruí-lo para depois nega-lo. Sendo assim, nada de mais estando em pleno circuito festivo, colocar um bar na exposição. Isso permitiu o seu parcial funcionamento durante a noite, visto que as fotos maiores permaneceram nas paredes e possibilitou sua visão até para aqueles que não se importavam em ver a Mostra Fotográfica. “Isso aqui não é exposição não. Isso aqui é um bar. Só que botaram esse negocio ai”. Explicou um popular em plena festa, não percebendo a riqueza de Irará e ficando um pouco mais pobre.
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Com uma exposição que mostrava as pessoas de Irará em meio à maior festa popular do município, a festa da padroeira, a Casa da Cultura realizou mais uma etapa de sua atividade. Gratos a todos que contribuíram. Sr. Raimundo Ribeiro pelo espaço, Viva Irará pelas esteiras, Casa do Artesão pelos potes e especialmente ao camarada Zé Falcón. Ele é desses que, como diria o conterrâneo Tom Zé, nasceu com defeito de fabricação e acredita que se apresentarmos a este povo a sua própria fortuna, pode começar a “nascer Jesus Cristo e Fidel Castro pra todo lado”.
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(1) Existe um quase consenso popular de que “Irará” em linguagem indígena quer dizer: nascido ou criado da luz do sol ou do dia. No entanto há dicionários de línguas indígenas a classificar “Irará” como animal mamífero que gosta de se alimentar de mel. Existem outras versões populares para o significado do nome da cidade.

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Texto do Cartaz:

"É preciso que a lente mágica enriqueça a visão humana"*

As pessoas. O povo. Na feira, nas ruas, no seu trabalho diário. Os indivíduos que constroem o Irará de cada dia. Alguns deles, sempre vemos, mas não sabemos nome, ou mesmo onde moram. Estas personalidades, e todas as outras não captadas pela lente de Zé Falcón, cada uma a seu modo, fazem este município ser o que é. Elas são o nosso maior patrimônio. A riqueza de Irará.

* Aspas de Carlos Drummond de Andrade.